"Sem mecanismos de proteção eficiente, essa parcela da população era a que mais se via prejudicada com a aceleração de preços, ao verem seus salários reais corroídos em poucos dias", afirma.
O economista aponta ainda que o fim da inflação contribuiu enormemente para a redução da desigualdade no Brasil e apontar quais são as reais mazelas e atacá-las com maior eficácia: o desequilíbrio fiscal, a enorme desigualdade de renda, os desajustes nas finanças dos bancos públicos e dos estados e municípios, as ineficiências produtivas no setor privado, entre tantos outros problemas. Desta forma, o fim da inflação elevada permitiu aos formuladores de política atacar os verdadeiros problemas do setor público e ao, ao setor privado, a focar na eficiência produtiva e de gestão.
Grande parte da população brasileira com menos de 25 anos não se lembra das corridas aos supermercados mensais para realizar estoques de alimentos e outros produtos, com o receio de que, no mês seguinte, assim que recebessem o salário novamente, os preços já tivessem sido reajustados (não foram raras as vezes que estas elevações passaram dos 100%). Na ocasião, poucos eram os produtos comprados a prazo, requisitar crédito era burocrático e fazer programação orçamentária era tarefa praticamente impossível.
Apesar de esta ter sido a realidade dos brasileiros ao longo de três longas décadas, com períodos de grande agravamento entre os anos 80 e 90, o Plano Real conseguiu - após mais de seis planos de estabilização - conter a inflação que corroia o poder de compra dos brasileiros. Sua implantação foi tão bem sucedidade que é considerado, pela University Sorbonne-Pantheon, em Paris, um dos cinco melhores planos econômicos de estabilização do século XX.
Às vésperas de sua implantação, o preço aos consumidores fechou em 47,43% ao passo que, dezesseis anos depois, a inflação está controlada e, de acordo com o último boletim Focus do Banco Central, a previsão para o indicador é de 5,55% ao término de 2010. "Após décadas de inflação elevada e sem controle, o Plano Real conseguiu trazer a inflação para patamares bastante razoáveis. A inflação baixa é pré-condição para o desenvolvimento econômico. Sem ela, as empresas e famílias são incapazes de planejar no longo prazo. Com inflação baixa, os preços relativos se alinham e apontam para onde devem fluir os recursos da economia", afiram Octavio de Barros, economista chefe do Bradesco.
Além disso, com preços reduzidos, o mercado de crédito bancário e o mercado de capitais se desenvolveram, pois a condição básica para que haja transações no longo prazo é que ocorra preservação do patrimônio, algo que só é possível com inflação previsível e baixa, que é aquele nível que faz com que as mudanças de preços passem despercebidas pela população e pelas empresas.
Octávio de Barros ressaltou o sucesso do Real com uma frase famosa entre os economistas a respeito do Plano. "Nada é mais poderoso do que uma idéia cuja hora tenha chegado". O Plano Real foi um pouco disso. Após inúmeras tentativas de estabilização econômica fracassadas, a hora do Plano Real chegou.
(Sérgio Vieira - Agência IN