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FMI muda imagem para administrador de crises mundiais

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Landon Thomas Jr., Portal Terra

DA REDAÇÃO - O Fundo Monetário Internacional (FMI) está pronto para negociar. Estimulado por grande disponibilidade de recursos e pelas vastas ambições de seu viajado diretor executivo, Dominique Strauss-Kahn, o Fundo vem se apresentando agora como uma instituição indispensável, em meio à crise das dívidas soberanas.

Tentando deixar para trás sua passada imagem de rigoroso fiscal político, o Fundo está se reformulando como banco de investimento para instituições multilaterais, e se mostra disposto a fazer o que quer que seja preciso para promover um acordo.

Nas últimas semanas, a instituição desempenhou esse papel quanto à Grécia, convencendo a União Europeia a fornecer mais dinheiro e prazo adicional ao país falido para que aprove cortes de gastos; o Fundo também ajudou na montagem do pacote europeu de resgate de um trilhão de euros.

Strauss-Kahn, 62 anos, um economista francês, se tornou o rosto público daquela que sempre foi a mais insondável das instituições, e descreveu com evidente prazer os telefonemas e mensagens trocados com os líderes europeus assustadiços, no domingo. A única maneira de enfrentar a perda de confiança dos investidores, ele argumentou, é criar um plano que exija muita disciplina fiscal mas também ofereça muito dinheiro. E na madrugada do domingo para a segunda ele enfim conseguiu o que desejava. "Fomos ouvidos", ele disse em entrevista na terça-feira. "Creio que o papel do Fundo nas discussões internacionais seja um fator positivo".

Os mercados de ações e euro subiram na segunda-feira, mas na terça a alta perdeu ímpeto, quando os investidores começaram a questionar se o novo plano, e o papel expandido do FMI quanto a fiscalizar a disciplina fiscal europeia, seriam suficientes.

Para Strauss-Kahn, um político francês frustrado que alguns dizem está preparando o terreno para disputar a presidência do país com Nicolas Sarkozy no próximo pleito, confrontos com presidentes de bancos centrais e políticos representam o grande desafio de sua carreira.

Como parte do acordo fechado no final de semana com a União Europeia, Strauss-Kahn conquistou, com certa audácia, um papel proeminente naquele que com certeza será um dos maiores desafios de política econômica da próxima década: persuadir os países europeus, e até sua França, a reduzir as dimensões de seus Estados endividados, se eles desejam que os mercados continuem a lhes emprestar dinheiro a juros atraentes.

E embora haja quem questione de que maneira assumir mais dívidas ajudará a Europa a sair de sua crise de dívidas, Strauss-Kahn espera que o exemplo da Grécia, forçada a depender de uma dolorosa mistura de profundos cortes de gastos e elevações de impostos a fim de retornar à saúde fiscal, venha a forçar países como Espanha e Portugal a realizar mudanças difíceis em suas políticas econômicas.

"O caso grego é uma boa lição e influenciará certos países", disse, embora tenha preferido não identificá-los.

Ainda assim, alguns antigos funcionários do FMI afirmam que, em sua avidez por conquistar manchetes em seu continente de origem, Strauss-Kahn pode ter facilitado em excesso a vida de seus parceiros europeus.

No caso da Grécia, por exemplo, o Fundo cedeu aos desejos da Europa e nem mesmo discutiu a opção de reestruturar a dolorosa dívida do país. Isso teria sido uma forma de atenuar um pouco as dores dos gregos e transferir parte do ônus aos banqueiros que realizaram empréstimos irresponsáveis e são co-causadores da crise.

"Dizer não só requer uma coisa -coragem", diz Barry Eichengreen, economista político da Universidade da Califórnia em Berkeley e antigo assessor do FMI.

"Foi um erro terrível não colocar a reestruturação em debate, e é otimismo ingênuo acreditar que a dívida pode subir a 150% do Produto Interno Bruto (PIB) e imaginar que os gregos considerem aceitável transferir 10% de sua economia aos credores estrangeiros", acrescentou.

É uma acusação séria -a de que o Fundo pode estar sacrificando a análise objetiva em benefício da flexibilidade política.

Strauss-Kahn reconhece a questão, mas não aceita sua premissa. "Uma reestruturação da dívida não teria ajudado a resolver o problema de competitividade da Grécia", afirmou.

Mas explicou sua disposição de aceitar compromissos como necessária. A Grécia estava diante da bancarrota e em disputa com seus associados europeus -o que abriu espaço para o Fundo interviesse e não apenas oferecesse US$ 40 bilhões em financiamento mas uma visão de seu lado mais ameno, ao convencer a irada Alemanha de que as condições que o país desejava impor aos gregos seriam onerosas demais.

"Não me importo de ser o malvado", disse Strauss-Kahn, em referência à reputação adquirida pelo Fundo durante a crise asiática do final dos anos 90, quando costumava defender sempre as mais severas medidas econômicas. "Mas nesse caso nós chegamos à conclusão de que não seria realista; o plano deles era que o ajuste todo estivesse concluído já em 2012, o que seria doloroso demais", disse. Em lugar disso, o Fundo recomendou que os cortes de gastos sejam realizados em período mais longo.

Tradução: Paulo Migliacci ME