Carolina Eloy, Jornal do Brasil
RIO - A expansão do consumo interno com a retomada da economia mundial pós-crise combinada ao aumento de gastos do governo em ano eleitoral pressionam a inflação deste ano. A expectativa do Banco Central se deteriorou nos últimos três meses e ultrapassou a barreira dos 5% para 2010, acima da meta central de 4,5%, destacou o relatório de inflação da autoridade monetária do primeiro trimestre, divulgado quarta-feira. A projeção do BC para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano passou para 5,2%, contra os 4,6% previstos em dezembro. A margem de tolerância da meta é de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.
Segundo o relatório, para os próximos trimestres, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC avalia que a produção industrial deve continuar crescendo de maneira robusta, com reflexos positivos sobre emprego e nível de renda.
O efeito de retomada da economia depois do período de recessão pressiona os preços, destaca Gilberto Braga, professor do Ibmec-Rio. Para ele, o processo deve ser equilibrado aos poucos conforme aumentem os investimentos na produção. Braga diz ainda que os gastos do governo com obras e reajuste de funcionários em ano eleitoral aceleram a inflação. Para ele, a elevação da Selic atualmente em 8,75% ao ano deve equilibrar os gastos públicos ao limitar o consumo da população.
A elevação da taxa básica de juros será necessária para controlar a inflação. Sem este aumento, a inflação passaria de 6% este ano avalia Braga, que aposta em 11,25% para a Selic no final de 2010.
O BC revisou para baixo a previsão para a inflação de 2011, que passou de 4,6% para 4,4%, com a expectativa de alta dos juros. Pelas estimativas do mercado, a Selic deve ficar em 11,25% ao final deste ano, e o dólar estaria a R$ 1,83 no último trimestre de 2010 e a R$ 1,86 nos três meses finais de 2011.
Samy Dana, professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas, ressalta que o aumento dos juros demora em torno de seis meses para impactar o consumo. Por isso, somente em 2011 a inflação seria mais baixa. Ele destaca que a Selic nunca esteve em patamar tão baixo quanto o atual desde o início do Plano Real (1994).
A queda da Selic ampliou o acesso ao crédito, facilitando o consumo e pressionando a inflação. A manutenção dos empregos e a criação de novas vagas também influenciam a demanda. Aos poucos, com a elevação dos juros, a demanda deve ficar mais equilibrada ressaltou.
Para Newton Marques, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), o país ainda está se recuperando da crise e, como diversos países, está ampliando os gastos. Para ele, a alta inflacionária está dentro da meta e a preocupação deveria ser com o financiamento das dívidas públicas.
Marques ressalta que o BC não deve elevar muito os juros este ano para não prejudicar as eleições. Com o reajuste da Selic, mesmo que pequeno, não há nada que impeça a inflação de permanecer dentro da meta .
O BC mantém a previsão feita no documento de dezembro de crescimento de 5,8% para Produto Interno Bruto (PIB) em 2010.
No relatório, a autoridade monetária destaca que a retomada da atividade econômica brasileira mais consistente e acentuada do que a observada em âmbito mundial foi ratificada pelo aumento do PIB registrado no último trimestre de 2009. Para o Banco Central, o resultado o PIB torna-se mais relevante, já que refletiu o crescimento de gastos com investimentos.