PIB cresce 1.128% e cidade de GO tem boom de população

Márcio Leijoto, Portal Terra

ALTO HORIZONTE (GO) - Alto Horizonte (GO), que fica 325 km ao norte de Goiânia, foi o município brasileiro que teve a maior alta em seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2007. Neste ano, uma mineradora começou a beneficiar sulfato de cobre na localidade e o conjunto de riquezas produzidas passou de R$ 23,5 milhões para R$ 322 milhões em apenas 12 meses, um avanço de 1.128%. A expansão já gera mudanças para o povo da cidade, como um aumento da população e até uma especulação imobiliária incomum para municípios deste porte.

Amarildo Ribeiro Rosa, 46 anos, nascido e criado em Alto Horizonte, foi embora da cidade quando atingiu a idade adulta para trabalhar. Tentou a sorte com caminhões em Uruaçu (GO) e Goiânia, onde se casou e fez sua família. Nunca imaginou conseguir manter um bom padrão de vida na sua cidade natal. Segundo ele, não havia nada em Alto Horizonte. "Só tinha umas quatro ruas e muito mato e era muito difícil ter serviço aqui", conforme descrição de outro altohorizontino, o pedreiro Adolfo Juliano da Silva, 64 anos, que foi há 19 anos para o Pará em busca de novas oportunidades de emprego.

Ambos voltaram. Rosa há um ano e Silva há três meses. O primeiro comprou três carros e controla o único ponto de táxi na cidade, em frente ao terminal rodoviário. O segundo começou a trabalhar na construção de uma casa, onde ganha R$ 30 por dia trabalhado e diz que desta vez vai ter trabalho em sua cidade até o seu último dia de vida. "Até estranhei quando voltei. Parece uma cidade de verdade agora."

Alto Horizonte se emancipou do município de Mara Rosa há 18 anos. Até 2003, era mais um povoado com 2,5 mil habitantes onde o meio de sustento mais viável era a agricultura familiar. Foi neste ano que a Mineradora Maracá, do grupo canadense Yamana, se instalou e começou a trabalhar em cima de uma mina de cobre e ouro existente dentro dos limites do município.

Desde então, moradores de cidades vizinhas e até de outros Estados começaram a se mudar para Alto Horizonte, em busca de emprego na mineradora. Em 2007, quando a empresa começou a produzir e beneficiar sulfato de cobre da mina, o município já tinha 3,1 mil habitantes. Foi neste ano que o valor das riquezas geradas no município saltou, tendo a maior expansão entre os 5.565 municípios brasileiros, conforme o estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado nesta semana. Pela previsão do instituto para 2009 a cidade goiana tem 3,4 mil habitantes, mas a prefeitura cita que seriam 4,5 mil.

A empresa tem 560 funcionários diretos e 480 terceirizados. Mas a prefeitura de Alto Horizonte acredita que a mineradora seja responsável por mais de mil empregos indiretos.

Quem mais ganhou com as atividades da mineradora foi a própria prefeitura da cidade. A receita saltou de R$ 400 mil para R$ 2,5 milhões por mês, por conta da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cefem). Valor que chegou a R$ 3 milhões "nos meses bons da mineradora", conforme o prefeito Luiz Borges da Cruz (PSDB), o Cabo Borges, que está em seu segundo mandato consecutivo.

Segundo ele, a cidade pode chegar rapidamente a 6 mil habitantes. "O nosso desafio agora é aproveitar esse dinheiro todo para investir na cidade e impedir que ela fique na miséria quando a mineradora for embora."

Apesar de ter mudado muito para quem sempre viveu lá, Alto Horizonte continua com infraestrutura de cidade de interior sem nenhuma atividade econômica relevante fora a mineradora, sendo que a população depende quase que exclusivamente do poder público. Não há agências bancárias, nem comércio de grande volume. O meio de transporte mais usado é a bicicleta. A primeira casa lotérica chegou há dois meses e é administrada por um funcionário público municipal. O último ônibus que sai da cidade passa às 18h30. Depois, só às 6h30 da manhã do dia seguinte.

Por enquanto, os únicos sinais de ostentação são dados pela prefeitura. O prédio novo foi inaugurado neste semestre com equipamentos de última geração e mobiliário novo. Os prédios das igrejas também são recentes e de estilo um pouco mais moderno.

Durante a semana, as ruas ficam vazias de dia. À noite, os homens vão para os pequenos bares (botecos) ou trailers que vendem sanduíches. As mulheres ficam sentadas em cadeiras na frente de suas casas ou circulam pelas ruas de bicicletas. Nos finais de semana, todos se encontram na praça central ou no salão de festas para dançarem forró.

Em uma mesa de sinuca num dos bares que circundam a principal praça da cidade, um grupo de rapazes se diverte quando ficam sabendo que o PIB per capita de Alto Horizonte (valor da riqueza do município dividido pelo número de habitantes) em 2007 foi de R$ 103 mil. "Se eu tivesse essa grana toda, ia trazer o Deja Vu (grupo de pagode) para cá todo mês", disse um deles, que não quis se identificar.

Quem vive em Alto Horizonte vê na presença da mineradora uma oportunidade de renda e emprego, mas não se ilude com o sonho de ficar rico. "Tem gente que vem aqui achando que vai encontrar um garimpo, mas se decepciona logo e acaba indo embora. Hoje mesmo a nossa assistente social teve de dar passagens de ônibus para três homens que estavam aqui há 60 dias, atrás de ouro e emprego fácil e não conseguiram nada, nem dinheiro para voltarem de onde vieram", disse o Cabo Borges.

O empresário Ivan Sebastião da Cruz, 44 anos, morava em Goiânia e começou a observar Alto Horizonte pouco depois que a mineradora se instalou lá. Comprou um lote próximo a prefeitura e passou a visitar a cidade a cada dois meses. Há um ano, ergueu uma loja de materiais de construção. Nos últimos dois anos, pelo menos 500 casas já foram ou estão sendo construídas. A maioria teve o lote cedido pela administração municipal.

Um dos principais problemas enfrentados por quem se muda para Alto Horizonte atrás de emprego é a especulação imobiliária. Os valores de locação de um imóvel na cidade são parecidos ou até mais caros que em Goiânia. Uma casa simples de três quartos sai por R$ 1,4 mil por mês.

A professora do Jardim I da escola municipal da cidade, Regiane da Silva, teve de se mudar para Nova Iguaçu de Goiás, cidade vizinha, para continuar dando aula em Alto Horizonte. Ela pagava R$ 250 por um imóvel de um cômodo. Agora, paga R$ 150 por um de seis quartos. "A especulação imobiliária é muito grande, nem parece que é uma cidade de 4,5 mil habitantes", disse.

O prefeito disse que tenta enfrentar os altos valores dos aluguéis doando lotes para que as pessoas construam suas casas. De 2008 para cá, a administração municipal construiu e reformou 70 residências e doou terreno para a construção de outras centenas em três novos bairros.

A especulação imobiliária e a falta de infraestrutura faz com que muitas funcionários da mineradora prefiram morar em Campinorte, que fica a 20 km da sede da empresa. Mais da metade dos 560 profissionais da empresa não moram em Alto Horizonte. Principalmente os que ganham mais. "Eles preferem Campinorte porque fica mais perto da BR-153 e tem mais estrutura", afirmou Wilson Borges, gerente administrativo da Maraca.

Na questão da segurança, pouca coisa mudou. Aumentaram os furtos, mas não os roubos. Prisão, só se for de homens que não pagam pensão alimentícia. "Acho que desde que a mineradora veio para cá só teve dois ou três homicídios", disse o soldado da Polícia Militar (PM) Romerito Ribeiro de Freitas.

Alto Horizonte não tem delegacia. Só um posto da PM. São sete policiais que se revezam nos plantões. "Como aqui não tem agência bancária e os funcionários da mineradora que ganham mais estão em Campinorte, não tem dinheiro para ser roubado", afirmou o soldado da PM Divino de Moraes.

Para Alto Horizonte, a tendência é que os próximos ocorra uma evolução ainda maior no PIB per capita. Isso porque o valor do cobre atingiu seu auge em 2008, antes da crise econômica que afligiu o mundo a partir do segundo semestre. Atualmente, após ter uma queda brusca no mercado, o cobre está com 75% de seu valor de pico, que foi atingido em julho de 2008. Além disso, a Maraca pretende aumentar em 10% a extração e beneficiamento de cobre e ouro na mina já a partir de 2010.