Iesa Rodruigues, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - A volta às origens serve como conceito empresarial em tempos de modernização e crises. Uma das marcas mais influentes da moda brasileira reflete esta estratégia de meia-volta, após 10 anos de evolução contínua rumo ao que poderia ser a estabilização do negócio. Trata-se da Farm, grife carioca que começou vendendo collants de lycra na Babilônia Feira Hype, há 10 anos. Os sócios, Marcelo Bastos e Kátia Barros, apostaram na moda, mesmo quando chegaram a vender seus carros para firmar a marca, que acabou famosa pela identidade com o estilo das meninas cariocas.
Dez anos e 30 lojas depois, a Farm faz uma volta ao passado. _Crescemos muito, temos espaços arquitetonicamente lindos em Ipanema e no Fashion Mall, mas começamos a sentir falta do conceito antigo, do lado artesanal, quando prendíamos flores nas etiquetas, uma a uma, à mão. Descobri o que precisávamos, quando abrimos uma loja de verão no Jurerê (em Santa Catarina), com uma parede coberta de plantas. Aquela era uma visão orgânica, viva, que emocionava quem via _ contou Katia, na filial da Gávea. A butique no pequeno shopping foi rebatisada como Farm Atelier.
_ Queria que fosse uma experiência mais lúdica, mais poética. Em vez de reforma de arquitetura, preferi uma cenografia, que foi criada por Gigi Barreto. Virou quase um ambiente doméstico, sem vitrine formal,com uma prateleira de flores e muitos objetos tirados da fábrica e das nossas casas - arremata Katia.
A aparente regressão desta loja modifica pouco o DNA da marca que bate recordes de venda nos shoppings onde se instala, incluindo o Iguatemi de São Paulo, meca do luxo internacional. Ao lado das flores (artificiais) e das cadeiras brancas (para os maridos esperarem durante as compras femininas), a coleção mantém o jeito jovem, focado na universitária até 25 anos, que esgota estoques de vestidos estampados e calças jeans em todos os modelos da moda. As primeiras vitrines da versão Atelier resultam da viagem de pesquisa da equipe de estilo até a Paraíba, que vai render uma colagem inspirada em paisagens, personagens e artesanatos brasileiros, juntamente com o toque hype do rock Brasil nas jaquetas tacheadas e nas peças de couro, complementadas com acessórios dourados.
_ Fizemos uma parceria com a sociedade Viva Cazuza, para estampar frases das músicas em roupas. Usamos elementos gráficos maximizados e referências em tucanos, onças, bolas de futebol, arte naïf. As pranchas de surfe com florões de chita já têm lista de espera de consumidoras que não surfam, mas usam as pranchas como decoração.
Nesta coleção com 1.200 referências, o preço médio é R$ 95. O que não impede de haver vestidos de seda por quase R$ 2 mil. Esta coleção recém-estreada já vende 20% a mais que a do ano passado, no mesmo período. Metade da produção que abastece as 30 lojas sai da fábrica em São Cristóvão, de onde Katia e Marcelo comandam a rede. Katia, que na entrevista vestia o chemise com paisagem de Fernando de Noronha, está satisfeita com o desvio poético da sua marca. A Farm é pé na areia, apostamos no preço bom, mas também na emoção da vitrine e do trabalho".