Marcelo Ambrosio, Jornal do Brasil
CANNES - Quando lançou a ideia de pedir aos funcionários da companhia que trabalhassem algum período de graça, Willie Walsh, o CEO da British Airways (BA) mereceu as seções dedicadas a notícias de humor na imprensa de todo mundo. Mas Willie não estava brincando, e continua achando que só uma iniciativa como essa poderia ajudar a BA a estancar a sangria com os sucessivos prejuízos à aviação comercial causados pela crise econômica, cujo montante deve bater a casa dos US$ 9 bilhões até o fim do ano, dos quais US$ 3,5 bilhões entre as empresas européias. A demanda por passageiros cairá 8% e o crescimento das aéreas, depois dos -10% de 2008, provavelmente ficará em -9%, um estado crítico.
Eu perguntei às pessoas com quem trabalho: vocês querem salvar o negócio? Esse é o único jeito descreveu Walsh à uma platéia de executivos e jornalistas na qual o Jornal do Brasil era o único veículo latino-americano presente reunidos no Sita IT Summit, encontro mundial sobre tecnologia de aviação realizado semana passada na Riviera Francesa. A iniciativa do presidente levou 70 mil funcionários ao voluntariado, e outros 40 mil, segundo ele, ao trabalho parcial grátis.
Eu estou entre os que se voluntariaram acrescentou o CEO (que ficará sem salário este mês), lembrando que no caso da BA, o colapso financeiro atingiu 78% do seu volume de passageiros, eminentemente executivos de negócios.
Economia
Walsh não está sozinho nem no desespero estamos em modo de sobrevivência , afirmou, repetindo um jargão da área usado pelo presidente da International Aviation Transport Association (Iata), Giovanni Bisignani nem na obsessão por saídas criativas para a redução de custos. A maior parte delas vem exatamente de investimentos em tecnologia de informação. Que também foram cortados em média 23% em função da crise e cresceram apenas 1,7% em 2008. É pouco para o tamanho da confusão, segundo a avaliação geral, mas o máximo do sacrifício possível, mantido a custa de muito estresse com fornecedores.
Mais de 70% das empresas renegociaram todos os contratos na área de TI atesta Mark Pilling, analista e editor da Aviation Business, publicação especializada, e apresentador principal do evento.
Ainda assim, as soluções apresentadas já são um alento importante, além de melhorarem, e muito, a vida de quem precisa voar. A automação do sistema de check in, por exemplo, é um ganho real, tanto quanto a criação de novas fontes de renda com serviços de internet em voo e controles de operações remotas em terra a partir de GPS. Não à toa, 49% de tudo que será aplicado no desenvolvimento tem a ver com o processamento de passageiros. Neste campo, por sinal, a preocupação com o terrorismo já ficou em terceiro plano: na lista de prioridades, ficou com 21% do total investido, atrás ainda dos 34% que serão gastos na simplificação operacional.
É claro que é o melhor caminho sempre é simplificar o processo, esse é um mercado que não só está em queda, como em transformação defendeu um bem-humorado Walsh. Afinal, o quiosque de check in não fica resfriado e nunca está de mau-humor por ter de atender alguém que quer embarcar às quatro horas da madrugada completa.
De todas as alternativas apresentadas, a mais consolidada diz respeito exatamente à assimilação gradativa da internet e de diversas ferramentas, inclusive as redes sociais, no escopo principal do negócio, como atesta Paul Coby, chairman da Sita e diretor da área de tecnologia da própria British Airways. Coby comentou os resultados de uma pesquisa anual realizada com as 200 maiores empresas de aviação do mundo.
Ficou patente que todas usam esse canal para vender. A capacidade técnica atual é de 60% e nos próximos três anos deve chegar a 92% analisa Coby, referindo-se ao volume e a diferenciação de serviços oferecidos pelo web check in.
No levantamento, os representantes das companhias apontaram como a maior dificuldade para a recuperação o fato de terem sido obrigados a cortar em TI para evitar a falência. A saída foi buscar soluções baratas e que se mostraram viáveis.
A Easyjet (uma das maiores companhias de baixo custo da Europa) gastou apenas US$ 100 mil para criar uma intranet usando uma ferramenta da Microsoft afirma Henry Hartveld, analista, comentando o uso de aplicações populares.
Entre esse cardápio à disposição das companhias Hartveld destacou o papel do Twitter. Segundo ele, há empresas que usam o miniblog como um canal de atendimento para quem, por exemplo, precisa saber como remarcar um voo perdido.