Fabiana Batista, Jornal do Brasil
ARICA (CHILE) - Em um pequeno museu no Valle do Azapa, guardam-se alguns tesouros da arqueologia mundial. Corpos mumificados de adultos e de crianças datam de 6 mil anos antes de Cristo e ostentam técnicas de mumificação consideradas mais antigas e eficientes que as encontradas no mundo faraônico egípcio. A conservação desses corpos também contou durante todos esses anos com o clima árido (chove 1 milímetro por ano na região) e estável deste vale, localizado próximo à cidade chilena de Arica, no externo norte do país, quase na divisa com o Peru.
Esse mesmo clima vem atraindo para a região as maiores multinacionais do agronegócio, que buscam, nesse grande laboratório ao ar livre, a condição ideal para alcançar resultados em um espaço de tempo mais curto. A suíça Syngenta também chegou neste mês ao Valle chileno onde iniciou a implantação de um centro de investigação que vai centralizar todo o desenvolvimento mundial de tecnologia de sementes da companhia, inclusive das que chegarão ao Brasil nos próximos anos. O Centro de Pesquisa de Cultivos vai receber até 2013 investimentos de US$ 20 milhões, dos quais cerca de US$ 7 milhões já foram aportados, de acordo com o presidente da Syngenta para a América Latina, Horacio Busanello.
Este centro será cinco vezes maior do que os outros já implantados pela companhia na área de sementes. O foco será desenvolvimento de cultivares de soja, milho e girassol para todos os países onde a Syngenta atua com as culturas. Espera-se que em um ou dois anos materiais genéticos já sejam enviados do Valle do Azapa para testes de campo no Brasil.
Para soja, por exemplo, as pesquisas buscam variedades competitivas resistentes à ferrugem asiática, nematóides e de ciclo curto acrescenta Gloverson Moro, diretor de pesquisa e desenvolvimento da divisão de sementes da Syngenta para a América Latina.
O executivo explica que a baixa oscilação de temperatura é muito favorável aos estudos:
Temos de 25 a 28 graus durante todo o ano, o que reduz nossos custos com climatização, já que não temos variações bruscas entre inverno e verão. Além disso, essas condições garantem eficiência na auto-fecundação das plantas (quando estas ficam mais sensíveis às oscilações), tornando-a até três vezes mais rápida.
Por todas essas vantagens, grandes companhias já anunciaram investimentos que somam US$ 50 milhões nos próximos anos, já incluindo os US$ 21 milhões da Syngenta. A indústria de serviços globais representa um dos cinco eixos prioritários da política de inovação chilena, segundo Jean Duhart, subsecretário de Economia do Chile.
Arica se consolida como protagonista de uma das indústrias de maior potencial no país diz o representante do governo chileno.
De acordo com dados do país andino, há mais de 60 multinacionais que escolheram o Chile como plataforma de investimento com projetos de pesquisa, desenvolvimento e aplicação de tecnologia de ponta. O país se destaca como o sexto exportador mundial de sementes e o primeiro do hemisfério sul.
Somente na temporada 2008, as vendas deste setor ao exterior somaram US$ 290 milhões, o que representou uma alta de 111% em cinco anos informou Duhart.
Mundialmente, a Syngenta prevê investir em pesquisa US$ 1 bilhão em 2009. O orçamento por país não é informado pela companhia mas, segundo Moro, neste ano já foi inaugurado um novo centro de pesquisa no Brasil, em Lucas do Rio Verde, estado de Mato Grosso, e um outro deve ser construído no país em 2010, cujo lugar ainda não foi divulgado pela companhia. No Brasil, a empresa possui quatro centros de pesquisa de sementes e um de produtos químicos. Detém ainda uma unidade de investigação na Argentina e, agora, também no Chile. No ano passado, a empresa teve duas variedades transgênicas de milho aprovadas comercialmente no Brasil (BT 11, tolerante à lagarta e a GA21, tolerante ao glifosato). Uma variedade de milho que combina as duas resistências está submetida à aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.