Filósofo é o novo presidente do Bradesco

Maria Luíza Filgueiras e Vinícius Pinheiro, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Um filósofo na presidência do Bradesco. Se a característica soa pouco usual para o perfil de um banqueiro, Luiz Carlos Trabuco Cappi pode surpreender. Quem o conhece garante que entende de pessoas, produtos e números. O executivo, hoje presidente da Bradesco Seguros, foi indicado pelo próprio Lázaro de Mello Brandão, presidente do Conselho de Administração, para assumir a diretoria executiva do conglomerado.

Trabuco assume a gestão em março, com a saída de Márcio Cypriano, que atingiu a idade limite prevista em estatuto, de 65 anos. Apesar de uma discreta expectativa do mercado de alteração nas regras da empresa, tal como feita para o antecessor no início da década de 1980, para permitir a continuidade da gestão Cypriano por mais cinco anos, a nomeação não surpreendeu a ninguém.

O Bradesco sempre se caracterizou por priorizar as pratas da casa, e o Trabuco é muito afinado com a cultura do grupo diz João Augusto Salles, analista da Lopes Filho & Associados.

Continuidade

Além de favorito, o mercado apontava como possíveis sucessores de Cypriano o vice-presidente José Luiz Acar Pedro, responsável pelo Bradesco Banco de Investimento (BBI), e também o presidente da mineradora Vale, Roger Agnelli, que fez carreira na instituição. Agnelli é considerado a carta na manga do conselho, mas para a posteridade não haveria interesse do executivo em trocar uma gestão bem-sucedida na Vale e seu fácil trâmite no governo.

Para Roberto Luis Troster, sócio da empresa de serviços financeiros Integral Trust, a escolha reforça o compromisso do Bradesco com a continuidade no modelo de gestão.

Ele conhece o banco como ninguém e fez um ótimo trabalho na seguradora elogia.

A operação da seguradora, menina-dos-olhos no quesito rentabilidade, já responde por cerca de 35% do lucro de todo o conglomerado, o que ajudou a evidenciar a atuação do executivo. Trabuco é visto como um homem da comunicação. Boa amostra disso é a quantidade de cargos que acumula participa, como membro ou diretor, de nove entidades e conselhos. A avaliação do mercado é que pode trazer ao grupo uma visão acurada sobre produtos, desenvolvida nas cadeiras de marketing que ocupou ao longo da carreira, incluindo a diretoria da Associação dos Dirigentes de Vendas do Brasil, uma diretoria na Febraban e a presidência da comissão de marketing da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança.

A troca de comando coincide com a perda de liderança do Bradesco no ranking dos bancos privados do país, devido à fusão entre Itaú e Unibanco. O desafio é não só manter como aumentar a participação de mercado do banco, num cenário de consolidação do setor e de perspectiva de desaquecimento econômico, afetando o pujante mercado de crédito.

Com a redução no ritmo de crescimento do crédito, ficará mais difícil para os bancos manterem os níveis de rentabilidade avalia.

Mas Cypriano assumiu o Bradesco também em um momento econômico turbulento, quando a moeda nacional sofreu maxidesvalorização, a atividade industrial e comercial do país teve desaceleração e houve mudança de regime cambial. Não impediu que o grupo multiplicasse por cinco seu valor de mercado em dólar no prazo de uma década saltou de US$ 5,32 bilhões em janeiro de 1999 para US$ 27,96 bilhões em janeiro de 2009, segundo a Economatica.

Em um momento em que o banco é pressionado a ir às compras, o legado de Cypriano é composto justamente por aquisições consideradas suaves, que não comprometeram o caixa do grupo e foram digeridas com tranquilidade, absorvendo talentos, enxugando gastos para aproveitar a sinergia entre negócios e penetrando em nichos de mercado que renderam o slogan de banco completo. Durante a gestão, o Bradesco aplicou mais de R$ 6 bilhões em aquisições de bancos e carteiras, reforçando áreas como crédito ao consumidor, financiamento de veículos, crédito consignado e gestão de recursos.