INFORME ECONÔMICO
Vorcaro cita 'batidas de [André] Esteves' em mensagem a Moraes, mas Globo blinda dono do BTG; entenda
Por JORNAL DO BRASIL com Revista Fórum
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Publicado em 06/03/2026 às 11:05
Alterado em 06/03/2026 às 11:05
André Esteves Raquel Cunha/Folhapress
Por Plínio Teodoro - No vazamento seletivo que revelou a troca de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro em 17 de novembro, dia da primeira prisão do banqueiro pela Polícia Federal (PF), aparece uma misteriosa referência a André Esteves, que foi ignorada por Malu Gaspar na coluna que revelou os prints da conversa nesta sexta-feira (6).
Em 24 de dezembro de 2025 – em meio aos ataques da mídia que miravam, além de Moraes, Dias Toffoli e Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do Banco Central – o editor-chefe da Fórum, Renato Rovai, revelou que a fonte de Malu Gaspar seria justamente André Esteves, o todo poderoso dono do BTG Pactual, que travava uma guerra contra Vorcaro na Faria Lima, que foi levada à Brasília.
“André Esteves passa a ver então os dedos de Xandão na sua disputa contra o Master. E começa a operar na surdina a disseminação dos tais boatos da Faria Lima contra o ministro. O Master sofre a intervenção do Banco Central e em tese tudo estaria resolvido. Mas não. André Esteves começa a achar que Alexandre de Moraes iria se vingar dele. É aí que entra a divulgação do contrato do banco de Vorcaro no blog de O Globo”, conta Rovai em seu blog às vésperas do Natal.
Amigo íntimo e ex-sócio de Paulo Guedes, avalista da candidatura de Jair Bolsonaro (PL) junto ao sistema financeiro em 2018, Esteves havia recebido dias antes, em 17 de dezembro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), alçado pelo pai como pré-candidato ao Planalto, em sua mansão em São Paulo.
Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Flávio teve uma “longa conversa” com Esteves, um dos principais articuladores políticos da Faria Lima, no mesmo dia em que encontrou cerca de 40 agentes do sistema financeiro na capital paulista. O filho de Bolsonaro também busca novos encontros com banqueiros para viabilizar sua pré-candidatura junto aos endinheirados, que haviam embarcado no plano da chamada terceira via, colocando Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) como o anti-Lula em 2026.
'Batidas de Esteves'
Nos prints das mensagens divulgadas nesta sexta-feira, após Moraes negar as conversas com Vorcaro no dia da prisão do banqueiro, Malu Gaspar ignora a citação a André Esteves, sem colocar o controlador do BTG no contexto.
Às 20h48, pouco mais de uma hora antes de ser preso no aeroporto de Guarulhos, onde tentava embarcar para Malta com destino a Dubai, Vorcaro conta a Moraes que fez o anúncio do aporte de R$ 3 bilhões da Fictor Holding Financeira no Master.
“Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos, mas foi o que deu pra fazer dentro da situação. Acho que pode inibir”, diz Vorcaro.
Em seguida, o dono do Master sinaliza a disputa frontal com Esteves, que é ignorado pela jornalista da Globo.
“Amanhã começam as batidas do Esteves [André Esteves, dono do BTG Pactual)”, diz Vorcaro, que foi preso em seguida.
Mídia blinda André Esteves
Quem acompanha o caso pela mídia liberal vê Vorcaro como uma espécie de Dom Quixote de La Mancha, da obra clássica de Miguel Cervantes, combatendo gigantes moinhos de vento, que tentam pintar com as faces de Moraes e Dias Toffoli.
No entanto, a face blindada pelos jornalões foi levada, desde maio deste ano, pelos ventos do noticiário da mídia liberal, que antes disso conhecia o verdadeiro inimigo de Daniel Vorcaro na guerra travada na Faria Lima – e estendida aos bastidores da politicalha conduzida por lobistas de alto calibre político do Centrão, da direita e da ultradireita.
Em 7 de abril, a Folha esmiuçou em reportagem que a “compra do Master abre guerra de banqueiros e causa divisão política em Brasília“.
“Aliados de Daniel Vorcaro e de André Esteves disseminam nos bastidores da capital versões distintas sobre a operação”, diz o texto sobre a face oculta da guerra propositalmente esquecida nos dias atuais.
No texto, a Folha coloca de um lado “o bilionário de Belo Horizonte” que “ganhou fama e expandiu suas conexões empresariais e políticas por meio de um estilo de vida considerado extravagante, com festas luxuosas, viagens exclusivas e financiamento de eventos, dos quais personagens influentes do país se tornaram frequentadores”.
De outro, “André Esteves, 56, chairman e sócio sênior do BTG Pactual, que se consolidou como um dos principais banqueiros do país desde o início da década de 1990 por um estilo arrojado de fazer negócios e discreto no trato pessoal”, mostrando claramente que lado o clã Frias, donos do PagBank na Faria Lima, se colocavam.
A reportagem ainda traz um organograma, feito a partir de “relatos de empresários, políticos, lobistas e autoridades”, que coloca Vorcaro no centro de uma rede de figuras do Centrão e do bolsonarismo: Ciro Nogueira (PP-PI), Flávia “ex-Arruda” Péres, Celina Leão (PP-DF), Ibaneis Rocha (MDB-DF), Antônio Rueda (União), Fabio Faria (PP), Hugo Motta (Republicanos) e até mesmo Alexandre de Moraes, citando que o “escritório de advocacia da esposa e dos filhos do ministro do STF foi contratado pelo banco” – a mesma informação divulgada recentemente por Malu Gaspar em tom sensacionalista.
Segundo a Folha, Esteves teria a seu lado o ex-AGU de Jair Bolsonaro, Bruno Bianco, contratado pelo banqueiro em 2023 para fazer a ponte com outro ex-ministro, Fabio Faria, que “presta serviços de relações institucionais para o BTG” – entenda-se lobby.
O ministro Gilmar Mendes é citado como “um dos principais interlocutores do banqueiro do BTG em Brasília, e os dois trocam avaliações informais sobre o país com frequência há anos”.
O jornal ainda cita que “Esteves hoje tem boa relação com Fernando Haddad, ministro da Fazenda, mas está distante do presidente Lula”, que, segundo o jornal, “incomodou-se com críticas públicas feitas pelo banqueiro ao governo mesmo após ter sido recebido três vezes no ano passado, o que fez com que a relação esfriasse”.
Joio do trigo
N’O Globo – e no seu braço de mercado, o jornal Valor – a guerra entre Vorcaro e Esteves era amplamente conhecida e noticiada até maio de 2025. No entanto, a disputa era tratada como uma negociação entre banqueiros para salvar “passivos do banco que ficarem de fora da compra feita pelo BRB“.
“A carteira do Master está sendo analisada por grandes bancos, incluindo o BTG, que tem interesse em papéis menos ilíquidos e de precificação mais difícil, como precatórios e direitos creditórios. Se de fato o banco de André Esteves ficar com essa parte do Master, os recursos do FGC seriam usados pelo BTG para ‘administrar e gerir’ esses passivos. Isso evitaria contaminação do balanço do BTG. O banco de André Esteves já utilizou recursos do FGC quando comprou o banco Pan, da Caixa”, diz texto publicado no dia 17 de abril.
A reportagem tratava da negociata entre banqueiros para salvar a parte “saudável” do banco, que entregaria ao estatal BRB apenas a parte podre – que também foi adquirida pela RioPrevidência, de Cláudio Castro (PL-RJ), e do Amapá Previdência (Amprev), presidido por Jocildo Silva Lemos, que afirma ter assumido o comando do fundo por “convite” de Davi Alcolumbre (União-AP).
O Globo diz ainda que o Fundo Garantidor de Crédito, abastecido pelos bancos com dinheiros de correntistas e investidores para salvar instituições falidas – como está sendo no caso do agora liquidado Master, com estimados R$ 41 bilhões -, poderia “liberar até R$ 20 bilhões para a operação com o Master, mas talvez seja criado algum desconto para pagamento dos CDBs, que oferecem 140% do CDI”.
Após negar, em 2 de abril, um um acordo para adquirir parte dos ativos do Master, o banco de André Esteves anunciou em 27 de maio R$ 1,5 bilhão em ativos ao BTG Pactual e se comprometeu a destinar esses recursos para sua instituição.
“O banco, que obteve no início do mês um empréstimo de cerca de R$ 4 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ganha assim algum fôlego enquanto busca uma solução definitiva para sua crise de liquidez”, diz reportagem do Valor Econômico, da Globo, relatando com polidez a manobra em andamento para tentar empurrar a parte podre do Master para o BRB, enquanto Esteves comprava, com dinheiro do FCG, a parte saudável do banco.
“Segundo o BTG, serão adquiridas as participações de Vorcaro na Light (15,17%) e na Méliuz (8,12%), além de outros ativos. O banco cita ‘aquisição de imóveis, créditos, direitos creditórios, outras ações listadas em percentuais inferiores a 5% e participações societárias privadas detidas, direta ou indiretamente’, por Vorcaro”, segue a reportagem, sobre a compra por Esteves de ações de empresas privatizadas.
Misteriosamente, após o BTG adquirir a parte boa do Master, o nome de André Esteves na guerra da Faria Lima sumiu dos jornais da mídia liberal.
Esteves só seria citado novamente em 18 de novembro por Lauro Jardim, no mesmo O Globo. Na nota, divulgada um dia depois da prisão do banqueiro e da liquidação do Master pelo BC, o colunista da Globo afirma que “pessoas próximas a Daniel Vorcaro passaram as últimas horas atirando em dois personagens poderosos: o ministro Fernando Haddad e o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual”, na mesma metodologia e, provavelmente, com as mesmas “fontes sigilosas” de Malu Gaspar.
“Creditam aos dois o revés de Vorcaro, preso ontem à noite no aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar num jato particular para o exterior. Vorcaro, a propósito, contratou o advogado Walfrido Warde para defendê-lo. Bruno Bianco, ex-AGU de Jair Bolsonaro, também integra o time de defesa do banqueiro”, diz o texto n’O Globo.