Desvalorização da moeda dá força ao Bitcoin em África

De acordo com o site especializado Criptonizando, está ocorrendo um crescimento súbito e fortíssimo na utilização do Bitcoin na África. Citando o Bitcoin.com, o site refere que as transferências mensais de Bitcoin em valor abaixo de US$10.000 aumentaram 56% em África, em relação a 2019. Ao mesmo tempo, as transferências financeiras “tradicionais” no varejo mostraram um ligeiro recuo entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020.

A situação é especialmente notada na Nigéria, o país mais populoso de África e também sua maior economia. A maior parte das transferências é impulsionada por particulares e pequenas empresas; é a economia real funcionando, o que mostra como o fenômeno está bastante sério.

A desvalorização

Não é só na Nigéria que o problema da desvalorização da moeda está se tornando um desafio para pequenos empresários, consumidores e para a economia em geral. O Criptonizando refere que o rand da África do Sul, historicamente a moeda mais importante do continente, perdeu mais de metade de seu valor em relação ao dólar nos últimos dez anos. Argélia e Egito, no norte do continente, bem como o Gana e a Etiópia, todos estão sofrendo – e falamos aqui de grande parte das maiores economias, medidas por PNB, do continente.

Governos de outras regiões do mundo estão avaliando como reagir ao Bitcoin, desde a proibição ao reconhecimento oficioso mas não oficial. Alguns, como a Venezuela, vêm “namorando” uma utilização oficial do Bitcoin, ainda que de forma parcial. O que está acontecendo em África, ou pelo menos na Nigéria, é o contrário: em um mercado livre, os cidadãos estão reagindo a incentivos e adotando a tecnologia e o meio de pagamento de forma igualmente livre. O incentivo é o fato de o Bitcoin servir como meio de defesa contra a desvalorização.

O Bitcoin como reserva de valor

Não surpreende que cada vez mais pessoas, por todo o mundo, estejam baixando e instalando ferramentas como o bitQT app para enviar e receber Bitcoin. O valor da criptomoeda se mantém estável, resistindo a todas as críticas que anunciavam o seu fim depois da “bolha” que se verificou em 2017. Desde o fim da bolha, só por um breve momento (no final de 2018) é que o Bitcoin chegou a descer abaixo dos $3000. No passado mês de agosto tornou até a estar acima dos $10.000.

O Bitcoin é verdadeiramente uma moeda que pode ser utilizada do mesmo jeito em Lagos e em Xangai. Não estando dependente de nenhuma autoridade financeira específica, ele orienta-se pelas mesmas regras na Nigéria e na China (e em qualquer parte do mundo, claro). Isso faz com que seja mais fácil de utilizar e contribui para que seja mais resistente a medidas de desvalorização – muito à semelhança do ouro.

Abolaji Odunjo: um caso prático

O jornal nipônico "Japan Times", através de correspondentes da Reuters, traz a história de Abolaji Odunjo, um jovem empresário residente em Lagos, maior cidade da Nigéria. Trabalhando como importador de celulares, tem contatos com fornecedores nos Emirados Árabes Unidos e na China. Recentemente, seus contatos chineses pediram para serem pagos em Bitcoin.

Odunjo acabou percebendo que suas receitas aumentaram com a mudança. Deixou de precisar comprar dólares e de pagar a empresas financeiras para transferir dinheiro. Os argumentos de “velocidade e conveniência” apresentados por seus fornecedores chineses estavam certos. O empresário confirma que a mudança para Bitcoin não só permitiu cortar custos, mas também fugir à desvalorização da naira, a moeda de seu país.

A importância da tecnologia

O "Japan Times" mostra, como imagem ilustrativa da reportagem sobre Abolaji Odunjo, um homem verificando seu recibo emitido por uma máquina BTM, ou “Bitcoin Teller Machine” – um caixa eletrônico para a criptomoeda.

A presença dessas máquinas é bem prova de como vão nascendo em África nichos de utilização tecnológica sofisticada. Não é só o Ruanda que desenvolveu o primeiro celular fabricado inteiramente na África. É o próprio desenvolvimento da internet, geralmente assentando mais no uso do smartphone do que no computador, que está ligando em cada vez mais pessoas e empresas naquele continente.

Essa infraestrutura faz a diferença na hora de pensar em adotar o Bitcoin de forma mais permanente. Para muitos africanos, o futuro virou presente.

Um exemplo para o Brasil?

A resistência do Bitcoin se vê pelo fato de estar sendo utilizado por empresários chineses para fazerem suas vendas – apesar de a criptomoeda ser proibida pelo governo chinês e seu banco central. Se na Nigéria os empresários são livres de utilizá-la, na China as empresas precisarão contornar a legislação para fazer seus negócios no exterior. Isso não é difícil; basta recorrer a um parceiro (ou uma filial) nos Emirados Árabes Unidos, que se encarregue de receber em Bitcoin e onde permita converter em dólares ou noutra moeda que permita, depois, fazer chegar o dinheiro à China. Ou talvez os empresários chineses prefiram manter uma parte de suas reservas em Bitcoin…

Resta saber se o exemplo nigeriano não poderá ser um exemplo para o consumidor e o pequeno empresário brasileiro, para se defender dos efeitos de uma possível desvalorização do real.

Samuel Teles é economista