ECONOMIA

Da carne ao Pentágono: império dos irmãos Batista dribla a soberania nacional

Os irmãos Batista atuam em chancelaria paralela junto ao governo Trump, visando urânio e terras raras (Serra Verde) com apoio do Pentágono, driblando soberania e regulamentação nacionais

Por DO RELATÓRIO RESERVADO

Publicado em 31/08/2026 às 14:25

Alterado em 31/08/2026 às 14:31

Joesley Batista MArcelo Camargo/ Agência Brasil

Se fossem transplantados do mundo real para a literatura, Joesley e Wesley Batista caberiam em um romance de espionagem de Ian Fleming ou John le Carré, célebres por criar personagens que orbitam os centros de poder, circulam por canais reservados e operam em zonas cinzentas entre interesses privados e razões de Estado. Os movimentos dos irmãos Batista estão invariavelmente na divisa entre teorias conspiratórias, coincidências e fatos, com a predominância destes últimos.

Neste momento, Joesley e Wesley dedicam-se a uma nova articulação dentro da chancelaria paralela que passaram a exercer junto ao governo Trump. A agenda envolve as áreas nuclear, de defesa e de minerais críticos. O que já está apurado, segundo uma fonte do RR, é o interesse dos Batista em entrar na extração de urânio, verticalizando sua presença da exploração do minério à geração nuclear, em Angra 1, Angra 2 e na futura Angra 3. Como se sabe, o Brasil tem grandes reservas de urânio (5ª posição no ‘ranking” mundial), principal insumo para a geração da energia nuclear. Mas, se Angra 3 e mesmo o urânio são empreitadas visíveis, existem ações sigilosas que tornam o voo dos dois irmãos ao Olimpo do poder um dos grandes mistérios do nosso tempo. A participação dos Batista na aquisição da mina de Serra Verde, em Goiás, a maior reserva de terras raras do país, é uma dessas ações invisíveis.

Trata-se de um projeto que vem sendo costurado ponto a ponto junto ao Palácio do Planalto e à Casa Branca, no vácuo de qualquer marco regulatório. Segundo informações filtradas pelo RR, os irmãos Batista estariam em diferentes pontas da meada que resultou na venda da mineradora brasileira para a USA Rare Earth. Os Batista não só teriam uma opção de ingresso no negócio, hoje 100% norte-americano, inclusive com participação financeira direta do Pentágono na estrutura criada para assegurar a compra de sua produção, como também seriam um colchão de amortecimento dos questionamentos sobre a perda de soberania. Ou seja, os empresários privados nacionais que dariam uma roupagem verde-amarela ao negócio.

A iniciativa ainda ajudaria a lubrificar a relação junto ao governo chinês, que certamente não vê com bons olhos o negócio. A China tem a maior reserva de terras raras do mundo e excluiu os EUA do mapa das suas vendas desse produto estratégico. Os Batista Brothers são uma faca de dois gumes, porque também têm excelentes relações com o mais alto estamento chinês, pois são exportadores de carne para aquele país. É a geopolítica da proteína.

As articulações em torno da Serra Verde se dão ao largo do Congresso, do Judiciário e das Forças Armadas. Aliás, o RR perguntou ao Exército Brasileiro se tinha informação sobre todas essas movimentações que ocorrem na frente dos seus olhos. Enviou 10 questões sobre o tema. A Força Terrestre brasileira disse que não comentaria o assunto. Há um componente adicional: os Batista chegaram a um ponto em que suas gestões independem do que vier a acontecer nas urnas em outubro. Ambos já alcançaram o cume do Everest. A primazia na diplomacia empresarial entre Brasil e Estados Unidos lhes confere uma chancela que torna pouco relevante quem estará no Palácio do Planalto a partir de 2027, Lula ou Flávio Bolsonaro. Mudam os governos e a influência dos Batista na lapidação de interesses públicos e privados só aumenta. A ponto de não ser nenhum exagero dizer que, a esta altura, essa relação tornou-se simétrica. Se para os Batista é valioso ter acesso ao presidente da República, para o presidente da República também passou a ser valioso ter acesso aos Batista. Qualquer desequilíbrio nesse mutualismo não é bom para nenhum dos lados.

Terras raras não são a única bola, mas a bola da vez. Não é de hoje que os donos da JBS rondam os minerais críticos, notadamente terras raras. Wesley e Joesley Batista chegaram a conversar com a Vale sobre possíveis investimentos conjuntos nessa área, uma associação, diga-se de passagem, muito bem-vista pelo Palácio do Planalto. Sabe-se que o BNDES, um dos responsáveis pelos mega financiamentos que levaram a JBS ao trono em que se encontra, criou um fundo para exploração de terras raras em associação com a própria Vale, com valor inicial de R$ 1 bilhão podendo chegar a R$ 3 bilhões. Por ora, no entanto, esse veio parece ter se esgotado.

Rapidamente, os Batista mudaram sua rota, devidamente sancionados por Brasília e por Washington. E a Serra Verde pode ser apenas a primeira escala. Há uma miríade de direitos minerários e projetos em diferentes estágios de maturação espalhados pelo país, praticamente todos ainda muito distantes da produção comercial. Em 2024, a ANM outorgou 1.370 novos alvarás de pesquisa para terras raras e monazita; em 2025, mesmo com a corrida perdendo velocidade, outros 683 alvarás para terras raras foram concedidos. Ou seja: foram mais de duas mil novas autorizações em apenas dois anos. Para um grupo com capital, capacidade de processamento e acesso aos compradores finais, essa pulverização apresenta-se como uma oportunidade de altíssimo quilate para agregar projetos, comprar direitos minerários, selecionar as jazidas mais promissoras e concentrar produção e beneficiamento em torno de uma plataforma maior.

Nesse desenho, a Serra Verde deixaria de ser apenas um ativo para se tornar o núcleo de uma consolidação do setor. A mina da companhia – Pela Ema, em Goiás – é a única operação em escala fora da Ásia capaz de produzir comercialmente os quatro elementos magnéticos fundamentais para a fabricação dos ímãs permanentes de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A expectativa é que, já em 2027, Serra Verde responda por mais da metade da oferta de terras raras pesadas produzidas fora da China.

Como quase todos os novos negócios dos irmãos Batista, este é um projeto que cruza zonas mais opacas, nas quais se misturam não apenas motivações empresariais e econômicas, mas interesses de Estado. A área de defesa não é um ponto fora da curva das ambições da holding J&F, mas está localizada bem no centro delas. Neodímio e praseodímio formam a base dos ímãs permanentes de alto desempenho; disprósio e térbio aumentam sua resistência ao calor e à desmagnetização. Esses componentes são empregados em alguns dos sistemas mais sensíveis do arsenal dos Estados Unidos, entre eles caças F-35, submarinos das classes Virginia e Columbia, mísseis Tomahawk, radares, drones Predator e bombas guiadas JDAM.

Para os Estados Unidos, portanto, a Serra Verde não é apenas uma mina brasileira. É o início de uma cadeia que termina dentro da máquina de guerra norte-americana. Não por acaso, foi colocada no perímetro do Pentágono. O quartel-general da máquina militar mais poderosa do planeta aportou US$ 750 milhões na estrutura criada para assegurar o fornecimento da produção da Serra Verde aos Estados Unidos. Além disso, a Agência de Logística de Defesa, vinculada ao próprio Pentágono, comprometeu-se a adquirir, nos próximos cinco anos, pelo menos US$ 300 milhões em produtos da US SIIE, o veículo de propósito específico (SPV) criado para comprar a produção da Serra Verde e assegurar o fornecimento dessas terras raras aos Estados Unidos.

Ou seja: o aparato de defesa norte-americano disponibilizou mais de US$ 1 bilhão para assegurar o acesso de longo prazo à produção da Serra Verde. Como se não bastasse, em fevereiro deste ano, a própria Serra Verde recebeu um financiamento de US$ 565 milhões da US International Development Finance Corporation (DFC), agência do governo norte-americano. Em junho, já após o anúncio da compra da mineradora, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos fechou um pacote de financiamento de até US$ 1,577 bilhão para a USA Rare Earth. E os Batista nisso tudo? Sigilo. Silêncio.

Como de hábito, os passos dos Batista se equilibram entre a realidade e a ficção. Difícil identificar onde termina a conspiração e começa a coincidência. A revelação de que o Pentágono protagonizou a compra da Serra Verde se deu apenas três dias após a conversa telefônica de uma hora e 20 minutos entre Lula e Trump, no último dia 21. Nem é preciso dizer o quanto Joesley e Wesley têm atuado para soldar os pontos de corrosão nas relações entre Brasil e Estados Unidos, uma intermediação que prescinde dos canais tradicionais da diplomacia. Há um episódio que dá a exata extensão da latitude de circulação dos Batista – uma cena, que, guardadas as devidas proporções, faz lembrar de Harry Pendel, protagonista de “O Alfaiate do Panamá”, célebre obra de le Carré, um personagem que se notabilizava pelo acesso aos homens mais poderosos do país.

Em 30 de abril, Lula recebeu Joesley no Palácio da Alvorada e comentou a dificuldade que vinha encontrando para marcar uma reunião com Trump. Como um hábil sastre, o empresário alinhavou as duas pontas. Joesley perguntou se podia resolver o problema ali mesmo. Mandou buscar seu celular, ligou diretamente para o presidente norte-americano e colocou Lula na linha. Mauro Vieira e os assessores internacionais do Planalto não participaram da conversa. Trump atendeu e, daquele telefonema improvisado, saiu o destravamento da visita de Lula à Casa Branca. Se isso não é poder em estado puro, o que mais será?

Gênese: bois, pastos e matadouros

No princípio, era a carne.

Foi a proteína animal que deu aos Batista não só fortuna, mas a capacidade de montar uma cadeia de negócios a partir de relações com entes soberanos. Joesley e Wesley aprenderam a operar sobre uma vulnerabilidade que afeta inflação, eleições e estabilidade política: comida. Segurança alimentar também é segurança nacional, e poucas empresas privadas no mundo conquistaram uma posição comparável à da JBS. É assim no Brasil, é assim nos Estados Unidos. Após consolidar uma posição dominante em sua terra natal, os Batista carregaram para a América a mesma estratégia agressiva de aquisições em série e de asfixia de pequenos e médios frigoríficos. E assim ajudaram a moldar o mercado norte-americano de carne bovina e sua oligopolização: JBS, Tyson, Cargill e National Beef respondem juntas por cerca de 85%. Sozinho, o grupo brasileiro detém um quarto de toda a capacidade de abate e processamento do país. Um movimento relevante na montagem desse império foi a aquisição, em 2007, da Swift & Company, tradicional companhia do setor.

O mesmo poderio que, inicialmente, colocou a empresa sob investigação e pressão política, inclusive durante o próprio governo Trump, tornou os irmãos Batista interlocutores obrigatórios da Casa Branca. Em 2025, a carne bovina foi uma das principais fontes de pressão sobre a inflação de alimentos nos Estados Unidos. Seus preços subiram 11,6%, ante uma alta de apenas 2,3% da comida consumida em casa. Pelos pesos do índice de preços, a carne respondeu sozinha por algo entre 30% e 40% da inflação de alimentos. O assunto tornou-se uma dor de cabeça política para Trump.

Não por acaso, o governo norte-americano retirou a sobretaxa de 40% que havia sido aplicada sobre a carne bovina brasileira. Por conta da pressão interna, Trump escalou o assunto: na última sexta-feira, disse que o governo está preparando ações para permitir que pecuaristas e agricultores tenham o direito de processar e comercializar sua própria carne. Sem citar nomes, disse que quatro empresas fazem os produtores norte-americanos terem uma “vida miserável”, por conta do seu “monopólio nefasto”. Trump não disse que medidas serão tomadas e tampouco quando. Deixou tudo no ar, de forma gasosa. A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, por sua vez, declarou que haverá “grandes anúncios” sobre o processamento de carne bovina a partir de hoje. Disse mais do que Trump, mas também nada disse.

A olho nu, a ofensiva do governo norte-americano e os ataques de Donald Trump às “quatro empresas” do “monopólio nefasto” – exatamente as já citadas JBS, Tyson, Cargill e National Beef – podem parecer um arranhão no fino cristal das relações entre os irmãos Batista e a Casa Branca. Mas nem tudo é como parece ser. Trump é um notório falastrão, que, muitas vezes, governa mais pela verborragia do que exatamente pelos atos. Os petardos desferidos contra os grandes frigoríficos do país devem ser lidos como uma resposta para o público norte-americano. A popularidade de Trump despenca pesquisa a pesquisa. A mais recente, da Reuters/Ipsos, divulgada no início desta semana, reforça que o cenário se tornou uma carne de pescoço para o presidente dos Estados Unidos. Apenas 33% dos norte-americanos disseram aprovar o seu desempenho. Por sua vez, 66% reprovam a sua gestão. Não é de se estranhar que Trump saia elegendo “inimigos” do povo. Há muito do teatro que a política exige. O que o presidente norte-americano diz em tom de comício não necessariamente se escreve. O mesmo vale na direção oposta: os interesses que Trump trata com os Batista não são assuntos para palanque. É tudo da porta para dentro.

Um labirinto global

Os novos passos dos Batista seguem, como uma linha desenhada no chão, setores estratégicos que estão no epicentro das tensões geoeconômicas. E todos se entrelaçam, em um desenho lógico. Não é coincidência, tampouco conspiração, mas fato que Joesley e Wesley entenderam esse imbricamento. Terras raras e minerais nucleares pertencem a cadeias distintas, mas não necessariamente a mundos separados. Certas jazidas podem apresentar associação geológica entre terras raras, urânio e tório. Aliás, nesse exato momento, os chineses estão construindo dois submarinos com propulsão nuclear movidos a tório. Há também pontos de contato mais adiante na cadeia: algumas terras raras são empregadas em materiais e componentes da indústria nuclear, ainda que não tenham função de combustível. Portanto, uma coisa leva à outra.

Os planos para a área nuclear vão da mineração à geração, na qual os Batista já fincaram sua bandeira. Em outubro do ano passado, a Âmbar, braço de energia da J&F, a “holding” do clã, comprou por R$ 535 milhões a participação da Axia (ex-Eletrobrás) na Eletronuclear. Com 68% do capital total e 35,3% das ações com direito a voto, tornou-se sócia privada do governo federal. Mais uma vez, a hidrografia dos negócios dos Batista espalha-se em afluentes que circundam assuntos de Estado e desembocam no rio Potomac, à beira da Casa Branca. Esse projeto nuclear integrado, da mina ao reator, seria mais um chamariz para investidores norte-americanos, novamente com os Batista dando o verniz necessário para a manutenção da soberania em torno de uma área extremamente sensível, sobre a qual as Forças Armadas sempre mantiveram vigilância cerrada, desde os primórdios do programa nuclear brasileiro.

O Brasil tem aproximadamente 250 mil toneladas de recursos conhecidos de urânio. Ressalte-se, no entanto, que menos de um terço do território nacional foi adequadamente prospectado. Ou seja: potencialmente há uma fronteira nuclear ainda por ser descoberta no subsolo brasileiro. A entrada em operação de Angra 3 elevaria a necessidade brasileira do mineral de cerca de 450 para 700 toneladas por ano. Um eventual acordo com os norte-americanos em torno da construção da usina seria, inclusive, uma curiosa volta ao passado. Foi justamente de mãos dadas com os Estados Unidos que se iniciou a geração nuclear comercial brasileira, durante o regime militar. Em 1972, a Westinghouse foi contratada para fornecer o pacote inteiro de Angra 1, incluindo o reator, os principais sistemas de geração e o combustível nuclear. Os norte-americanos, porém, resistiram à transferência de tecnologias consideradas sensíveis, sobretudo aquelas relacionadas ao enriquecimento e ao reprocessamento de combustível.

Em 1975, então, o presidente Ernesto Geisel decidiu procurar outro parceiro. E, assim, o Brasil assinou com a Alemanha Ocidental um acordo que previa oito reatores e transferência de tecnologia em diferentes etapas do ciclo nuclear. Angra 2 e Angra 3 nasceram daquela decisão. O espírito do tempo identificaria uma semelhança entre a aquisição já consumada das terras raras de Serra Verde e a recusa dos americanos em transferir tecnologia para o projeto nuclear brasileiro, no século passado. Agora, conforme outrora, não há compromisso norte-americano de construir no solo nacional as usinas de processamento do mineral crítico, o que levaria, inclusive, à produção de ímãs, o “filé mignon” das terras raras.

No caso, o Brasil continua no tradicional ciclo extrativista que desagua unicamente na exportação da matéria-prima. Sem tecnologia, só exploração e entrega do minério in natura. O presidente Lula disse em todas as circunstâncias que isso não ocorreria com as terras raras. O zeitgeist, contudo, é outro. Nessa era, há os irmãos Batista, sempre prontos a evitar fissões nas relações entre Brasília e Washington. Em maio, por sinal, uma comitiva das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) esteve nos Estados Unidos para discutir com a Westinghouse possibilidades de expansão da cadeia brasileira de combustível nuclear. Na mesma viagem, dirigentes da estatal tiveram encontros com executivos das áreas de minerais críticos e combustível nuclear. Um contador Geiger muito provavelmente detectaria níveis elevados de radiação dos interesses dos Batista nessas conversas.

A nova trincheira dos Batista

É neste grande Lego global, no qual se conectam estratégias corporativas e peças geopolíticas e geoeconômicas, que os Batista encaixam agora a sua mais nova investida, na área de Defesa. A aquisição da Avibras, sacramentada na semana passada, é um negócio que, sob certos aspectos, desafia a lógica econômica. A empresa não é nem sombra do que já foi. Está no meio de uma recuperação judicial que se arrasta desde 2022, vive uma interminável crise financeira, acumulou cerca de R$ 600 milhões em dívidas, atrasou salários, praticamente interrompeu a produção e enfrentou uma greve que se prolongou por mais de três anos. Antes mesmo de assumirem o controle, os Batista já haviam participado do aporte de R$ 300 milhões na companhia para permitir a retomada das operações.

Mas o ativo mais valioso da Avibras não está em seu balanço. A empresa tem uma patente simbólica muito superior à sua condição financeira. É uma das empresas mais estratégicas da Base Industrial de Defesa brasileira, fabricante do sistema de artilharia Astros e detentora de tecnologia própria para foguetes e mísseis. Sua sobrevivência sempre foi tratada pelas Forças Armadas dentro de uma visão estratégica e de soberania.

Para os Batista, portanto, a compra significa mais do que ingressar no mercado de armamentos. Como quase sempre, os irmãos fazem uma curva já pensando na próxima. Uma das fontes do RR disse que correm, inclusive, rumores sobre o interesse de Joesley e Wesley em fechar uma joint venture com a Imbel, no papel 100% controlada pela União, na prática uma extensão do próprio Exército Brasileiro. Conspiração, coincidência ou fato? Qualquer que seja a resposta, essa é uma engenharia difícil de ocorrer, pois o Exército é cioso da empresa, que vive com problemas orçamentários, mas é um dos quindins da Força Armada. Em tempo: o Exército já recusou várias iniciativas para se associar ou vender a Imbel. De qualquer forma, quando o assunto são engenharias estratégicas aparentemente impossíveis, é bom deixar uma lacuna em aberto quando se trata dos Batista Brothers.

'Follow the war'

Em quase todas as novas frentes abertas pelos Batista, o ativo econômico vem acompanhado de uma dimensão estratégica que o ultrapassa. É assim com defesa, nuclear, minerais críticos e também com o petróleo, talvez o mais antigo e persistente combustível das disputas de poder entre Estados. Há mais de um século, ele está por trás de guerras, golpes, alianças e rearranjos geopolíticos. No caso dos Batista, a Venezuela oferece mais um exemplo dessa sobreposição entre diplomacia privada e oportunidade empresarial. Em 23 de novembro de 2025, Joesley foi a Caracas e se reuniu com Nicolás Maduro numa tentativa de convencê-lo a aceitar uma saída pacífica do poder. A viagem ocorreu num momento em que Washington já aumentava a pressão sobre o regime venezuelano e buscava abrir canais para uma transição. Como se veria depois, a deposição de Maduro não foi exatamente pacífica.

Em 9 de janeiro, apenas seis dias após a captura de Maduro pelos Estados Unidos, Joesley voltou a Caracas. A Venezuela já estava, então, sob nova gerência. O empresário encontrou-se com a nova presidente, Delcy Rodríguez, após conversas com autoridades norte-americanas sobre a reabertura do setor de petróleo e gás ao capital estrangeiro. Meses mais tarde, em julho, a Fluxus, dos Batista, compraria a A&B Oil and Gas, dona de 49% da Petrolera Roraima, joint venture com a PDVSA na Faixa do Orinoco.

Entre a águia e o dragão

Os Batista construíram seu império global fazendo algo que poucos conglomerados empresariais conseguem realizar com semelhante desenvoltura: jogar simultaneamente nos tabuleiros das duas superpotências do planeta. Com a China, o elo tem uma natureza distinta. As relações com Pequim estão assentadas especialmente sobre a segurança alimentar. A JBS tornou-se um dos grandes canais privados de abastecimento de proteína para o mercado chinês. Em 2025, o Brasil respondeu por cerca de 52% de toda a carne bovina importada pelos chineses. A JBS ocupa posição central nesse corredor. O grupo tem 18 frigoríficos de bovinos habilitados a vender para a China, mais da metade de suas 34 unidades brasileiras do segmento. No primeiro trimestre do ano passado, último dado disponível, a Grande China respondeu sozinha por 23,1% de todas as exportações globais da JBS, cerca de US$ 1,1 bilhão em apenas três meses. A proteína funciona, assim, como uma espécie de amortecedor geopolítico do grupo na gangorra em que China e Estados Unidos disputam a hegemonia sobre os ativos mais cobiçados do nosso tempo: minerais críticos, semicondutores, energia, tecnologia nuclear, inteligência artificial, infraestrutura digital, cadeias logísticas, capacidade militar etc – e, claro, comida.

A relação com Pequim ajuda a equilibrar o tabuleiro. Mas é em Washington que os Batista vêm acumulando as peças mais sofisticadas desse jogo. Nos Estados Unidos, a presença da JBS se apoia na infraestrutura própria de interlocução política, jurídica e regulatória, na qual há espaço para todos os devidos mimos a título de contrapartida. A Pilgrim’s Pride, por exemplo, contribuiu com US$ 5 milhões para a posse de Trump em 2025, a maior colaboração individual conhecida para a cerimônia. Meses depois, Joesley seria recebido por Trump na Casa Branca. É mais um daqueles pontos de contato em que coincidência, interesse empresarial e proximidade com o poder insistem em ocupar o mesmo espaço.

Kevin Arquit é um dos personagens centrais dessa engrenagem. Ex-“general counsel” da Federal Trade Commission e ex-diretor do Bureau of Competition da agência, Arquit foi sócio da Kasowitz Benson Torres, escritório fundado por Marc Kasowitz, advogado pessoal de Donald Trump por mais de 15 anos. Sua relação com a JBS antecede sua entrada formal na companhia. Em 2021, ainda na advocacia privada, Arquit estava entre os defensores da Pilgrim’s Pride, adquirida pela JBS em 2009, no acordo criminal com o Departamento de Justiça. Na ocasião, a empresa admitiu participação em uma conspiração para fixação de preços e fraude em licitações no mercado de frango, com multa de US$ 107,9 milhões.

Poucos meses depois, a JBS criou para ele o cargo de “Chief Legal Officer”. Arquit passou a comandar as áreas jurídica, de ética e “compliance” das operações do grupo nos Estados Unidos e em outros mercados. Em 2024, deixou a companhia para se tornar sócio da Quinn Emanuel Urquhart & Sullivan, grande escritório norte-americano de advocacia especializado sobretudo em litígios complexos e disputas empresariais de alto valor. No entanto, manteve vínculo profissional com a JBS.

É nesse mesmo ambiente que aparece Scott Bessent, secretário do Tesouro do governo Trump. Bessent participa diretamente da estratégia de sanções, comércio, minerais críticos e segurança econômica dos Estados Unidos. É, portanto, um dos operadores centrais da máquina trumpista de transformação da economia em instrumento de pressão geopolítica. A malha de conexões dos Batista nos Estados Unidos chega também a Bessent. É mais um importante canal para o trabalho de chancelaria da JBS nos Estados Unidos.

Nesse “Itamaraty do B” montado pelos Batista entrariam, inclusive, gestões para que o Brasil fique de fora das possíveis punições da Casa Branca a países que mantêm relações econômicas com o Irã. Bessent anunciou nesta semana a chamada “Operation Economic Outcast”, uma ofensiva para aprofundar o isolamento financeiro do Irã, e advertiu que nenhum país estará fora do alcance das sanções americanas. A estratégia prevê pressionar governos, bancos, empresas de navegação, intermediários financeiros e compradores de produtos iranianos, com o risco extremo de restrições de acesso ao sistema financeiro dos Estados Unidos.

À luz dos interesses brasileiros, o país do Oriente Médio não é um parceiro comercial de se jogar fora. Em 2025, o Brasil acumulou superávit de US$ 2,9 bilhões no comércio com os iranianos, sustentado sobretudo pelas exportações de milho e soja. Ah, sim, a JBS exporta para o Irã. Por sinal, no balanço do primeiro trimestre deste ano, a companhia reconheceu que a guerra naquele país tornou mais desafiador o ambiente operacional em mercados-chave da Seara.

O império Batista tem traços e contornos peculiares. Joesley e Wesley já não se movem apenas entre mercados, empresas e cadeias do comércio internacional. Circulam por zonas onde comida, energia, minerais, petróleo, armas e diplomacia deixam de ser variáveis isoladas e passam a compor uma mesma gramática de poder. É notável a capacidade dos Batista de transitar entre Estados soberanos, explorar suas vulnerabilidades e, ao mesmo tempo, fazer negócios justamente sobre elas. A JBS abriu a porta.

Os demais vértices dessa hegemonia vêm sendo encaixados peça por peça, de Brasília a Washington, de Pequim a Caracas. Ah, e agora também reforçando as relações com um antigo parceiro, que estavam adormecidas desde 2014. Trata-se de Cuba. Os Batista, que já estudaram montar uma operação de criação e abate de carne na ilha, agora conversam sobre uma parceria para a exportação de carne. Tudo muito coincidente com uma certa distensão norte-americana em relação ao país caribenho.

Há mesmo algo de desconcertante nos movimentos de Joesley e Wesley Batista, que, se levados para o papel, desenhariam um círculo: coincidências que se transmutam em fatos, fatos que sugerem conspiração e conspirações que parecem querer empurrar tudo para o terreno das coincidências. Se todas as tramas e todos os enredos atribuídos aos irmãos Batista estiverem majoritariamente impregnados de ficção, as referências podem ser facilmente encontradas nas estantes: de Ian Fleming, a escala quase megalômana de interesses, a proximidade com armas, minerais e matérias-primas estratégicas; de John le Carré, o universo mais ambíguo das relações reservadas, das lealdades cruzadas e dos personagens que circulam entre governos sem pertencer inteiramente a nenhum deles. Por outro lado, quando se olha a trajetória dos Batista pela lente da realidade, talvez só exista um paralelo no embaixador Vernon Walters.

General de três estrelas, poliglota, homem da inteligência e diplomata, Walters construiu uma trajetória singular justamente pela capacidade de circular entre mundos que normalmente obedecem a fronteiras muito mais rígidas. Foi militar, adido, negociador secreto, vice-diretor da CIA, embaixador itinerante, representante dos Estados Unidos na ONU e embaixador na Alemanha. Serviu a sucessivos governos norte-americanos e, sob Ronald Reagan, tornou-se uma espécie de emissário universal da Casa Branca. Como “ambassador-at-large”, percorreu 108 países solucionando problemas diplomáticos em nome do governo norte-americano. O Brasil foi um dos lugares que melhor testemunhou sua capacidade de articulação. Walters conheceu Castello Branco na Segunda Guerra, quando serviu como oficial de ligação junto à Força Expedicionária Brasileira na Itália. Anos depois, voltou ao país como adido militar norte-americano. Às vésperas do golpe de 1964, estava em posição privilegiada para acompanhar os movimentos dos generais brasileiros e transmiti-los a Washington. Há um episódio especialmente revelador. Em 1965, antes da chegada ao Brasil do emissário norte-americano Averell Harriman, enviado para obter apoio de Castello Branco à política dos Estados Unidos na República Dominicana, Walters antecipou-se à diplomacia oficial. Encontrou-se com o presidente brasileiro para, nas palavras dos documentos norte-americanos, “preparar uma atmosfera favorável”. Quando Harriman desembarcou, recebeu de Walters um bilhete com uma mensagem simples: a porta estava aberta. Para Joesley e Wesley, todas as portas parecem estar escancaradas. O RR fez 19 perguntas à JBS sobre diversos pontos mencionados no texto. Não obteve nenhuma resposta. Entende-se muito bem a recusa. É mesmo difícil para a empresa e seus donos fazer um “disclosure” de tão estranhas operações”.

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