ECONOMIA
Mercosul e UE assinam neste sábado maior acordo de livre comércio do mundo
Por ECONOMIA JB
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Publicado em 17/01/2026 às 06:59
Alterado em 17/01/2026 às 09:02
Lula e Ursula von der Leyen falaram sobre o acordo, nessa sexta, no Rio Foto: Ricardo Stuckert
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Após 25 anos de negociações e em meio a tensões globais, Mercosul e União Europeia assinarão neste sábado (17) um acordo que criará a maior área de livre comércio do mundo, em meio à fúria de agricultores no velho continente e às promessas de resistência por parte de uma minoria de Estados-membros na UE.
O tratado será firmado em uma cerimônia em Assunção, no Paraguai, com a presença dos presidentes de três dos quatro países do Mercosul — Luiz Inácio Lula da Silva será representado pelo chanceler Mauro Vieira — e pelos chefes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa.
Para Von der Leyen, este passo consolida a Europa como um "parceiro confiável", capaz de "traçar seu próprio rumo" e compromissado com a "diversificação do comércio" e a "redução de dependências", em um momento em que a UE vê seu maior aliado, os Estados Unidos, se voltar contra ela.
O acordo também foi bem recebido na América do Sul, onde Lula definiu a parceria como um sinal importante em um "ambiente internacional cada vez mais protecionista e unilateral". No entanto o texto ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde as coalizões se tornaram mais voláteis e imprevisíveis diante das pressões do agro.
Se ratificada, a nova zona de livre comércio, com mais de 700 milhões de habitantes, será a maior do gênero no mundo, segundo a Comissão Europeia. Estima-se que o acordo possa aumentar as exportações anuais da UE para os países do Mercosul em até 39%, ou 49 bilhões de euros, o que poderia sustentar mais de 440 mil empregos em toda a Europa.
Alternativa aos EUA
No ano passado, a disputa comercial da UE com os Estados Unidos deu novo impulso a um processo que parecia estagnado, com os países europeus querendo demonstrar que o comércio justo não é coisa do passado.
Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, cuja indústria é defensora ardorosa do acordo, saudou a aprovação como um "marco na política comercial europeia e um sinal importante de nossa soberania estratégica e capacidade de ação".
Contudo a Comissão Europeia, que negociou o texto, não conseguiu conquistar todos os Estados-membros do bloco. A influente França, onde políticos de todo o espectro veem o acordo como um ataque ao poderoso setor agrícola do país, liderou uma tentativa de afundá-lo e promete se esforçar para barrar o tratado no Europarlamento.
Os críticos temem que agricultores europeus sejam prejudicados por um fluxo de mercadorias mais baratas, incluindo carne, açúcar, arroz, mel e soja, proveniente do gigante agrícola Brasil e de seus vizinhos. Ao longo da semana, diversas cidades na UE, com destaque para Paris, registraram grandes marchas de tratores para protestar contra o acordo.
A ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, argumentou que a aprovação pelos Estados-membros não era "o fim da história", uma vez que o Parlamento Europeu ainda terá de votar o texto. Ela também destacou que "a raiva dos agricultores é profunda e que suas demandas são legítimas", enquanto o governo da Polônia promete acionar o Tribunal de Justiça da UE — além desses dois países, Áustria, Hungria e Irlanda também votaram contra.
Nesse contexto, o aval da Itália foi crucial para garantir maioria qualificada entre os Estados-membros, após a premiê Giorgia Meloni ser convencida por um robusto pacote de garantias apresentado por Bruxelas, incluindo a possibilidade de suspender as isenções tarifárias caso haja uma variação superior a 5% nas importações e nos preços de produtos agropecuários do Mercosul, como carne bovina, aves, arroz, mel, ovos, alho, etanol e açúcar.
Roma também foi tranquilizada pelas concessões obtidas nas últimas semanas, incluindo um fundo de compensação de 6,3 bilhões de euros, controles fitossanitários aumentados, o compromisso de não aumentar os preços dos fertilizantes e a possibilidade de alocar mais 45 bilhões de euros do próximo orçamento comunitário para a Política Agrícola Comum (PAC) da UE.
Além disso, o acordo vai tutelar mais de 340 produtos alimentares tradicionais da União Europeia com indicação geográfica protegida, outra demanda da Itália ao longo das negociações. (com Ansa)

Protesto em Aix-en-Provence, na França, contra acordo Mercosul-UE Foto AFP/Ansa
'Fazendo história'
"A União Europeia e o Mercosul farão história, em Assunção, ao criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto de 22 trilhões de dólares. Essa é uma parceria baseada no multilateralismo”, afirmou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nesta sexta-feira (16), no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro.
O pronunciamento de Lula aconteceu logo após a reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Na pauta do encontro, estiveram temas da agenda internacional e os próximos passos do acordo. Do lado do Mercosul, os quatro membros plenos originais – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – são signatários do acordo, enquanto os 27 membros da União Europeia (UE) irão aderir do lado europeu.
O presidente também disse que mais comércio e investimentos significam novos empregos e oportunidades para os dois lados do Atlântico. “Já somos grandes provedores de produtos agropecuários para a União Europeia, mas não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado”, destacou.
"Já somos grandes provedores de produtos agropecuários para a União Europeia, mas não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado" (Lula)
Resultado do esforço de mais 25 anos de negociações, o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia faz parte de uma estratégia de expansão da rede de pactos comerciais do Brasil e do Mercosul. A decisão amplia de forma significativa o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu, com a eliminação de tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens importados pela União Europeia, em diferentes prazos.
DEMOCRACIA — Em artigo publicado em mais 26 países nessa sexta-feira sobre o acordo, o presidente Lula afirmou que o pacto promove a associação entre duas regiões que compartilham valores e interesses comuns, como a defesa da democracia e do multilateralismo e a promoção dos direitos humanos. O Acordo estabelece diversos mecanismos de cooperação política entre o Mercosul e a União Europeia, espaços de diálogo que reforçarão a colaboração em debates globais que contribuem para uma ordem internacional mais justa e pacífica. Em seu discurso, o presidente reiterou essa mensagem.
“Este acordo de parceria vai além da dimensão econômica. A União Europeia e o Mercosul compartilham valores como o respeito à democracia, ao Estado de Direito e aos direitos humanos. Mais diálogo político e mais cooperação vão garantir padrões elevados em respeito aos direitos trabalhistas e à defesa do meio ambiente”, enfatizou o presidente Lula.
MENSAGEM — Em discurso após o do presidente Lula, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ressaltou que o acordo entre o Mercosul e a UE promove benefícios mútuos: “Sejam bem-vindos ao maior mercado e à maior área de livre comércio do mundo”, afirmou von der Leyen. “Isso é uma área de parceria, de abertura, isso é o poder da amizade, do entendimento entre povos, entre regiões e entre oceanos. E é assim que a gente cria a prosperidade verdadeira”.
Von der Leyen acrescentou que essa prosperidade é compartilhada. “Nós concordamos que o comércio internacional não é um jogo de soma zero. Nós realmente concordamos que todo mundo deve se beneficiar com novos empregos e mais oportunidades para o setor empresarial dos dois lados”, disse.
O Acordo incorpora compromissos inovadores, equilibrados e coerentes com os desafios do contexto econômico internacional. Em um cenário internacional que valoriza o Estado como indutor do crescimento e da resiliência econômica, os dois blocos criam oportunidades estratégicas para ampliar o comércio e os investimentos bilaterais. Essa abertura ocorre de forma coordenada, preservando a capacidade dos governos de implementar políticas públicas em áreas essenciais, como saúde, emprego, meio ambiente, inovação e agricultura familiar.
"Isso é uma área de parceria, de abertura, isso é o poder da amizade, do entendimento entre povos, entre regiões e entre oceanos. E é assim que a gente cria a prosperidade verdadeira"
Ursula von der Leyen
Presidente da Comissão Europeia
ACORDO — O Acordo de Parceria integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo. Juntos, o Mercosul e a União Europeia reúnem cerca de 718 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 22,4 trilhões de dólares. Quando examinado pelo volume de comércio, trata-se, ao mesmo tempo, do maior acordo comercial a ser firmado pelo Mercosul e um dos maiores dentre os assinados pela UE.
A presidente da Comissão Europeia disse que o acordo vai multiplicar as oportunidades de mercado. “Esse acordo vem em boa hora, pois vai multiplicar as oportunidades em relação ao que foi visto antes, com acesso mútuo a mercados estratégicos, regras claras e previsíveis, padrões também semelhantes, além de cadeias de abastecimento que acabam se tornando verdadeiras rodovias que nos levam ao investimento”, afirmou.
Para o Brasil, o Acordo possui valor estratégico em diversos sentidos. A UE é o segundo principal parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio de bens, em 2025, de aproximadamente US$ 100 bilhões. O Acordo deverá reforçar a diversificação das parcerias comerciais do Brasil, além de fomentar a modernização do parque industrial brasileiro com a integração às cadeias produtivas do bloco europeu.
SUSTENTABILIDADE — O Mercosul e a União Europeia reconhecem que os desafios do desenvolvimento sustentável são responsabilidade de todos, respeitando as diferenças e os níveis de responsabilidade de cada país. O acordo reúne compromissos construídos de forma colaborativa e equilibrada, que alinham o comércio internacional à promoção do desenvolvimento sustentável de maneira concreta.
Com base nas credenciais ambientais do Brasil, o acordo estimula a integração das cadeias produtivas como caminho para a descarbonização da economia e incentiva a concessão de tratamento diferenciado ao comércio exterior de produtos sustentáveis. A União Europeia também se compromete a oferecer um pacote inédito de cooperação para apoiar a implementação do acordo.
PRÓXIMOS PASSOS — Após a assinatura, terão início os trâmites internos necessários para a entrada em vigor de ambos os acordos. Tal processo envolve:
Internalização: os acordos seguirão os processos internos de aprovação das partes. Enquanto nos países sul-americanos o trâmite é o mesmo para os dois instrumentos, a legislação europeia determina procedimentos distintos para cada um: no caso do acordo comercial, basta a aprovação apenas do Parlamento Europeu. No Brasil, o processo envolve a aprovação do Congresso Nacional.
Ratificação: as partes notificam uma à outra sobre a conclusão dos respectivos trâmites internos e confirmam, por meio da ratificação, seu compromisso em cumprir os acordos.
Entrada em vigor: os acordos entrarão em vigor e, portanto, produzirão efeitos jurídicos no primeiro dia do mês seguinte à notificação da conclusão dos trâmites internos. Está prevista, nos dois acordos, a possibilidade de vigência bilateral, bastando que a União Europeia e o Brasil – ou qualquer outro país do Mercosul – concluam o processo de ratificação para a entrada em vigor bilateralmente entre essas partes.
ARTIGO — No artigo publicado nesta sexta-feira, o presidente Lula afirma que o acordo Mercosul-UE é a resposta do multilateralismo ao isolamento. O texto foi publicado em jornais de países do Mercosul e da União Europeia.
O artigo afirma que a colaboração entre blocos e países pode promover benefícios comuns. “Os blocos encontraram convergências mesmo diante de visões distintas, mostrando que a cooperação é muito mais vantajosa e eficaz do que a intimidação e o conflito”, afirmou o presidente no texto. (com Assessoria de Comunicação da Presidência da República)