Jornal do Brasil

Economia

Barril está 61,5% abaixo e dólar 32% acima das previsões da Petrobras

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Como bem disse a Petrobras ao explicar o prejuízo recorde de R$ 48,523 bilhões no 1º trimestre, a companhia foi afetada por “dois eventos com efeitos significativos e adversos no mercado de petróleo e derivados: a deflagração da pandemia COVID-19, com redução abrupta na circulação de pessoas, provocando um choque duplo de oferta e de demanda com retração na atividade mundial e o fracasso nas negociações entre membros da OPEP e demais produtores, liderados pela Rússia, para uma definição das cotas de produção, o que contribuiu para o aumento da oferta global de petróleo e a redução no preço no início de março".

Mas as dimensões da queda de preços de petróleo e da escalada do dólar, que fizeram a empresa reformular totalmente seu plano de fluxo de caixa em relação ao que fora orçado no 4º trimestre do ano passado, forçando a baixa contábil recorde de R$ 65,301 bilhões, são impressionantes. E vão afetar os planos da companhia e a arrecadação da União, dos estados e municípios, parcialmente cobertos pela escalada do dólar. Em 2020, o tombo do barril chega a 61,5%, enquanto que a estimativa de que o dólar médio ficaria 32,2% mais caro.

Antes da Covid-19, a Petrobras trabalhava com o cenário de preço médio do barril de petróleo vendido a US$ 65 em 2020, 2021, 2022, 2023, 2024 e anos imediatos. Pois agora, a média prevista para 2020 caiu para US$ 25 (redução de 61,5%). Para 2021, o barril recebido nas vendas da estatal ficaria em US$ 30 (redução de 53,8% nas receitas em dólar). Em 2022, se o barril ficar em US$ 35, a perda seria de 46,1%. Já em 2023, a cotação de US$ 40 geraria perda de 38,4%. Em 2024 a perda em dólar seria de 30,7%, com o barril a US$ 45, e a média prevista daí em diante seria 23% inferior (US$ 50).

O câmbio bem mais elevado que o esperado pode aumentar as receitas em reais, mas não a ponto de compensar as perdas em dólares no barril. A Petrobras estimava no fim do ano passado que o dólar teria taxa média de R$ 3,85 este ano (estava nesta sexta-feira a R$ 5,84). Agora, a estatal estima uma taxa média de R$ 5,09 para este ano, ou seja, 32,2% acima do previsto.

Para 2021, ao contrário do cenário anterior, em que haveria expressiva baixa da cotação, o dólar médio está estimado em R$ 5,04, ou 32,9% maior que os R$ 3,79 estimados em 2019. O dólar ficaria acima das previsões até 2024. Só daí em diante poderia haver estreitamento na diferença (veja a tabela abaixo).

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Novas projeções da Petrobras (Foto: JB)

Baixas na Bacia de Campos

Diante das mudanças das premissas, a companhia avaliou a recuperabilidade econômica de seus ativos e no período de janeiro a março de 2020 foram reconhecidas perdas por desvalorização no montante de R$ 65,301 bilhões.

Com a decisão de desativar campos em terra (que já estavam na programação de vendas, assim como campos em águas rasas, as principais baixas atingiram as Unidades de Geração de Caixas (UGCs) de diversos campos do segmento de Exploração&Produção de petróleo. As baixas em E&P somaram R$ 57,619 bilhões, concentradas principalmente na Bacia de Campos, nos campos de Roncador (R$ 16,650 bilhões), Marlim Sul (R$ 11,7 bilhões); Polo Norte, Albacora Leste, Polo CVIT (Espírito Santo), e Mexilhão (este no pós-sal da Bacia de Santos). Apesar dos custos exploratórios confortáveis, o pré-sal teve baixas contábeis de R$ 2,195 bilhões no Polo Berbigão-Sururu, na Bacia de Santos.

A decisão da hibernação de campos e plataformas em águas rasas gerou baixas de R$ 6,625 bilhões, afetando as atividades no Nordeste (Polo Norte, Polo Ceará-Mar, Polo Ubarana e os campos de Caioba, Guaricema e Camorim).

Prejuízo do Comperj soma R$ 7,8 bilhões

Mas os ativos imobilizados e intangíveis e ativo mantido para venda apresentaram reversão de perdas líquidas em seus valores recuperáveis no montante de R$ 26 milhões. Entretanto, o Comperj, que já tinha sofrido baixas de R$ 167 milhões em 2017, R$ 180 milhões em 2018 e R$ 859 milhões em 2019, sofreu nova baixa contábil de R$ 82 milhões.

Assim, o malogrado complexo petroquímico do Rio de Janeiro, em Itaboraí, lançado em 2007, foi atropelado pela crise financeira mundial de 2008 e acumula prejuízo contábil superior a R$ 7,884 bilhões. As maiores baixas foram em 2015 (R$ 5,281 bilhões) e em 2016 (R$ 1,315 bilhão).

Mas nem tudo são perdas de ativos na Petrobras. A companhia recuperou no 1º trimestre em acordos de leniência e acordos de colaboração e repatriações da Operação Lava-Jato um total de R$ 96 milhões. Até aqui a Petrobrás já foi ressarcida em R$ 4,151 bilhões dos R$ 6,2 bilhões dados como prejuízos de superfaturamento e corrupção de funcionários e empresas fornecedoras apanhados na Lava-Jato.