FIRJAN: FIM DE UMA DITADURA?

Antonio Batalha/Firjan
Credit...Antonio Batalha/Firjan

Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira nunca produziu nada e nunca foi industrial em sua vida. Foi, sim, herdeiro (com pequeno percentual) do Grupo Ipiranga, onde seu pai detinha 25% das ações junto com seus 7 filhos.

Eduardo Eugênio, proibido, segundo disse um ex-executivo da Ipiranga, de trabalhar no grupo, "por falta de vocação e por conflitos que gerou com quem tocava, de fato, a empresa".

Eduardo Eugênio encontrou, graças a Arthur João Donato, o emprego que sempre sonhou: mandar sem nenhuma interferência e sem sócios que o pudessem contestar. Se tornou "presidente eterno" da Federação das Industrias do Rio de Janeiro, a poderosa FIRJAN.

Empossado há 25 anos em seu primeiro mandato, Eduardo Eugênio mudou o estatuto para se perpetuar no cargo, lançando cláusulas que impediam qualquer industrial, de verdade, a lançar uma candidatura de oposição e, quando alguém "ousava " desafia-lo, como em qualquer ditadura vulgar, massacrava o oponente.

Mas se perguntam para o "Príncipe Eduardo Eugênio", como é conhecido, ele diz que está na presidência há 25 anos porque o querem lá e foi eleito "pelo voto".

Isso não pode ser negado. Ele só esquece de mencionar que dentre os mais de 100 sindicatos que o elegem, cerca de 50 não possuem mais nenhuma atividade e/ou seus dirigentes/eleitores são eleitos com 2 votos e, como ele, Eduardo, há décadas na direção da entidade.

Em outras palavras, quem o elege, tem representatividade zero no contexto da industria fluminense. Como exemplo, em algumas eleições, Eduardo Eugênio teve voto do Sindicato das Chapeleiras de Petrópolis. Só que esse "sindicato" já não tinha chapeleiras há décadas. Mas o Eduardo Eugênio teve o voto...

Fora esses descalabros eleitorais para permanecer no comando da FIRJAN, um outro ingrediente sempre foi fundamental para sua eternidade na presidência da FIRJAN: os cargos e os altos salários que Eduardo Eugênio contempla seus "eleitores". São centenas de cargos, os famosos "aspones " que Eduardo Eugênio ofereceu para se reeleger. Nenhum cargo com salário menor que 20 mil reais.

Aluguel de jatinhos, festas imperiais em sua mansão de Itaipava, tudo pago pela FIRJAN, renderam diversos processos pelo Ministério Publico contra Eduardo Eugênio. Todos ainda em curso.

Sem citar centenas de milhões de reais aplicados em publicidade nos maiores veículos de comunicação do pais, que serviram para blinda-lo de qualquer contestação e crítica sobre seus 25 anos de "mandato" na FIRJAN.

Centenas de milhões de reais para propaganda, enquanto os que pagam a conta encontram-se em situação falimentar: a industria fluminense.

Agora, surge no cenário da oposição Angela Costa, sua ex-aliada que enviou carta para Eduardo Eugênio, comunicando e justificando sua candidatura (leia a íntegra da carta abaixo) .

Mulher de valor industrial de verdade, e corajosa ao se propor enfrentar o dinheiro da FIRJAN e o poder de Eduardo Eugênio, Angela terá de provar o veneno que ela também ajudou a disseminar, ao apoiar os 25 anos do ditador da FIRJAN...

Mas a eleição de Angela Costa seria um alivio para esses momentos sombrios da vida brasileira.

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"CARTA ABERTA A EDUARDO EUGÊNIO GOUVÊA VIEIRA

"Uma convocação aos que temos juízo

"Prezado Eduardo,

"Faço uso deste expediente, manifesto público, na esperança de que, finalmente, você possa me dar ouvidos. Tenho mais de trinta anos de FIRJAN, tempo que remete à gestão de Arthur João Donato. Assumi meu primeiro cargo na administração de nossa instituição justamente quando você conquistou seu mandato inicial como presidente desta casa.

"Éramos jovens, cheios de ideais e uma infinita vontade de fazer diferente. Foi um tempo muito bom. Uma época em que uma diretoria participativa, tendo você como liderança inspirada e atenta aos reclames da base, promoveu profundas reformas na estrutura orgânica e no arcabouço administrativo. Época de evolução, de crescimento, que despertou entusiasmo e aglutinou toda a nossa base sindical.

"À medida que expandíamos e fortalecíamos nossa atuação, outras demandas foram surgindo; novas necessidades foram ganhando relevância. Movimento próprio da dinâmica produtiva e também da mutação do ambiente observada nesta linha de tempo. Sempre que tive oportunidade, apontei o que entendia ser necessário ajustar. Por vezes precisei reunir toda a coragem que pudesse ter, pois a partir do momento que você entendeu que meu alinhamento não era incondicional, passei a ser tratada com afastamento, com indiferença. Saiba que muitas vezes carreguei potes até aqui de mágoas para digerir em casa.

"Pois bem, o tempo foi passando e você mudou, Eduardo. Talvez você não perceba ou nem reconheça, mas o que constatamos foi um crescente isolamento seu, não permitindo o menor espaço para qualquer um que mostrasse interesse em reformas do seu modelo de gestão. Nestes últimos tempos, percebi que muitos mais colegas do que pudesse imaginar pensam do mesmo jeito que eu e anseiam por uma renovação na forma de atuar e de conduzir os destinos de nossa representação maior.

"Este grupo, Eduardo, creia-me, é muito mais amplo e robusto do que se poderia imaginar reunir alguns anos atrás. Reúne autênticos representantes da indústria fluminense, são líderes com endereço em todas as regiões do Estado, representando os mais diversos setores. São homens e mulheres que acumularam vivencia empresarial na guerra diária contra os boletos e guias de impostos. São líderes que sabem com clareza do que precisam para este futuro próximo e, sobretudo, enxergam a necessidade de melhor ouvir as demandas e angustias da base.

"Nossa Federação vem sendo gerida por um regime presidencialista clássico, característico de tempos passados e que, sequer encontra abrigo em nosso estatuto. Não há mais como nem porque insistir em uma estrutura de poder piramidal, hermeticamente protegida, para que não haja perturbação por parte dos que dela não fazem parte. Precisamos usar a imaginação e através uma governança moderna criar mecanismos que deem voz e espaço a todos, indistintamente. Isto será feito com a participação e aconselhamento dos presidentes de sindicatos, são eles os conhecedores dos problemas e necessidades reais, são estes líderes que acumularam vivência empresarial e têm a sabedoria para indicar as melhores soluções. É o somatório de nossas experiências que fará a diferença nesta nova etapa que se avizinha. É desta forma que abriremos a casa para que os sindicatos participem da gestão; e com isto gerar laços de compromissos com a base, sempre em busca dos melhores resultados para os nossos associados, que são a razão de ser da Firjan.

"O tempo de opulência acabou. Não podemos mais fechar os olhos para a penúria em que vivem alguns sindicatos nossos. A briga de alguns presidentes para sustentar a estrutura mínima em um quadro de dificuldade extrema chega a ser heroica. É chegada a “Era da Eficiência”. Precisamos encontrar meios e formas para aliviar estas angústias. Mais uma vez, este é o diagnóstico. A melhor solução será aquela que emergir dos próprios sindicatos e debatida em conjunto para que todos sejam contemplados e compreendam que as limitações da instituição, quando emergirem, serão sempre distribuídas de modo a ficar o mais leve possível para cada um.

"Reconhecemos que nossa instituição pode ser maior do que a soma dos sindicatos representados. Mas isto não é verdadeiro quanto a seus gestores. Ninguém é maior do que a soma de seus pares. Ninguém será distinguido pelo tamanho ou pela natureza de seu negócio; sendo associado, será tratado com igual atenção e relevância.

"Nossa casa tem como missão primeira facilitar a vida do industrial que produz em nosso estado. Nosso mandato, nosso interesse, nosso objetivo devem estar voltados para o cumprimento desta tarefa. Este é um mantra que todos os gestores devem professar diariamente. Nada mais pode se sobrepor a isto. A dispersão de energia com programas que buscam substituir as deficiências do estado, ou mesmo gerar soluções de alcance nacional, podem ser muito nobres, mas acabam por carrear importantes recursos do SESI, do SENAI e do IEL, recursos estes que deviam estar a serviço da formação e aperfeiçoamento do industriário, do desenvolvimento e da inovação de nossa indústria.

"Por fim, Eduardo, cabe-me informar que após um bom número de reuniões, e ouvindo algumas dezenas de sindicatos, emergiu um consenso de que deveria ser eu a capitanear este projeto. Você bem me conhece, sabe de toda a minha luta. Batalhei demais em minha vida para chegar aonde cheguei. Venho de família humilde. Não nasci em berço de ouro. Construí do zero o setor de transporte escolar do Rio. Sou fundadora do sindicato e da Federação do setor. Depois, migrei para o setor industrial, em um pequeno galpão em Del Castilho, fundei uma empresa do setor de papelão. Usei móveis da minha casa para erguer a minha empresa. Hoje, tenho orgulho em dizer que ergui, junto com meus colaboradores, a Paper Box, uma das maiores empresas do setor de papel e papelão do Rio. Atuo no sindicato da indústria de papel há muitos anos. Sou uma executiva que milita na área participativa há quase três décadas. Não sei fazer de forma diferente.

"Por tudo isso, prezado Eduardo, não poderia fugir ao desafio que me foi proposto. Estou disponibilizando meu nome para encabeçar uma chapa que irá se colocar como opção para exercer o próximo mandato da FIRJAN.

"Espero, do fundo do meu coração, que você não entenda isto como confronto. Guardo muita estima por toda sua família. Minha decisão nada tem de pessoal, é apenas minha convicção de que um ciclo na nossa Firjan se fecha. Agora se inicia uma nova fase, onde há um bom trabalho a ser feito. E se a confiança de meus pares recai sobre mim, não me vejo com outra opção a não ser juntar a força e a coragem da mulher brasileira e, com toda altivez que sempre guardei comigo, seguirei em frente, contando com a proteção de Deus e a ajuda daqueles que comigo dividem o sonho de uma FIRJAN mais próxima e mais afinada com seus sindicatos." ANGELA COSTA