Jornal do Brasil

Economia

EUA avisam o que pode acontecer aqui

Os impactos iniciais da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) sobre a mudança de hábitos do consumidor

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O “The New York Times” deste domingo (3) trouxe uma excelente reportagem, com base em detalhada pesquisa do respeitado Earnest Research, que mediu os impactos iniciais da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) sobre a mudança de hábitos do consumidor americano, tomando por base os gastos de 6 milhões de pessoas com cartões de débito ou crédito. Como no Brasil - mesmo sendo o país ora Belíndia (mistura de Bélgica com Índia) ora Belhaiti (Bélgica com Haiti) - segue mais o "american way of life”, podemos dizer que o estudo antecipa o que já vemos em cada rua ou quarteirão do país (limite máximo recomendável de nossos deslocamentos no semiconfinamento).

Lá, segundo o NYT, “em questão de semanas, os pilares da indústria americana praticamente pararam. Aviões, restaurantes e arenas (esportivas e usadas para megashows) ficaram subitamente vazios”. Em muitos estados, as empresas consideradas não essenciais - incluindo varejistas de artigos de luxo e campos de golfe - foram fechadas. Assim como aqui, privados inicialmente da liberdade de bater perna nos shoppings, os consumidores, ainda viciados, estocaram alimentos (não se sabia a duração da reclusão voluntária/obrigatória) e desviaram suas compras para os sites. Lá, Walmart, Amazon e Uber Eats tiveram picos de compras. [aqui já não se nota a estocagem de alimentos e bebidas, que tinha sido alimentada no Grande Rio pela crise da geosmina na água distribuída pela Cedae em janeiro e fevereiro]. Mas, depois, adaptados à nova rotina (ou descontaminados da compulsão consumista), os dados mostram que os clientes quase pararam de gastar.

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Amazon teve pico de compras com a pandemia (Foto: REUTERS/Mike Segar)
 

Ganhos e perdas

Com o fechamento dos shoppings, restaurantes e lanchonetes, que só podem operar no sistema delivery, os americanos, como os brasileiros, passaram a comer mais em casa. Em consequência, como lá há tradição de consumo de comidas prontas ou enlatadas, o deslocamento da alimentação fora de casa para at home fez crescer as vendas da comida industrial e as de preparo doméstico como massas e farinha, e artigos de higiene e limpeza, como papel higiênico e sabão. Além do álcool em gel, claro.

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A interrupção das viagens refletiu no prejuízo das empresas aéreas (Foto: Rafael Seixas)
 

No extremo do levantamento, as despesas que mais caíram foram referentes a viagens (domésticas e internacionais), com prejuízo para companhias aéreas, operadoras de turismo, incluindo cruzeiros marítimos e ônibus e trens, redes hoteleiras e locadoras de automóveis. As famílias que ganhavam dinheiro alugando vagas em casas ou apartamentos por sistemas como o Airbnb perderam uma fonte de renda extra.

No caso de restaurantes, as perdas maiores foram nos segmentos de luxo ou ligados ao mundo de negócios. Mesmo com as transmissões webinar, o setor de congressos e palestras, que ajuda a turbinar a cadeia do turismo, sofreu baque tremendo. Se há duas décadas os avanços da internet e a troca do fax pelo e-mail levaram empresas a cortar viagens, as soluções encontradas agora devem ser incorporadas ao ambiente de negócios.

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O setor de congressos e palestras teve um baque tremendo (Foto: Divulgação)

No Brasil, a maior vítima até agora foi a Embraer, descartada pela Boeing à véspera da consumação da parceria de US$ 4,2 bilhões porque a crise do Covid-10 atingiu em cheio a empresa às voltas com os prejuízos dos 737 Max. A redução de faturamento da Boeing no 1º trimestre foi maior que o valor da Embraer, o verdadeiro motivo para abandonar a noiva no altar. Mas todo o segmento de companhias aéreas e de turismo está na lupa da ajuda oficial (lá e aqui).

O mundo do petróleo em xeque

Na Petrobras e nas distribuidoras de combustíveis ficou claro o impacto. No mundo do petróleo, a retração das viagens aéreas, marítimas e os deslocamentos diários de ônibus e automóveis reduziu drasticamente o consumo de combustíveis tradicionais como gasolina, diesel e querosene de aviação, além do gás natural, usado na indústria pesada. Isso foi bom para reduzir a poluição no meio-ambiente. Valendo-se da cláusula de “força maior”, a estatal reduziu as compras de gás natural no país e da Bolívia. Em compensação, com a concentração das refeições em casa, cresceu o consumo de gás de bujão (GLP), obrigando a Petrobras a importar mais.

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BR teve queda de mais de 40% nas vendas de álcool e gasolina (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

A companhia se desfez do controle da BR Distribuidora (que teve quedas de mais de 40% em gasolina e álcool) e vendeu a Liquigás (que produz e comercializava GLP). Esse impacto será visto no balanço do 1º trimestre, que será divulgado no dia 14 de maio. A concorrente Ultrapar (controladora da Ipiranga) também perdeu nos combustíveis e vendeu mais no gás.

A retração do consumo levou a um desastre na indústria petrolífera em escala mundial, com o excesso de estoque derrubando preços à vista e sobretudo nos mercados futuros onde os compradores de contratos abriram mão de exercer a preferência (no vencimento de 23 de abril, o barril do West Texas Intermediate chegou a ser vendido abaixo de zero; na verdade, os compradores pagavam para alguém exercer a opção, por não terem onde estocar o produto). A situação ainda está longe de voltar ao normal, como mostram os preços do WTI e do petróleo Brent (do Mar do Norte) até janeiro de 2022. Mas, a evolução, ainda que modesta, mas sempre positiva, dos contratos futuros de etanol, indica que a demanda por energia limpa vai seguir após a pandemia.

No meio do caminho, a indústria do ‘shale gas’ contabilizará vários cadáveres empresariais. Aqui, a Bacia de Campos sofrerá profunda revisão nos investimentos, com prioridade aos poços de alta produção em águas ultraprofundas ou no pré-sal da Bacia de Santos. A mudança vai atingir estados e municípios que contavam com as receitas do petróleo e a indústria de serviços&produção de equipamentos de Exploração&Produção, com grande perda de empregos.

Mundo da TI, prós e contras

A rapidez e eficiência na criação de pontes com os consumidores confinados em casa pode ditar novos rumos para os segmentos da indústria, comércio e serviços. Os automóveis são objetos de consumo postos em xeque. A migração para carros híbridos e o uso de aplicativos tende a prevalecer sobre a compulsão da compra do carro novo.

O levantamento da Earnest Research mostra que as lojas e serviços que tiveram bons saques para comunicação direta com os clientes reforçaram os vínculos e ganharam novas fatias. Quem não teve meios para tal, além de redução drástica de vendas/faturamento, pode ter a perda do “esquecimento” quanto mais longo for o retorno à normalidade. O mundo do vestuário e dos calçados foi dos mais afetados. Lojas de conveniência com ligações online avançaram algumas casas na disputa.

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O mundo do vestuário foi muito afetado (Foto: Divulgação)

Na área de lazer, os vencedores são os produtores/fornecedores de jogos eletrônicos, seguidos pelos vídeos em streaming, música em streaming, mídia de notícias e os e-books. Na ponta perdedora, os piores resultados são das salas de cinema e teatro.

Sem poder agilizar ofertas, as lojas de desconto e novidades são as grandes perdedoras no comércio, seguidas pelas boutiques de moda, óticas, joalherias e sapatarias. O mundo do luxo vai ter de se repensar.

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As academias de ginástica lideram as perdas (Foto: Reprodução)

O mais incrível no levantamento é que os gastos com saúde e bem-estar também caíram. Fechadas, as academias de ginástica lideram as perdas, seguidas por salões de beleza. Despesas com cuidados pessoais e nutrição balanceada também caíram, assim como gastos com saúde, lojas de conveniência em ruas, drogarias&farmácias, laboratórios e seguros. O mundo dos pets não foi tão afetado, salvo atividades de banho&tosa.