Jornal do Brasil

Economia

Para Itaú, Covid-19 leva mundo e Brasil à recessão. PIB brasileiro pode cair 0,7%, com alta de 5,5% em 2021

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Em informe especial “Contágio global e suas consequências” divulgado na manhã desta sexta-feira (20), o Itaú estimou que o impacto do novo coronavírus (Covid-19) vai levar o mundo e o Brasil à recessão. Em 6 de março, quando o vírus não tinha registro de casos no Brasil, o banco reduziu a previsão de alta do PIB em 2020 de 2,2% para 1,8%. Hoje, reduziu para queda de 0,7%. Entretanto, num cenário otimista de recuperação da economia mundial (que encolheria 0,4% este ano, para retomar alta de 6,1% em 2021), o PIB brasileiro subiria 5,5% no ano que vem.

O Departamento Econômico do Banco Itaú, maior banco privado brasileiro, com atuação forte em seis países da América Latina (Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia e Brasil), diz que “essa revisão especial de cenário decorre da evolução do coronavírus em escala global, que deve levar o mundo a registrar recessão em 2020”. O banco prevê “colapso econômico neste 2º trimestre na América Latina”.

Os principais pontos do estudo:

Os efeitos da pandemia na economia global

Revisamos nossa projeção de crescimento global de 2,7% para -0,4%, ante a difusão global do coronavírus e as medidas tomadas para conter o surto. Respostas de política econômica podem mitigar a piora das condições financeiras, e os impactos da parada brusca da atividade econômica, mas os efeitos (ainda que temporários) tendem a ser severos.

Brasil, Reagindo à crise

Em um cenário de contração da atividade econômica e projeção de inflação mais baixa, esperamos que o banco central corte a taxa Selic para 3,25% a.a. em 2020, apesar da recente desvalorização cambial. Do lado fiscal, esperamos déficits temporariamente maiores para contemplar medidas de combate aos impactos do coronavírus.

Contágio global e suas consequências

Revisamos nossas previsões de crescimento do PIB: de 2,7% para -0.4% em nível global; de 5,3% para 3,3% na China; de 0,6% para -2,2% na Europa; de 2,0% para 0,1% nos EUA; e de 0,8% para -2,2% na América Latina.

Nossa revisão de cenário decorre da evolução do contágio do coronavírus em escala global, bem como das prováveis respostas de saúde pública que estão sendo e serão adotadas.

Os eventos das últimas semanas mostram que será muito difícil evitar a escolha entre priorizar a saúde pública e salvaguardar a atividade econômica no curto prazo. A grande maioria dos governos irá, nesse contexto, priorizar a saúde da população, adotando, como na China, medidas de distanciamento social que terão impacto severo sobre a atividade econômica.

Na América Latina, o surto de coronavírus e, em menor grau, os preços mais baixos do petróleo produziram uma acentuada deterioração dos preços dos ativos. A atividade econômica na região provavelmente recuará 2,2% este ano, pois as medidas de distanciamento social devem causar um colapso do PIB no 2º trimestre.

Níveis elevados de dívida pública impedem fortes respostas fiscais, mas está em andamento um maior afrouxamento da política monetária. Embora a epidemia represente principalmente um choque de oferta, a política monetária deve ser usada (e está sendo) para garantir que a demanda se normalize após o fim do surto.

No entanto, as fortes depreciações que ocorreram na região impedem respostas mais agressivas e rápidas quanto às observadas no mundo desenvolvido.

Ainda assim, provavelmente haverá mais cortes de juros. Esperamos forte expansão da atividade em 2021 devido, principalmente, a um efeito base favorável (esperamos normalização já durante o terceiro trimestre de 2020).

[Hoje, o Banco Central do Peru reduziu os juros básicos em 100 pontos percentuais, de 2,25% para 1,25% ao ano.]

“No Brasil, reduzimos nossa projeção de crescimento para -0,7% em 2020 (de 1,8%), devido aos efeitos negativos da epidemia no primeiro semestre do ano.

“Como esperamos um impacto temporário, revisamos nossa projeção de 2021 para 5,5% (ante 3,0%). A moeda brasileira deve seguir pressionada nos próximos meses, mas vemos espaço para apreciação, na medida em que o choque seja dissipado, e projetamos que o real termine 2020 em 4,60 por dólar (antes 4,15) e 2021 em 4,15 por dólar (sem mudanças).

Inflação e juros devem cair mais

Com a queda no preço de combustíveis e piora na atividade econômica na primeira metade do ano, revisamos nossa projeção de inflação para baixo em 2020, de 3,3% para 2,9%, e em 2021, de 3,5% para 3,3%.

Neste cenário, vemos mais espaço para o Banco Central cortar juros em reação ao choque: projetamos agora que a taxa Selic seja cortada para 3,25% a.a. ao final de 2020 e encerre 2021 em 3,75% a.a.

Do lado fiscal, esperamos déficits temporariamente maiores (3,1% em 2020 e 0,8% em 2021) para contemplar medidas de combate aos impactos do coronavírus.

Os efeitos da pandemia

• O contágio do coronavírus se estabilizou na China e outras economias asiáticas, mas a doença se espalhou globalmente.

• Revisamos nossas previsões de crescimento do PIB: de 2,7% para -0.4% em nível global; de 5,3% para 3,3% na China; de 0,6% para -2,2% na Europa; de 2,0% para 0,1% nos EUA; e de 0,8% para -2,2% na América Latina.

• As revisões se devem ao fato que governos irão, corretamente a nosso ver, priorizar a saúde pública, mesmo que a um custo econômico de curto prazo que tende a ser muito elevado, ainda que não permanente.

• As respostas de política econômica atenuam o aperto financeiro decorrente do choque, e serão muito importantes para evitar cenários ainda piores para a economia global.

• América Latina: não há muito espaço para respostas via política fiscal, mas está em curso um maior afrouxamento da política monetária.