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Economia

Para Araújo, apoio americano abre caminho para ingresso do Brasil na OCDE

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O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, considera que o apoio dos Estados Unidos à candidatura brasileira na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), expresso nessa quinta-feira (23), abre enfim as portas da instituição ao país. A avaliação foi feita ao término da reunião ministerial realizada pela entidade em Paris.

O apoio foi manifestado por representantes da delegação dos Estados Unidos, que, a portas fechadas, levantaram o veto em vigor desde o início da gestão de Donald Trump à frente da Casa Branca.

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Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araujo (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Até aqui, Washington apoiava a abertura de processo para a adesão da Argentina, mas não do Brasil. Trump havia prometido ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em março, em Washington, que seu governo levantaria o bloqueio à candidatura do país.

"Isso foi extremamente relevante (porque) talvez fosse a principal peça que faltava para que possamos, no mais breve prazo, começar o processo de adesão. Em termos práticos essa confirmação do apoio americano foi o principal avanço aqui", confirmou Araújo.

"Temos a coisa específica do apoio americano e esse sentimento difuso, mas muito presente, de expectativa positiva em relação ao Brasil."

O chanceler não demonstrou preocupação com a resistência manifestada pela Europa, que impediria indiretamente o curso da adesão brasileira. Os países europeus não são contra o ingresso do Brasil, mas pedem que mais um país do continente possa ser incluído entre os futuros membros, ao lado da Romênia, o que ainda é motivo de impasse.

"Não temos nenhum sinal negativo em relação ao Brasil, só positivos, tanto de membros europeus quanto de não europeus", afirmou. "Em relação ao caso específico do Brasil, só recolhemos palavras favoráveis."

Sobre os próximos passos da adesão, Araújo acredita que novos avanços possam acontecer na reunião de cúpula do G20 que será realizada em Osaka, no Japão, entre 26 e 28 de junho. Dos 20 países do bloco, 14 são membros da OCDE, o que cria um clima propício ao debate político sobre o tema - ainda que não para uma decisão oficial.

"Tenho a impressão de que existe, não sei se consenso, mas um grande movimento no sentido que a ampliação é um tema importante e que não deve ficar bloqueado por muito tempo", estimou. "Há um certo sentimento de urgência de que é preciso começar esse processo."

MERCOSUL

Se a postura americana foi saudada como um avanço pelo governo, outra notícia importante do dia para os interesses diplomáticos do Brasil não foi boa. No início da tarde o governo da França emitiu nota na qual adverte que "não ratificará nenhum acordo que prejudique os interesses dos agricultores e consumidores franceses, as exigências de qualidade sanitária e alimentar dos standards europeus, e a nossos engajamentos ambientais no Acordo de Paris". As questões ambientais estão no centro dos mais recentes discursos políticos do presidente francês, Emmanuel Macron.

A informação é encarada como um possível freio nas negociações entre o Mercosul e a União Europeia para um acordo de livre-comércio entre os dois blocos. Autoridades de ambos os lados do Atlântico haviam manifestado nos últimos dias otimismo quanto às perspectivas de um entendimento, que colocaria fim a 19 anos de discussões formais e até aqui mal-sucedidas.

"A França tradicionalmente é um dos países que mais resistiram à concessões necessárias para acordos com o Mercosul", disse Araújo.

"É importante mencionar que o caso do Mercosul, e muito especificamente do Brasil, nesses últimos meses temos feito grandes esforços para renovar nossas posições e atualizá-las de uma maneira que permitam a conclusão do acordo", afirmou o chanceler. "Esperamos o mesmo tipo de esforço da parte europeia."

Araújo disse ter pareceres de governos como o da Alemanha e o da Itália em favor da assinatura. "Com Alemanha e Itália tivemos expressões de muito interesse pela conclusão do acordo e acho que tem há também uma sensação de que esse é o momento depois de 20 anos de negociação", alegou. "Sigo otimista."

Questionado sobre se os últimos dados a respeito do aumento do desmatamento no Brasil e a repercussão negativa de políticas ambientais do governo Bolsonaro na Europa não prejudicam os argumentos brasileiros na negociação, Araújo afirmou que é preciso esclarecer os europeus sobre o assunto.

"O que há é um certo déficit de conhecimento em relação às políticas ambientais e agrícolas brasileiras", sustentou, afirmando que o compromisso ambiental do governo, que já existia, "é até maior hoje hoje do que em um passado recente".