As ruas contra Macri

Argentinos rechaçam 'tarifaços'; luz subiu mais de 2.000% em três anos

Os movimentos sociais da Argentina se articularam, ontem, manifestações maciças em 50 cidades para exigir que o governo Macri declare emergência alimentar e dê fim aos aumentos de tarifas, que definem como "impagáveis".

Ontem, o presidente Maurício Macri admitiu o sofrimento dos cidadãos pela crise econômica, mas prometeu que a situação será superada lentamente. A conta de luz já acumula um aumento de 2.136%, e a de gás, de 3.008%, desde que Macri chegou ao poder, em 2015. O governo alega que a alta se deve a uma atualização natural das tarifas, que estariam excessivamente subsidiadas pelas gestões anteriores.

Novas eleições presidenciais estão marcadas para 27 de outubro de 2019 e se a escalada da inflação continuar, o mandatário deve enfrentar a fúria dos movimentos sociais, de grande capilaridade sobretudo em Buenos Aires. "Há muita gente chateada e angustiada porque demora mais para o fim do mês chegar. Mas este é o único caminho. A economia vai melhorar lentamente", disse o mandatário à rádio Pasión.

"A fome voltou às ruas. Não aguentamos mais os 'tarifaços'. É o pior ano desde a crise de 2001", diz Daniel Menéndez, um dos líderes do protesto que reuniu milhares de manifestantes nas ruas da capital Buenos Aires. De fato, há 18 anos, teve início um regime de taxa de câmbio fixa, e a Argentina declarou moratória, gerando comoção política que em 10 dias provocou a queda de quatro presidentes, entre eles três interinos.

Macaque in the trees
Protestos são reação à desvalorização do peso, que perdeu 50% do valor, e fim dos subsídios aos serviços públicos, que levaram a uma inflação de 47,6% (Foto: Juan Mabromata/AFP)

"A crise é dramática com queda de salários (20% acumulados em 12 meses, em janeiro), fechamentos de fábricas e estabelecimentos comerciais, e restaurantes populares cheios de gente", disse outro dirigente, Juan Carlos Alderete.

Ao longo de 2018, a desvalorização do peso em mais de 50% e a retirada dos subsídios governamentais aos serviços de transporte e energia fizeram com que a inflação chegasse a 47,6%, a maior desde 1991. Esse panorama econômico - estimativas apontam para queda de 2,6% no PIB em 2018 - levou a oposição a apelidar a recessão de "Macrisis".

Em 2017, quando o PIB avançou 2,9%, a pobreza retrocedeu 4,1 pontos porcentuais. Para este ano, porém, a projeção é de queda na economia e é improvável que os indicadores sociais não piorem. A meses do novo pleito presidencial, a parcela da população do país classificada como pobre chega a 33,6%. Quando Macri assumiu, ao fim de 2015, a pobreza afetava cerca de 29,2% dos argentinos.

Com milhares de participantes, a marcha na capital argentina confluiu para o Obelisco, no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julio, encontrando outra mobilização de trabalhadores que reclamava sobre o possível de fechamento do canal a cabo C5N, o único que reflete as demandas da oposição ao governo federal.