Saída americana de tratado nuclear lhe permite modernizar arsenal

A saída dos Estados Unidos do tratado INF sobre as armas nucleares de alcance intermediário com a Rússia poderia provocar uma nova corrida armamentista, mas também permitirá a Washington modernizar o seu arsenal nuclear, um objetivo anunciado publicamente há um ano.

O presidente americano, Donald Trump, anunciou na sexta-feira (1) que seu país estava iniciando o processo de saída do tratado INF, que será efetiva em seis meses, "a menos que a Rússia volte a respeitá-lo destruindo todos os mísseis, lançadores e equipamentos que violem o texto".

O presidente russo, Vladimir Putin, por sua vez, respondeu neste sábado (2): "esperaremos até que nossos sócios tenham amadurecido o suficiente para realizar um diálogo consequente e de igual para igual conosco neste importante assunto".

Há vários anos Washington denuncia o desenvolvimento por parte de Moscou de sistemas que violam o tratado INF. Mas os Estados Unidos também anunciaram publicamente a intenção de dotar-se de novas armas nucleares.

Ao publicar em fevereiro de 2018 a sua nova posição nuclear, os Estados Unidos haviam mostrado a sua intenção de dotar-se de duas novas armas: um novo tipo de míssil nuclear de baixa potência lançado de um submarino (uma categoria não incluída no tratado INF) e um novo tipo de míssil nuclear de cruzeiro que violaria o acordo.

Este novo míssil - que estaria em operação em 10 anos - só violaria o tratado se fosse enviado, assegurou o Pentágono, destacando que lançar o programa de pesquisa e desenvolvimento não era proibido pelo tratado assinado em 1987 com Moscou.

A partir deste sábado "não estamos mais vinculados às restrições" do tratado INF, indicou na sexta-feira à AFP um porta-voz do Pentágono, Johnny Michael.

O orçamento de 2019 do Departamento de Defesa prevê fundos para o desenvolvimento deste novo míssil terrestre de alcance intermediário e "ainda estamos em fase de pesquisa", detalhou o porta-voz.

De fato, o Pentágono já preparava a sua resposta ao míssil russo 9M729, com alcance máximo de somente 480 quilômetros, segundo Moscou, enquanto Washington, respaldado pelos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), sustenta que já foi testado em distâncias superiores.

 

Para Jeffrey Price, da Universidade Johns Hopkins, o tratado INF é vantajoso para os Estados Unidos já que, embora proíba o uso de mísseis com um alcance entre 500 e 5.500 quilômetros, os que são lançados por bombardeiros ou submarinos não estão incluídos.

Assim, os Estados Unidos já contam com "a Marinha e Força Aérea mais poderosas do mundo" e o tratado "priva a Rússia de uma capacidade militar importante", tuitou este antigo responsável do Pentágono.

Segundo cifras do grupo antinuclear Union of Concerned Scientists, o arsenal nuclear americano supera 4.600 armas, das quais 1.740 se encontram mobilizadas e prontas para uso.

Dez submarinos da Marinha americana com mísseis nucleares patrulham os mares permanentemente, destaca o grupo.

A Rússia dispõe de uma quantidade similar de ogivas nucleares, mas seus submarinos estão em mau estado, como mostraram vários acidentes nos últimos anos.

A China, que busca afirma sua supremacia militar na Ásia, também conta com mísseis de alcance intermediário. Segundo os especialistas, 95% dos mísseis chineses violariam o tratado INF se Pequim fosse signatário.

Para Michael Krepon, do Centro Stimson, "nos dirigimos a uma nova corrida armamentista nuclear".

"Quando se tem um orçamento em Defesa que é 10 vezes o da Rússia e cinco vezes o da China, (os Estados Unidos) podem se permitir (participar de) uma corrida armamentista", indicou em uma coluna na revista Forbes. "Mas as corridas armamentistas acabam mal: inclusive quando se vence, vemos como enfraquece a segurança".