Vale: prejuízo sem precedentes

Empresa despenca 24,52% na Bolsa e perde R$ 71 bilhões em valor de mercado, maior desvalorização da história em um dia

Três dias após o rompimento da barragem em Brumadinho (MG), a Vale acumula reveses financeiros históricos. No primeiro pregão da Bovespa após o crime ambiental, ontem, a mineradora viu seus papéis se desvalorizarem em 24,52% levando à uma perda de R$ 71 bilhões em valor de mercado, a maior queda da história do mercado de ações brasileiro, de acordo com a consultoria Economática - antes a perda recorde era da Petrobras, que viu R$ 47 bilhões virarem pó à época da greve dos caminhoneiros, em maio deste ano. Além disso, terá de arcar com indenizações milionárias à família dos mortos e desaparecidos, que devem ir muito além dos R$ 100 mil prometidos a cada núcleo envolvido.

As cotações dos papéis da Vale e da Bradespar ruíram por temor de pesadíssimos prejuízos de indenização às famílias dos trabalhadores da Vale e de terceiros (R$ 100 mil na proposta oficial da empresa a cada vítima) atingidos pelo rompimento da barragem de Brumadinho e pelas ações de perdas e danos das comunidades e empresas que serão atingidas até a chegada da lama ao rio São Francisco.

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Fonte Economatica (Foto: Reprodução)

Segundo os analistas dos bancos Bradesco BBI e BTG Pactual, o rompimento da barragem eleva a percepção de risco em torno da mineradora e deve continuar pressionando as ações da companhia por um tempo, ainda que do ponto de vista econômico o impacto das operações locais seja de menos de 2% da produção total da Vale. Assinalam ainda que a crise criada pode trazer restrições mais severas às operações de outras minas, elevando os custos do setor e comprometendo potencialmente a produção de minério.

Rebaixamento

Para arrematar, ao fim da tarde, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito em moeda estrangeira da Vale de BBB+ para BBB- e colocou o rating em observação para um eventual novo corte. Em comunicado divulgado nesta segunda-feira, 28, a Fitch aponta que o rebaixamento reflete a expectativa de que a empresa terá pela frente “pesados custos de reparação como resultado do acidente em Brumadinho”. De acordo com a agência, o corte na nota de crédito da Vale também vem na esteira de expectativas de que as multas contra a empresa serão “substanciais, já que o acidente de mineração ocorreu aproximadamente três anos depois que outra barragem se rompeu”.

Além disso, a Fitch argumenta que suas ações de rating são uma expectativa de diminuição da produção no curto prazo e no investimento adicional para remediação e outras despesas para garantir a segurança em várias outras barragens da Vale. Nos cálculos da Fitch, em um cenário em que a Vale perde toda a produção do complexo de Paraopeba, o Ebitda da companhia cairia de estimados US$ 15 bilhões em 2019 para US$ 13,6 bilhões, considerando US$ 60 por tonelada o preço do minério de ferro. “Em uma base pro forma, isso elevaria a alavancagem líquida projetada da empresa de 0,7x para 0,8x”, aponta a agência, que acredita em uma elevação desses índices devido a reparações, multas e outras possíveis obrigações a serem impostas sobre a Vale.

No comunicado, a agência também aponta que a Vale utilizou processamento a seco para cerca de 40% de sua produção, enquanto os 60% restantes exigiram barragens de rejeitos, sendo 136 no Brasil. “Se a produção nessas barragens for interrompida em qualquer um dos outros locais devido a qualquer uma das agências reguladoras e/ou a preocupação de autoridades federais sobre essas várias barragens de rejeitos, os ratings da Vale podem sofrer rebaixamentos adicionais”, afirmou a Fitch.

Soma-se à crise o anúncio de quatro escritórios de advocacia norte-americanos entrarão com ações coletivas contra a Vale na Justiça dos Estados Unidos após as perdas causadas aos investidores após o acidente. “A Rosen Law está preparando uma ação coletiva para recuperar as perdas sofridas pelos investidores da Vale”, afirmou em comunicado. O escritório afirma estar investigando se a mineradora brasileira pode ter “emitido ao público informações de negócios materialmente falsas”. Já o escritório Tha Schall investiga se a mineradora soltou “informações falsas e enganosas” aos investidores, que omitiam os riscos com a barragem, burlando as regras do mercado acionário norte-americano. Horas depois, o Wolf Popper e o Bronstein, Gewirtz & Grossman também anunciaram que pretendem abrir ação coletiva contra a Vale em Nova York.

Além das dezenas de mortos e do estrago ambiental, o comunicado do escritório ressalta que o American Depositary Receipt (ADR) da empresa - recibos de ações negociadas na Bolsa de Nova York - despencou após a notícias do acidente, caindo 8% na sexta e 16% na tarde desta segunda. O ADR da Vale foi, ontem, o papel mais negociado em toda a Bolsa de Nova York, superando o número de negócios de gigantes americanasn como a General Eletric, PG&G e Bank of America. A Vale fora alvo de dois processos semelhantes nos EUA em 2015 após o rompimento de barragem da Samarco em Mariana (MG).

Desde o desastre, quatro ordens judiciais já bloquearam R$ 11,8 bilhões da Vale, além de multas da ordem de R$ 350 milhões. Bancos e instituições financeiras como HSBC, BMO e Macquarie já pararam de recomendar os ativos da empresa.

Dividendos suspensos

Como medida emergencial para conter gastos, o conselho de administração da Vale decidiu suspender o pagamento de dividendos e juros sobre o capital próprio, isto é, a remuneração de acionistas e bônus de funcionários. Em decisão política, a empresa também decidiu manter o pagamento de royalties ao município de Brumadinho, mesmo diante da interrupção da atividade mineradora na cidade, o que escalona os gastos.

E a empresa pode ainda ser alvo de uma devassa em suas atividades caso de instale uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista no Congresso, solicitada pelo PT.