Banco Central do Iêmen, a outra frente da guerra

Dentro do edifício do Banco Central em Aden, crivado de balas, os funcionários separam as pilhas de dinheiro. Lutando contra a ruína da economia nacional, esta instituição simboliza os efeitos devastadores da guerra no Iêmen.

Iniciado há quatro anos, o conflito entre os rebeldes huthis, apoiados pelo Irã, e o poder, respaldado pela Arábia Saudita, provocou uma catástrofe humanitária e uma profunda crise econômica neste país, o mais pobre da península Arábica.

O Iêmen atravessa o que os diplomatas chamam de "fome de empregos e salários" e o Banco Central, que teve que ser levado a Aden, a grande cidade do sul e capital de fato do governo, não consegue realizar o seu papel.

A instituição faz todo o possível para apoiar a moeda nacional, o rial, que perdeu dois terços do seu valor desde 2015. O desemprego não para de crescer e milhões de iemenitas não têm meios para conseguir os alimentos básicos.

Em um contexto de inflação crescente, o Banco Central espera uma injeção de três bilhões de dólares por parte de Kuwait e Emirados Árabes Unidos, assinalou o vice-governador do banco, Shokeib Hobeishy, sem especificar a data.

Se forem confirmados, esses depósitos se somarão aos 2,2 bilhões de dólares de fundos injetados por Riad em um banco mais dependente do que nunca das ajudas internacionais.

Hobeishy admitiu que a instituição tem problemas para impor sua autoridade nas filiais localizadas em áreas controladas pelos rebeldes, incluindo a capital, Sanaa, nas mãos dos huthis desde 2014.

 

O governo transferiu a sede do Branco Central de Sanaa para Aden em 2016, depois de suspeitar que os rebeldes haviam se apoderado de uma parte das reservas, o que os huthis negam. O país tem agora dois centros de poder com duas políticas orçamentárias paralelas para uma mesma moeda.

A economia esteve ausente do acordo concluído na semana passada na Suécia entre os beligerantes, que acertaram uma trégua em Hodeida, principal frente da guerra há vários meses.

Segundo um diplomata presente na Suécia, os huthis negaram que o Banco Central em Aden pague os salários dos funcionários em todas as regiões do país, como afirma o governo.

Esta instituição é atualmente "a frente mais perigosa da guerra", declarou à AFP Wesam Qaid, um responsável da ONG Small and Micro Enterprise Promotion Service, que trabalha para o desenvolvimento econômico.

"Milhares de pessoas foram mortas por bombardeios, minas e operações militares", disse. "Mas muitas outras morreram por causa da pobreza, fome, falta de atendimento médico, enquanto o Banco Central está envolvido no conflito".

Depois de 2015 e da intervenção militar saudita no conflito, a economia nacional caiu 50% e a inflação teria que chegar a mais de 40% em 2018, segundo o Banco Mundial.

Os iemenitas também têm medo de depositar seu dinheiro em bancos locais.

"Os bancos costumam dizer: 'Não temos dinheiro. Voltem amanhã, voltem na semana que vem'", disse um funcionário de 54 anos em uma escola de Aden.

As empresas criticam, por sua vez, os longos processos para obter as cartas de crédito necessárias para as importações em um país dependente delas.

Em uma carta enviada em novembro ao primeiro-ministro, Main Said, e ao presidente do Banco Central, Mohamed Zemam, a Câmara de Comércio de Aden apresentou as dificuldades encontradas pelos comerciantes nas regiões rebeldes para importar produtos básicos.

Segundo uma diretiva do Banco Central, os comerciantes só podem pagar em dinheiro.

Zemam também indicou que cinco de seus empregados, temendo por sua segurança, fugiram de Sanaa para Aden, antes de aparecerem em uma "lista negra" dos rebeldes.

"Pedimos aos rebeldes que deixem o setor bancário em paz", disse. "É a única maneira de alimentar as pessoas".