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Economia

Xi Jinping diz que ninguém pode ditar o caminho da China ao celebrar 40 anos de reformas

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A China celebrou nesta terça-feira com grande pompa os 40 anos das reformas econômicas que transformaram o país na segunda maior economia do planeta, em uma cerimônia na qual o presidente Xi Jinping defendeu o socialismo "com características chinesas".

Diante do desafio representado por Donald Trump, que iniciou uma guerra comercial para tentar acabar com os excedentes do gigante asiático, o presidente chinês afirmou em um discurso de uma hora e meia: "Ninguém pode ditar ao povo chinês o que deve ou não deve fazer".

Durante o evento no Grande Salão do Povo de Pequim, Xi voltou a prometer que seu país continuará a abertura ao comércio e aos investimentos, com o ímpeto das reformas anunciadas em 18 de dezembro de 1978, mas em seu próprio ritmo.

"Mudaremos decididamente aquilo que pode ser reformado e não mudaremos, decididamente, o que não pode ser".

"Em um país como a China, com 5.000 anos de história e uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas, nenhum manual pode ser considerado como uma regra de ouro e tampouco há um professor que possa dar ordens ao povo", disse.

Em 1976, após 10 anos de caos provocado pela Revolução Cultural e com a morte de seu "grande timoneiro", Mao Tsé-Tung, a China era um país extremamente pobre, com uma economia planejada e coletivista.

Mas então aconteceu uma mudança histórica: a terceira sessão plenária do XI Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), celebrada entre 18 e 22 de dezembro de 1978, ratificou a guinada para a "Reforma e Abertura", assim como uma "economia de mercado socialista", sob a liderança de Deng Xiaoping.

Deng lançou as "quatro modernizações" que eram defendidas desde 1975 pelo primeiro-ministro de Mao, Zhou Enlai: Agricultura, Indústria, Ciências e Tecnologia e Defesa.

A modernização ficou nestes tópicos. O jovem Wei Jinsheng, que em dezembro de 1978 pediu uma "quinta modernização", a democracia, passou 18 meses na prisão pela ousadia.

Uma década mais tarde, a violenta repressão das manifestações pró-democracia na Praça Tiananmen (Paz Celestial), em junho de 1989, confirmou a ausência de contestação possível ao sistema político e à supremacia do PCC.

O quadro é claro: abertura e reformas econômicas, mas sob o rígido controle do Partido Comunista.

Em 1979, nesta nação que na época era fundamentalmente rural, a reforma começou pelo campo, onde os camponeses viviam na miséria.

Alguns deles já haviam se revoltado e viraram os precursores do fim da coletivização agrícola.

Dezoito camponeses do vilarejo de Xiaogang, na província de Anhui (leste), estabeleceram um pacto secreto em 1978: abandonaram a "comuna", o sistema coletivo, por um "sistema de responsabilidade familiar" que dividia as terras comuns em parcelas individuais.

Os resultados da colheita de 1979 foram impactantes e a experiência se tornou uma bola de neve, agora com o beneplácito das autoridades.

A reforma atingiu as cidades em meados dos anos 1980, progressivamente. Antes, Deng abriu zonas econômicas especiais na região sul, onde estimulava os investimentos estrangeiros.

Entre os projetos-piloto, Shenzhen, perto de Hong Kong, deixou de ser uma área de pescadores e virou uma cidade voltada para inovação.

A adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 representou outra etapa importante para o gigante asiático, o que obrigou o país a avançar em termos de abertura e adaptação às regras internacionais.

Mas os sócios econômicos, especialmente EUA e países europeus, criticam a liberalização dos mercados que consideram insuficiente.

Pequim é acusado de prejudicar a concorrência ao subsidiar as empresas chinesas, com práticas comerciais "desleais" como as violações da propriedade industrial ou transferências de tecnologia impostas às empresas estrangeiras.

E a taxa de câmbio do yuan, que ainda não é totalmente conversível, permanece controlada.

A China parece determinada a prosseguir com sua abertura, mas em seu próprio ritmo. O país não pode arriscar desestabilizar uma economia que dá mostras de desaceleração, com um crescimento de 6,5% no terceiro trimestre, o menor nível em nove anos.