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Economia

Mozilla busca alternativas para economia da dependência na Internet

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Mitchell Baker está decepcionada. A presidente da fundação Mozilla, que desenvolve o navegador Firefox, lamenta a evolução da Internet para uma "economia de dependência", mas não se desespera em encontrar alternativas, inclusive ao onipresente Google.

A fundação depende em boa parte da receita deste que é o motor de buscas mais utilizado, uma relação que incomoda Mitchell Baker, admite à AFP em entrevista no Web Summit, que termina nesta quinta-feira (8) em Lisboa.

Assim como todos os navegadores, o Firefox recebe parte da receita gerada pela publicidade que aparece nas páginas de resultados das buscas, seja qual for o motor.

Em 2005, ano da primeira busca "paga" no Firefox, isto não representava um problema. "O Google gerava tanto entusiasmo na época, a publicidade era infinitesimal", lembra a presidente.

"Na ocasião, estavam muito alinhados com a rede que pensávamos construir. Com o tempo, isso é agora menos certo", relata. "Portanto, estudamos de perto as possibilidades de diversificação no referente a fontes de renda".

O Google e os grandes grupos não são os únicos responsáveis pela evolução da Internet. Os comportamentos humanos também têm um papel.

De fato, os modelos baseados em publicidade, que permitiram financiar sites e serviços on-line "gratuitos", não teriam chegado a alcançar tal magnitude sem o fascínio de alguns usuários por alguns conteúdos, especialmente violentos ou ousados, e a propensão a compartilhá-los.

"A prática do 'vem cá', 'continue clicando', 'compartilhe a informação o quanto antes', e tudo isso sem refletir... É algo que se parece com a dependência", analisa Mitchell Baker.

 

A presidente da fundação continua maravilhando-se com as promessas cumpridas pela rede, como a imensa facilidade existente hoje para comunicar, descobrir, aprender e colaborar uns com os outros.

Mas a mulher compartilha a constatação de vários outros especialistas da rede: são impostas profundas mudanças nela.

"O problema é que a dependência é rentável, quer se trate de drogas, açúcar ou tecnologia", afirma. Como, então, construir uma alternativa para todos e não apenas para quem possa pagar serviços sem publicidade.

A Firefox, que representava em outubro 5% da cota do mercado mundial dos navegadores, contra mais de 60% para o Chrome, da Google, (segundo o serviço de análise Statcounter), desenvolveu várias funcionalidades que supostamente permitem aos usuários evitar que seus dados sejam coletados de forma indiscriminada.

Desde outubro, o navegador oferece aos seus 277 milhões de usuários a opção de bloquear os "cookies" que seguem o rastro dos usuários para enviar-lhes publicidades específicas.

"Não somos contra a publicidade", explica à AFP Katharina Borchert, diretora de inovação do Mozilla. "Queremos encontrar um equilíbrio maior entre a experiência do usuário, o controle de seus dados, a segurança e as oportunidades" de comércio.

 

"A proteção contra o 'rastreamento' já é um primeiro passo. Não se elimina a publicidade, mas sim que os dados sejam capturados sem o conhecimento do internauta", acrescenta.

"O sistema atual serve apenas a alguns intermediários e a empresas muito grandes", argumenta Katharina Borchert. "E não serve aos anunciantes que pagam pela publicidade, a maioria da qual não chega a ninguém", afirma.

No que diz respeito ao motor de buscas, o Mozilla não encontrou ainda a forma de prescindir do gigante Google.

"Realizamos experiências, mas os usuários estavam desconcertados com um funcionamento que rompia com seus costumes", conta Mitchell Baker. "Fomos programados para um certo tipo de busca", explica.

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