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Economia

Fake news: Verdades de mentira

Jornal do Brasil ANDRÉ L MICELI* CAROLINNE BARBOSA**

Elas estão por todo lado, nas redes sociais, nos aplicativos de bate-papo pelo celular e são disseminadas até em uma conversa informal. As fake news, informações falsas ou distorcidas, já fazem parte do nosso cotidiano há algum tempo e com o aumento do consumo das redes sociais, elas são distribuídas com mais agilidade e com uma proporção maior, sendo equiparadas a uma epidemia.

E, se elas afetam as mais variadas áreas, com o auge das eleições presidenciais no Brasil, as fake news se tornaram uma preocupação, uma vez que os usuários ainda não estão “tecnologicamente educados” para receber uma informação e se assegurar da veracidade da mesma. Pelo contrário, quando essa informação se enquadra na ideologia, ela é disseminada sem maiores preocupações.

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Verdades de mentira (Foto: Gabriel Souza)

Uma análise de 20 notícias sobre a corrupção feita pelo Atlantic Council, comprovou que as matérias que geraram mais engajamento no Facebook e no Twitter, em 2018, foram as publicadas por veículos com baixa credibilidade. Dessas, cinco não eram fundamentadas e quatro eram inverídicas. Além disso, a velocidade com que essas notícias são divulgadas é de 5 a 6 vezes maior do que uma informação verdadeira, acarretando um engajamento maior e fazendo com que as fake news sejam disseminadas com maior facilidade.

Em 2016, os boatos já tinham ganhado destaque na política durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Uma onda de notícias falsas foi divulgada gerando milhares de compartilhamentos de pessoas que não se atentavam à veracidade dos fatos.

Ainda em 2016, durante a campanha de Donald Trump, nos Estados Unidos, também foi divulgado que o atual presidente republicano liderava nas pesquisas do voto popular, enquanto Hillary Clinton ganhava por mais de um milhão de votos. Nesse caso, o Congresso americano e o FBI ainda estão em um processo de investigação sobre as evidências de russos e outros estrangeiros que contaminaram as redes sociais com postagens inverídicas. Dados da Dartmouth College demonstraram que a disseminação de sites de fake news, antes da eleição de 2016, estava centralizada entre os 10% de americanos com inclinação mais conservadora e não dos eleitores indecisos.

Em pleno 2018, durante as eleições brasileiras, não está sendo diferente. Existe uma insistência na divulgação de notícias falsas sem uma pesquisa prévia ou interesse mínimo pela informação que está sendo replicada. O fluxo permanece o mesmo: aparece na timeline ou nos grupos de família, a fonte não é confiável, mas, ainda sim, o conteúdo é repassado sem maiores preocupações. Mas o fato é que, no Brasil, não possuímos uma lei específica para punir os infratores. Porém, o ato de reproduzir ou compartilhar pode ser caracterizado como injúria, calúnia ou difamação.

Paralelamente à epidemia de fake news, os veículos de informação têm se esforçado para combater esse mal. Um grupo de 24 veículos de comunicação lançou um projeto de combate aos boatos nas eleições de 2018, o “Comprova” é coordenado pelo programa “First Draft”, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O projeto monitora os sites e redes sociais para encontrar possíveis “manipulações que possam influenciar na campanha eleitoral”. O Google também não ficou fora da iniciativa e lançou o Google News Initiative, um esforço da empresa para combater a desinformação e garantir que as empresas pratiquem o “bom jornalismo” na era digital.

No entanto, a precaução deve ir além dos grandes veículos e iniciativas, é preciso educar-se, questionar, validar, discutir e duvidar do que está sendo divulgado em grande massa. A tecnologia abriu muitas portas, nem todas elas são benéficas para nosso consumo. Ter uma noção mínima da verdade trará bons fluidos e fará com que a informação que chega seja contestável. Independentemente do posicionamento, é importante adquirir gosto pela pesquisa e torná-la um hábito, afinal, só assim será possível estar informado em um mundo cheio de verdades de mentira.

* Professor e coordenador de MBA em Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas

** Jornalista



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