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Economia

Steve Eisman, o financista que enriqueceu com a crise imobiliária

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A crise financeira de 2008 devastou cidades americanas, arruinou milhões de pessoas e ameaçou grandes bancos, mas também enriqueceu alguns financistas, que apostaram no colapso do castelo de areia imobiliário dos Estados Unidos.

Steve Eisman é uma das pessoas cujo bolso e portfólio engordaram à medida que aumentavam as quebras dos lares americanos, que haviam pedido créditos hipotecários subprime, de alto risco, com taxas de juros variáveis.

Sua aposta audaciosa é narrada no filme "A grande aposta", que estreou em 2015, no qual o ator americano Steve Carell interpreta o personagem Mark Baum, Steve Eisman na vida real.

De cabelo grisalho e com o físico de um jogador de rugby, este cinquentão se diferencia por sua forma franca de falar que contrasta com a linguagem codificada dos corretores de Wall Street.

 

A partir de 2004 e até o início de 2007, Eisman, casado com uma ex-banqueira, foi gerente de portfólios do fundo de cobertura FrontPoint Partners.

Seu trabalho consistia em investir o dinheiro de clientes ricos em títulos financeiros, dopados na Bolsa pelo sucesso eufórico dos empréstimos subprime cujos riscos os bancos disseminavam por todo o mundo, vendendo-os por partes em forma de obrigações (CDO, obrigação da dívida colateral, e RMBS, títulos financeiros vinculados a empréstimos hipotecários).

Apesar de ser graduado em Direito na Universidade de Harvard, Steve Eisman não entendia muito bem esses produtos financeiros com siglas estranhas, e não era o único, como percebeu rapidamente em uma conferência em Las Vegas em 2004.

Eisman descobriu ao viajar para Flórida, Califórnia, Nevada e Arizona, epicentros dos empréstimos subprime, o laxismo dos bancos e das empresas que concediam os créditos, e que sequer conheciam a situação financeira de seus clientes.

"Como podíamos outorgar um empréstimo imobiliário a um cliente que só podia pagar os três primeiros anos" de hipoteca?, questiona Eisman em uma entrevista à AFP no escritório do fundo Neuberger Berman, seu novo empregador, no coração de Manhattan.

"Nos primeiros três anos davam às pessoas uma taxa atraente de 3%, e depois a subiam para 9%", lembra.

Contactou então a agência de qualificação Standard & Poor's, que dava o famoso triplo A, a melhor nota possível, aos produtos financeiros CDO e RMBS. A S&P confirmou a ele que seus modelos não integravam hipóteses negativas.

O financista identificou uma quantidade considerável de créditos duvidosos e decidiu apostar em seu fracasso, convencendo Goldman Sachs e Deutsche Bank a criar seguros destinados a se proteger no caso de um credor não poder reembolsar um empréstimo (Credit Default Swaps, ou CDS).

 

No início de 2007, a interrupção de pagamentos dos lares americanos se multiplicavam porque empresas e pessoas que especulavam com uma contínua alta do mercado imobiliário decidiram se retirar brutalmente do mesmo, precipitando a queda dos preços.

Em oito meses, 84 empreses de créditos hipotecários nos Estados Unidos encontraram a ruína. E o valor do portfólio de Steve Eisman aumentou, passando de 700 milhões de dólares para 1,5 bilhão, e seguiu crescendo.

"Me sentia como Noé" em sua arca, conta Eisman, retomando a imagem bíblica, mas rejeitando a ideia de que se aproveitou da miséria de milhões de americanos. "Você acha que Noé estava feliz?", diz.

Para ele, se existe um culpado pela crise este são os banqueiros e corretores, que estavam convencidos de serem oniscientes. "É difícil discutir com alguém que acha que é Deus porque ganha muito dinheiro".

O financista, que se tornou uma das vozes mais influentes de Wall Street, culpa também os reguladores, entre eles Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (o Banco Central americano) e fervoroso defensor da desregulação.

"Os reguladores dos bancos tinham duas missões antes da crise: garantir a segurança do sistema bancário e proteger os consumidores dos maus atores. Fizeram um trabalho ruim".

E qual será a sua próxima aposta? "Não tenho, porque os créditos para a compra de automóveis ou os empréstimos estudantis americanos não comportam riscos sistemáticos como os subprime. Além disso, hoje os bancos americanos são mais saudáveis e robustos", afirma o financista, que recentemente comprou ações bancárias.

Mas "não diria a mesma coisa dos bancos europeus, sobretudo o Deutsche Bank", acrescenta. Eisman aposta em um colapso das ações do banco alemão e já colheu os primeiros frutos por conta das crescentes dificuldades do banco.

 

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