Os causos de Murakami: Polêmicas recentes dizem respeito a pena de morte, censura e gatinhos

Em geral muito discreto, o escritor japonês Haruki Murakami, frequentador habitual das listas de favoritos ao Prêmio Nobel de Literatura, tem dado o que falar nos últimos meses. Em uma longa saga, com sexo, violência, música e gatos, o autor de 69 anos tornou-se uma grande notícia do mundo literário nas últimas semanas.

O primeiro capítulo aconteceu no dia 26 de julho, quando o romancista escreveu um artigo no jornal japonês “The Mainichi”, uma atitude incomum de sua parte. Ele ofereceu seu ponto de vista sobre a execução por parte do governo japonês de 13 membros da seita Aum Shinrikyo, condenados pelo atentado com gás sarin no metrô de Tóquio em março de 1995, que deixou 13 mortos e intoxicou 6.200 pessoas.

Em 1998, Murakami publicou um livro sobre o atentado, “Underground”, sem tradução no Brasil. Para a obra, ele colheu testemunhos de vítimas e adeptos da seita. Em seu artigo para o “Mainichi”, ele, que sempre se opôs publicamente à pena de morte, manifestou um ponto de vista diferente:

“Por ter entrevistado durante um ano vítimas e pessoas que perderam entes próximos no ataque com gás sarin e por ter sido testemunha de sua tristeza, de sua dor e de sua cólera, não posso dizer publicamente, neste caso preciso, que sou ‘contrário à pena de morte’”.

Ele diz ainda: “Após escutar pela primeira vez na dia a sentença de morte ser pronunciada em um tribunal, lutei para voltar ao curso normal da minha vida nos dias que se seguiram. Senti um peso muito pesado no peito. No momento em que o juiz pronunciou a sentença, a morte surgiu no salão”.

“E agora, depois de descobrir que os 13 membros da seita foram executados, sinto o mesmo peso no meu peito. Um silêncio pesado que vai além das palavras cresce em mim. A morte que apareceu no tribunal cumpriu seu papel”.

Censura 

No final de julho, foi a vez do autor de “Norwegian wood” (Alfaguara, 2008) ser censurado em Hong Kong. Seu último romance, “Killing Commendatore” (de 2017, sem previsão de lançamento no Brasil) só pode ser vendido para maiores de 18 anos, com uma advertência na capa.

Lançado em fevereiro no Japão, o livro homenageia o “O grande Gatsby”, de Fitzgerrald.  O livro conta a história de um pintor de retratos de 36 anos que, após o divórcio, muda-se de Tóquio para uma casa antiga nos arredores de Odawara. Em seguida, o protagonista se vê envolvido em eventos misteriosos que incluem a descoberta de uma pintura no sótão que partilha o nome do título do livro e o encontro com um homem de nome estranho e um passado por revelar.

O conteúdo sexual é um dos motivos para a restrição. Esta não é a primeira vez que o escritor das “Crônicas da primavera” é persona non grata na China. Em 2012, seus livros foram retirados das livrarias, pagando o pato por tensões entre o Japão e a China em disputas por território. Na época, Murakami denunciou a “histeria nacionalista” dos dois países.

Atacando de DJ

Para finalizar, o romancista atacou de DJ, em um programa de rádio chamado, obviamente, de “Murakami Radio” e transmitido em 5 de agosto pela Tokyo FM. A proposta era compartilhar com os ouvintes algumas das canções favoritas de Murakami.

A música é um elemento onipresente em seus livros, e o escritor foi dono de um clube de jazz em outro momento da vida. A coleção de LPs de Murakami, notória, tem mais de 10 mil LPs.

No programa de 55 minutos, o escritor tocou e comentou nove músicas, de “Madison time”, de Donald Fagen a “Heigh-ho / Whistle while you work” de Brian Wilson, além de “Light my fire”.

No programa, ele comentou sua paixão por correr maratonas, um de seus grandes hobbies. Ele disse que as corridas de longa duração o ajudam também na escrita: “Quando se escreve, a aptidão física é extremamente importante. É preciso muita energia para passar dias inteiros sentados escrevendo, mesmo que muitas pessoas pareçam não querer acreditar em mim”.

Murakami também respondeu a perguntas dos ouvintes. Uma delas particularmente complicada: se tivesse que escolher entre gatinhos, outra de suas grandes paixões, e música, qual elegeria? O autor preferiu não decidir.

Qual será o próximo capítulo da série Murakami na mídia? Anualmente, Murakami costuma ser cotado entre os favoritos ao Prêmio Nobel de Literatura, e já se sabe que, ao menos neste ano, este não será um motivo para ele ocupar as páginas dos jornais, como a honraria não será concedida em 2018, após um escândalo sexual na Academia Sueca. Mesmo assim, o escritor japonês está na corrida para o Prêmio Nobel Alternativo, criado pela New Academy.