'Do not let the sunshine in': confira crítica do espetáculo 'Pippin'

Uma fábula passada na Idade Média, mas que conta a trajetória angustiante de um herói contemporâneo, com canções que apelam ao coração,  irmãos  - protagonista e antagonista -  em choque, uma madrasta como se imagina, números de ballet vigorosos, um mestre de cerimônia que dá as ordens, uma vovozinha animadérrima e querida (cena magnífica com Nicette Bruno comandando o karaokê) fazem mais do que um musical. “Pippin” possui tudo isso, mas são os impasses que estavam colados na juventude, sobretudo a americana, quando foi à cena, em 1972, pela primeira vez, que fazem uma peça de longo curso.

Dirigido e coreografado originalmente pelo ícone Bob Fosse (1927-1987), o mesmo de “Chicago”, o  show de maior sucesso na Broadway, “Pippin”, com música de Stephen Schwartz, autor de “Godspell” (1971) e “Wicked” (2003), é um espetáculo dentro de um espetáculo. Conduzida pela  mestra de cerimônias (Totia Meirelles), uma trupe meio circense, meio mambembe, resolve contar a história do jovem príncipe, Pippin, filho de Carlos Magno, e sua volta ao reino que deverá assumir após a morte do pai. Esse retorno não é tranquilo, pois Pippin está, na  verdade, bastante confuso sobre o que deve encontrar como destino.

A montagem brasileira, de Charles Möeller, que adquiriu os direitos do espetáculo com Claudio Botelho, após o revival da peça na Broadway em 2013, traz como protagonista Felipe de Carolis que representa  o herói, misturando ingenuidade, mesmo inocência, o que contrasta com a interpretação de um rei bufão de  Jonas Bloch. Enquanto a montagem americana de 2013 diminuiu  a força da dança e introduziu números circenses, a opção brasileira foi aproveitar  os números de dança, ainda que o coro e os atores principais não alcancem os resultados que as coreografias sofisticadas e emblemáticas de Bob Fosse exijam.

No musical de 1972 , Bob Fosse criou uma das imagens mais famosas da história da Broadway:  as mãos brilhantemente iluminadas espalhadas na escuridão, um procedimento visualmente impressionante embalado pelos primeiros acordes sedutores do número de abertura “Magic to do”. Nesses poucos segundos, vê-se que  o tom, apesar de estilizado,  vai nos mostrar de forma muito interessante a luta de um jovem pelo significado da vida. Aqui, optou-se por reproduzir a cena para evidenciar que não se tem compromisso com a realidade, mas que se chega ao teatro e o que vai se ver são os sentimentos que a encenação provoca.

Pippin é um jovem saído das revoluções dos anos 1960, não encontrando satisfação em nada do que faz. Essa linha-mestra é semelhante à de “Hair”, espetáculo da mesma época, no qual o protagonista também procura  seu lugar ao sol. Em “Pippin”, a morte é apresentada como solução. Em “Hair”,  a morte na guerra é a derrota. Em “Pippin”, o herói  que não se encontra deve  ser sacrificado ao sol. Em “Hair”, é preciso que sejamos iluminados pela realidade. Ambas as peças tratam das mesmas questões, grandes canções, um grupo unido pelo desejo de viver de forma plena, até hoje hinos de que existe algo maior em nossos destinos.

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

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SERVIÇO

PIPPIN - Teatro Clara Nunes (R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea; Tel.: 2274- 9696). De qui. a dom.: qui, às 17h; sex. e sáb., às 21h; dom.,às 19h30. R$50 a R$ 120. Classificação: 12 anos.  Até  21/10.