Reconstruindo o samba: Melodias e harmonias ganham espaço no quarto álbum solo de Rodrigo Campos

Rodrigo Campos é um nome familiar para quem acompanhou a MPB na última década.  No período, o músico lançou três discos elogiados, foi um dos componentes originais do Passo Torto ao lado de Kiko Dinucci e Romulo Fróes, compôs para Elza Soares e a acompanhou em turnê. Ano passado, concebeu e gravou, ao lado da cantora Juçara Marçal e de Gui Amabis no sampler, o notável “Sambas do absurdo”, releitura contemporânea do Mito de Sísifo com letras de Nuno Ramos.  

Além do estilo lírico das composições, do modo de cantar sereno e sutil, a marca de Rodrigo nestes trabalhos é o gênero-matriz, o samba. Das expressões retorcidas, eletrificadas e processadas por influências nipônicas de “Conversas com Toshiro” (2015), o terceiro álbum solo, ao uso mais explícito da mitologia sambista (o bilhar, o futebol, o subúrbio) de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, a estreia de 2009, o paulistano sempre foi herdeiro, próximo ou longínquo, dos batuques e dos terreiros.

Surpreende, assim, ouvir o compositor se referir a “9 sambas”, lançado semana passada e disponível nas plataformas digitais, como seu primeiro álbum propriamente do gênero. “Eu vinha com um estilo de compor em que já desconstruía a canção desde a largada. Fiquei com  saudade de tocar uma levada do samba, de ouvir a harmonia, os acordes cheios. Nos outros discos, o samba está mais como matéria-prima do que como gênero. Dessa vez, quis trabalhá-lo por dentro”.

O álbum é um retorno a lembranças remotas de Rodrigo, ainda da infância. Na década de 1980, São Mateus, na Zona Leste paulistana, onde o compositor cresceu, era reduto de rodas de partido-alto e pagode. Nos fins de semana, os botecos ficavam cheios e se apresentavam, entre outros, Luiz Carlos da Vila e Beth Carvalho. Nascido em 1977, o cantor se recorda de, aos nove ou dez anos, interromper o futebol e outros jogos para assistir aos mestres tocarem.

“O samba tem um lugar de brincadeira e aconchego no meu imaginário. Às vezes, eu e meus amigos pegávamos baldes e latinhas e nos divertíamos fazendo sambas. Acesso um espaço de manutenção de minha vontade e desejo nesse retorno, é um lugar onde renovo energias”.

O lançamento retoma um plano de 2005, quando Rodrigo tentou, sem sucesso, produzir seu primeiro disco solo. No período, ele integrava uma banda que misturava MPB com samba, chamada Urbanda, que editou um álbum homônimo em 2003. As composições que guardara para o próprio álbum eram sobretudo sambas. Ao ir para o estúdio desacompanhado, contudo, logo notou que o resultado não o agradava. “E eu não sabia o que fazer para melhorar”, sublinha.

A solução que o artista encontrou para este dilema no período foi produzir o primeiro disco com os serviços de Beto Villares, produtor que conheceu ao compor para o primeiro disco de Céu, de 2005. Quando finalmente a dupla foi para o estúdio em 2009, todavia, várias faixas já tinham sido descartadas, e o caminho seguido foi mais heterodoxo. 

A situação começou a mudar há cerca de dois anos, em shows ao lado do companheiro de Passo Torto Marcelo Cabral. Nas apresentações só com voz, violão, guitarra e baixo, Rodrigo começou a inserir o que ele define como “sambas canônicos” no repertório, para testar como soavam. 

Até por receio de uma autocobrança e de não conseguir extrair frescor dos modelos tradicionais, ele diz, a ideia sempre lhe parecera temerosa. A experiência das músicas introduzidas aos poucos, entretanto, agradou, o que lhe deu vontade de retomar o projeto antigo de produzir o próprio álbum, o que acabou se concretizando.

Um de seus interesses ao voltar para o estilo que conheceu ainda pequeno é o que Rodrigo Campos define como a “irreverência metafísica dos sambistas”. Há nas grandes composições do gênero, ele explica, uma “filosofia simples e contemplativa”. Segundo o músico, em versos como “A sorrir/ Eu pretendo levar a vida”, de Cartola, ou “Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar”, de Paulinho da Viola, há uma “procura por um sentido mais profundo da existência”.

“Só que isso se dá de maneira despretensiosa, acessível e compreensível. É o cara que está no boteco trocando ideias, ao contrário do grande filósofo. Essa falta de profundidade cria um acesso direto e popular. É uma coisa gostosa, de ‘insight’, sem petulância. Um pensamento que não vem tanto da cabeça ou do conceito. Donga falava que o samba é como um passarinho: ele passa e você precisa pegá-lo. Tento emular isso”.

Nas letras de “Nove sambas”, isso aparece, por exemplo em “Joguei o jogo”, do estribilho “Joguei o jogo natural/ sempre igual”, que o próprio compositor reconhece como metáfora para a existência cotidiana, repetitiva e singela. Em “Batida espiral”, por sua vez, o tema clássico da flor é reatualizado, dando espaço para outros tipos de beleza, como a “banida flor de laranjeira” e a também perfumada “flor de britadeira”. Já “Chorei comprido”, com “Sambei, sambei, sambei”, de acordo com Rodrigo, mais uma vez evoca o Mito de Sísifo e aborda a repetição dos dias.

Em termos musicais, os contrapontos e retorcimentos dos álbuns anteriores cedem espaço a melodias e harmonias mais soltas e exuberantes.  Neles, a composição, conta, já vinha acompanhada de uma negação. “Escrevia um riff e logo dava mais atenção a ele do que a levada do samba. Ou, então, sobrepunha as harmonias até confundi-las, ou embaralhava os ritmos”.

Para ainda obter novidade dos moldes clássicos, o compositor preferiu desta vez variar na instrumentação e nos arranjos. “Em ‘Chorei comprido’, por exemplo, a música começa com violão, repique de anel e voz. Em seguida, na segunda estrofe, a instrumentação muda. Quando retorna para o refrão, entram metais, a bateria e mais ruídos. Se você pegar a produção de um samba mais tradicional, isso não acontece. Ele começa de um modo e segue até o fim. São sutilezas que podem trazer respiro, maneiras de mexer por dentro”. 

Outras dessas inovações delicadas podem ser percebidas nos sons agudos insistentes que atravessam a melodia de “Bloco das três da tarde”, cuja segunda parte é permeada por pianos elétricos Juno e Rhodes. O compositor diz que, na composição, quis prestigiar os álbuns de pagode dos anos 1980 de Zeca Pagodinho e do Fundo de Quintal. “Esses discos concentram tantos instrumentos que os discos ficam muito agudos”, diz Rodrigo.

Em seu tratamento do samba no novo álbum, o compositor se vê mais próximo do que ninguém de Douglas Germano, também de São Paulo, que, em dois álbuns solo e em composições para outros artistas como Elza Soares, busca renovar o gênero por dentro. Ele ressalta todavia que todos os sambistas são importantes para a manutenção do gênero.

“O sambista, antigamente, era a pessoa que inventava algo: um passo, um instrumento, uma composição. Hoje em dia, também tem o sambista mantenedor da tradição, que zela por aquilo que foi criado. Essa turma sustenta a matéria-prima que será transformada depois”.