Pega, mata e come: confira crítica de 'O animal cordial'

Civilização e barbárie estão representadas em uma noite qualquer, num restaurante de classe média alta em São Paulo. Dois ladrões armados invadem o local no fim do expediente. Em “O animal cordial”, de Gabriela Amaral Almeida, o dono do estabelecimento, o cozinheiro, uma garçonete e três clientes são rendidos e lidam com a situação de forma inesperada. As relações entre patrão e empregados e entre a elite cliente e os assaltantes, dentro de um espaço claustrofóbico, vão revelar a face mais grotesca de cada um, nessa fábula dark da divisão de classes.

O personagem central, Inácio, o dono da casa, é um homem pacato, preocupado com a qualidade do serviço que presta, mas na defesa do seu espaço, a personalidade cordial que aparenta, sofrerá mutação diante da situação-limite. O mesmo se revela na garçonete prestativa. O cozinheiro, dentro do caos, vai fazer sua revolução contra a exploração. No grotesco e no ambiente, o filme remete ao memorável “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”, de Peter Greenaway, mas segue caminho autoral.

A violência gráfica construída pela diretora se completa no roteiro, escrito por ela, de diálogos por vezes curtos e impactantes. Todo o elenco está afinado. Destaque para Irandhir Santos, como o cozinheiro transgressor, e Luciana Paes, a garçonete submissa. Murilo Benício comanda o show, na melhor atuação da carreira dele. Em frente a um espelho quebrado, ele revela as facetas do animal cordial.

*Jornalista e membro da ACCRJ

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O ANIMAL CORDIAL: *** (Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom

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