Depois de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1954, Ernest Hemingway não tinha mais a mesma sede da juventude para publicar tudo o que escrevia. Isso não significa, contudo, que tenha parado de escrever. Em 1956, ele fez cinco novos contos, a maioria deles passada durante a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto um desses contos, “Burro preto na encruzilhada”, acabou por ser impresso (editada em “Contos 3”, Bertrand Brasil, R$ 68), os outros nunca chegaram lá. Agora, a revista literária britânica The Strand anunciou que publicará mais uma dessas histórias, chamada “Um quarto ao lado do jardim” (“A room on the garden side”).
A nova história e as obras inéditas não estavam perdidas ou era desconhecidas. Segundo o jornal inglês The Guardian, elas estavam guardadas junto a outros trabalhos de Hemingway na Biblioteca e no Museu Presidencial John F. Kennedy, em Boston, e foram lidas e discutidas por estudiosos ao longo dos anos.
Ano passado, o editor-chefe da The Strand, Andrew F. Gulli, que publica ficção contemporânea – além de obras literárias inéditas de nomes como Mark Twain, HG Wells, Raymond Chandler e outros – pediu permissão aos responsáveis pelo espólio de Hemingway para publicar uma das histórias, e eles concordaram.
A história remete a outras do autor americano, abordando a capital francesa, os anos de guerra a discussões embebidas por vinho. A história acontece no hotel Ritz de Paris, adorado pelo escritor, e é narrada por um personagem chamado Robert.
Da mesma forma que Ernest Hemingway, ele tem o apelido de “Papa”, o gosto pelo champanhe e a tendência a reflexões literárias, o que sugere um fundo autobiográfico. Ele e seus companheiros soldados, que deixarão Paris no dia seguinte, bebem, citam Baudelaire e discutem “o negócio sujo da guerra”.
Esta não é a primeira publicação póstuma da obra de Hemingway. Na verdade, a publicação de obras do autor tornou-se uma espécie de pequena indústria desde a morte do escritor em 1961. Três anos depois, em 1964, foi publicado “Paris é uma festa”, suas memórias da Paris dos anos 1920.
Depois, vieram os romances “Ilhas na corrente”, em 1970, “Jardim do Éden”, em 1986, e outros.
“Seria fácil criar uma pequena coleção de obras inéditas e vender uma tonelada de cópias, mas elas tiveram tanto sucesso com a marca Hemingway ao saberem quando e como publicar essas joias”, conta Gulli ao New York Times.
Hemingway, que trabalhou como correspondente associado da agência precursora da CIA durante a guerra, gostava de dizer que ele “libertou” o bar do Ritz quando as tropas aliadas retomaram Paris.
“A história contém todos os elementos da marca registrada que os leitores adoram em Hemingway. A guerra é central, é claro, mas também são a ética da escrita e a preocupação de que a fama literária corrompe o compromisso de um autor com a verdade ”, escreveu Kirk Curnutt, membro da diretoria da Hemingway Society, em um comentário publicado na The Strand.
Ainda não há notícias se os demais contos inéditos do escritor americano serão publicados.