‘Cabras de merda’ aborda a ditadura Pinochet através da luta de personagens da favela

FORTALEZA -“Este filme não é político, é criminal”. Assim o diretor Gonzalo Justiniano define seu longa “Cabras de merda”, exibido na segunda noite do Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema. Ambientado nos anos 1980, quando a ditadura do general Pinochet ainda era forte no Chile, o filme mostra moradores humildes de uma favela que agiam clandestinamente contra o regime militar e como um missionário americano acabou se envolvendo na luta.

“Eu saí do país em 1976 e fui para a França estudar cinema. Voltei em 1983, quando tinha 28 anos, para fazer um documentário para uma TV francesa, só que na época mataram um missionário e meu material foi todo apreendido. Sorte que eu havia feito cópia de pelo menos duas horas e essa parte se salvou, ficando arquivada no Museu da Memória e dos Direitos Humanos”, conta Gonzalo. Foi a partir desse material que ele se baseou para fazer seu 10º longa, que teve boa recepção do público quando estreou no Chile, apesar de ser rotulado como anti-comercial.   

Quando foi ao Museu da Memória pesquisar seu próprio material, Gonzalo diz que ficou surpreso em reviver aquilo tudo. “Foi um reencontro com parte de minha vida e, em especial, ver de novo algumas daquelas pessoas que conheci na época”, conta, referindo-se a moradores da favela La Vitória, a primeira ocupação, nos anos 1960, de Santiago. 

O diretor ressalta a importância de se preservar a memória numa época em que todos parecem querer esquecer a História. “Há essa tendência de se valorizar mais os filmes de amor, de comédia... Chegam a me questionar por que eu fiz esse filme ou pior, por que só se faz filmes sob um ponto de vista e não pelo lado dos militares. Eu digo: ‘Façam vocês’! A ditadura não foi algo espontâneo, foi imposta”, diz. 

No desafio de contar uma história que todos já conheciam, Gonzalo diz que optou buscar algo que aproximasse o espectador pela sensibilidade. “De que adiantava falar que Pinochet era mau? Isso todos sabem. Eu quis mostrar como era viver sob a ditadura, tratando os personagens de forma minimalista, e ir também além das cenas, buscar algo ao redor, gestos, situações não explícitas”, explica. Um dos personagens que se destacam na história é o do menino Vladi, filho de um perseguido do governo, criado pela jovem Gladys e demais mulheres da famílias e que cria uma amizade com o missionário Samuel. “O Elias (Collado) foi um presente. Quando anunciei no local que ia fazer um filme, ele logo levantou a mãozinha e disse que queria atuar. Às vezes, seus improvisos ficavam bem melhores que o roteiro”, elogia o pequeno ator.

Na luta por um equilíbrio na hora da edição - “A montadora do filme pedia para disistir a cada três dias”, conta -, pois eram muitos momentos de emoção, Gonzalo preferiu mostrar cenas de tortura, segundo ele, “leves”. “Aqueles afogamentos no balde d´água eram apenas a antessala da tortura. Sei que seria contraproducente, dentro da narração do filme, mostrar algo mais explícito, pois acabaria causando terror no público, o afastando”, justifica. 

Sobre a onda de conservadorismo que vem tomando conta da sociedade, o diretor comenta que, no Chile, há grupos que defendem a ditadura e que sua geração ainda tem muito medo. E que fica apreensivo quando vê atitudes dos governos do Brasil e Argentina, por exemplo, dando poderes aos militares,  autorizando intervenções e colocando-os para patrulhar as ruas. “A História é cíclica, então, precisamos estar sempre alertas pois o poder econômico sabe se defender muito bem”, pondera.

*A repórter viajou a convite do festival