Sean Penn: proscrito na telona, bem-vindo na TV

Sean Penn vai ficar devendo um muito obrigado à Rede Telecine: nesta segunda-feira, às 22h, em seu canal Premium, a emissora carioca vai projetar, sob o título de “A última fronteira”,  longa-metragem dirigido pelo oscarizado astro de “Milk – A voz da igualdade” (2008), que o planisfério cinéfilo em peso rejeitou. É difícil imaginar que um somatório de grifes tão forte quanto a junção de Penn (no posto de diretor), Charlize Theron e Javier Bardem pudesse resultar num filme que o circuito exibidor repudiasse. Porém “The last face” (título original da produção), um drama sobre médicos, é a prova de que, na indústria cinematográfica, o improvável pode se tornar possível. Vaiado em sua projeção no Festival de Cannes 2016, em disputa pela Palma de Ouro, o longa-metragem foi condenado ao esquecimento, uma vez que sua estreia foi vetada em diversos países – incluindo o Brasil - sob a suspeita de se tratar de uma bomba. Passa longe – muito longe, aliás – disso, tendo sido rejeitado mais por seu tom meloso, no retrato de um a paixão em meio aos campos de batalha da África. A prova pode ser tirada amanhã, em sua passagem pela TV. No dia 25, às 16h20, haverá mais uma exibição.

 “Fui atrás da realidade nas zonas de guerra da África, filmando com uma multidão de pessoas como figurantes para retratar aquilo que a gente viu em campo: uma multidão de gente com problemas diante dos horrores da violência”, disse Penn ao JB ao fim da exibição de “A última fronteira” em Cannes. “Filmamos na Cidade do Cabo buscando eliminar qualquer traço épico dos médicos: são pessoas normais, sujeitas a falhas, a dúvidas”. 

Em seu quinto longa-metragem como realizador, Penn, que já dirigiu cults como “Acerto final” (1995) e “Na natureza selvagem” (2007), narra o romance entre dois voluntários dos Médicos Sem Fronteiras em um ambiente de aspereza: os doutores Wren (Charlize) e Miguel (Bardem). O roteiro é pautado por um debate sobre o bem-estar dos refugiados da África, que se mistura  à love story entre Wren e Miguel na Libéria, em meio a um sangrento conflito. Em Cannes, houve um ataque violento à analogia (incompatível), proposta por Penn, entre os efeitos da guerra e as dores do amor. 

“Existe uma devoção ao outro, ao bem-estar do indivíduo, no empenho dos médicos que vão para campos de batalha. Nosso empenho, sob a direção de Penn, foi o de ressaltar o altruísmo sem proselitismo”, disse Bardem.  Hoje envolvido em projetos como o drama de época “The professor and the madman (no qual atua ao lado de Mel Gibson) e a série de TV “The First”, Penn dirigiu o elenco principal de “A última fronteira” buscando desmitificar ideais de heroísmo do cinema. “Ser médico é questão de humanismo e não de glória pessoal”, disse Charlize, então namorada de Penn. “Temos um filme romântico aqui, mas, ao largo dele, temos um debate sobre o papel político do assistencialismo”.