Reuniões, novos projetos e até grupo no Facebook resgatam o legado dos anos 1990 na cena underground

Página deixada quase em branco na história oficial do pop/rock brasileiro, apesar de intensa atividade, o underground dos anos 1990 se renova e retoma sua memória. E da mesma forma que fazia há 20 e poucos anos: pelas próprias mãos, em iniciativas independentes que vão de documentários a um grupo no Facebook em que os participantes postam lembranças da época, como fitas demo e cartazes de shows, e divulgam novos trabalhos tanto de antigas bandas da cena quanto de projetos atuais de seus antigos integrantes. 

Essa foi a principal ideia de Vital Cavalcanti, 45, ao criar a página e, depois, o grupo 90Under no Facebook. “O  saudosismo faz parte, mas nunca foi o principal. Tanto que nunca me prendi aos 1990, já estou na quinta banda”, conta o vocalista, que começou com o rapcore do Poindexter antes de passar por Jason (hardcore) e Jimi James (mais pop), entre outras. “A ideia é achar essa rapaziada na faixa de 35 a 50 anos, preservar a memória compartilhando material e ver o que estão fazendo”, afirma o músico, que já tem mais de 3 mil membros no grupo do Facebook, entre eles integrantes de bandas tão diferentes, como Beach Lizards e Sex Noise, Cordel Elétrico e De Falla (dos anos 1980, mas seguiu que pela década seguinte, na qual foi mais cultuada). Também tem quem passou por várias bandas, como o cantor e guitarrista Gabriel Th omaz – líder dos Autoramas e ex-Little Quail – e o baterista Bacalhau, que também passou pelo Autoramas, depois de tocar no Planet Hemp.

 “Usuário” (1995), estreia do Planet venceu, aliás, a enquete do 90Under para melhor álbum daquela década, seguido pelo primeiro dos Raimundos (1994), mas entre poucos medalhões, o Top 15 teve discos de Cabeça, Low Dream, Catalépticos, OZ e DFC. Logo acima do quarto colocado, “Da lama ao caos”, de Chico Science e Nação Zumbi, a medalha de bronze ficou com “You” (1992), do Second Come, banda carioca das mais cultuadas em uma vertente dessa cena independente: de bandas inspiradas nas guitarras distorcidas de grupos britânicos como Ride e Spaceman 3 e que cantavam em inglês. Em 2016, foi uma das quatro incluídas no documentário “Time Will Burn”, que abordou especificamente essa subcena, mostrando ainda três grupos paulistas: Killing Chainsaw, Mickey Junkies e Pin Ups – cujo disco de estreia empresta o nome ao filme. Após a morte do vocalista fundador Fábio, em 2009, o Second Come se reuniu para shows esporádicos, com vocal a cargo do baixista Francisco Kraus. Ele afirma que a apresentação do próximo sábado, no Aparelho, na Praça Tiradentes, será a última. 

Outros documentários abordam bandas específicas, como “Desagradável” (2013), sobre o Gangrena Gasosa e seu saravá metal, e “Quem é mais idiota do que eu?” (2016), sobre o Zumbi do Mato, que, sem guitarra, fundia letras nonsense e instrumental idem. Tamanha chutação de balde é assumida como um dos fatores que manteve o undeground… no underground. Ainda havia quem fizesse striptease no palco, como Piu-Piu e Sua Banda; ou se vestisse como personagens de seriados infantis, como Chatos e Chatolins. 

“Acho que o principal foram as propostas musicais”, admite Vital, sobre o motivo de a cena não ter estourado como as da década anterior. “Era muito anárquico. Barulhento, letras bizarras, músicas fora da fórmula estrofe/refrão de dois minutos. A minha geração queria ser um contraponto ao pop rock oitentista”, relata, antes de ressaltar a variedade criativa.

 “Foi uma tremenda efervescência cultural. Tinha muitas cenas. Metal, indie, mistureba, hardcore… Mas todo mundo tocava junto [principalmente no Garage, na Praça da Bandeira,]. A liberdade estética custou um preço para a geração”, avalia o criador do 90Under, no que pese a década também ter legado do melodioso Los Hermanos ao esporrento Matanza – que também anuncia sua despedida dos palcos cariocas para o próximo sábado, no Circo Voador. Não é à toa, ainda, que músicas como “Lugar do caralho”, de Júpiter Maçã, sejam conhecidas até hoje, mesmo sem tocar em rádio. 

Hoje, no auditório bem menor da Audio Rebel, tocam uma banda que chegou perto de quase estourar e um músico que acabou estourando, até pela quantidade de bandas com os quais tocou. Baixista do Autoramas, Carbona, Hill Valleys e de mais outras 50 bandas e artistas os quais acompanhou, Melvin Ribeiro abre o show com Os Inoxidáveis, primeira banda em que atua como vocalista principal, além de tocar guitarra. Quem encabeça a noite são os Djangos, comemorando os 20 anos de “Raiva contra o oba-oba”, produzido pelo baterista João Barone, dos Paralamas, e lançado em um show para milhares de pessoas, no Arpoador, em 1998. 

Na época, houve “apoio de uma grande gravadora e de uma rádio FM que tinha um perfil mais rockeiro”, lembra o cantor e guitarrista Marco Homobono, referindo-se à Rádio Cidade e à Warner – gravadora que acabou não prosseguindo com a banda. 

Nessa mesma linha, Melvin acrescenta: “Como a gente tinha um canal de TV (a MTV) que sabia muito o que estava rolando, e o CD era algo que todo mundo queria e estava mais barato para produzir, por alguns anos a matemática esteve também a favor dessa galera. Você conseguia espaço na mídia e tinha um público ávido por shows e discos”, afirma, lamentando que “o Rio perdeu o meio termo. Para onde ir depois de lotar a Rebel e antes de poder encarar o Circo Voador?”. 

Nada que barre a vontade e o prazer de tocar, como Marco ressalta. “No ano passado, eu toquei com meu projeto solo num evento onde o baterista dos Djangos, JJ Aquino, tocou com  a banda Dellacorde. Pedi para ele deixar a bateria montada e que tocasse comigo no fim do meu set. Carlyle Diniz, nosso baixista, estava na plateia e subiu meio surpreso quando chamamos para tocarmos duas músicas juntos. A química nessa hora violentamente explodiu”, celebra.

Serviço 

DJANGOS / MELVIN & OS INOXIDÁVEIS AUDIO REBEL. Rua Visconde da Silva, 55, Botafogo. Tel.: 3435-2692. Hoje, a partir de 18h. Ingressos: R$ 30. Capacidade: 90 lugares.