Nem no porta-retrato: confira crítica da peça 'Vianinha conta o último combate do homem comum'

As pessoas vivem conflitos ao longo da vida. Costumamos até dizer que família, nosso chão, nossa raiz, só no porta- -retrato. Oduvaldo Viana Filho - Vianinha, carioca, um dos maiores dramaturgos brasileiros, viveu durante a sua curta trajetória - faleceu aos 38 anos - uma grande dicotomia. Comunista, um ser visceralmente político e voltado às causas sociais, percebia de forma clara as dificuldades de se sobreviver, de se equilibrar nos perversos mecanismos do capitalismo. Esse é o cerne de sua obra. Esse é o tema de “Vianinha conta o último combate do homem comum”, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues na Caixa Cultural.

A peça, originalmente “Nossa vida em família” ou simplesmente “Em família”, recebe o novo título de Aderbal Freire-Filho, que a dirige, para destacar não o que a trama conta – um casal de idosos perde a casa e tem de ser acomodado pelos filhos que colocam todos os impedimentos para ficarem com os pais - , mas as dificuldades que um homem comum, simples, Souza ( Rogério Freitas) enfrenta para manter seus princípios morais e éticos quando a sociedade, cuja metáfora são os seus próprios filhos, só se preocupa com seus afazeres, seus ganhos, suas pequenas batalhas covardes. 

São nove personagens em cena – Souza e Lu, a mulher (Vera Novello); a filha Cora (Ana Velloso), que mora em São Paulo; Anita (Ana Barroso), casada com o filho Jorge (Isio Ghelman) e pais da adolescente Suzana (Mag Pastori) ; a filha Neli (Beth Lamas), casada com um homem rico; o filho Beto (Paulo Giardini), fracassado; o amigo de Souza. Afonsinho (Gillray Coutinho). Todos se revelam aos poucos nos diálogos de discussão do cotidiano, de como vão fazer para manter os pais, de como levam a sua vida. É um conjunto permanente, em todas as atitudes, de não, não e não. 

A opção por um cenário simples, mesa, objetos domésticos, rodeados por cadeiras reviradas vai ser a base que o diretor Aderbal Freire-Filho encontra para movimentar os personagens com a troca de cadeiras, de lugares, uma dança na qual todos se alternam, mas que não altera nada. Ou na encenação bastante eficiente que é o que se chama em cinema de montagem alternada. Duas ações que acontecem ao mesmo tempo em locais diferentes. Como a mãe mora com o filho Jorge e o pai com a filha Cora, fica claro que os problemas são os mesmos, porque os diálogos têm exatamente o mesmo significado. 

A essência do texto e das grandes características de Vianinha está na composição de Jorge, um herói totalmente representativo da obra do autor, e em um clown, interpretado por Kadu Garcia que funciona como mestre de cerimônia dos principais impasses. A interpretação de Isio/Jorge, apoiada pelo elenco integrado na boa atuação, traz com excelente resultado todas as nuances do personagem: um homem que tenta subir à superfície, que procura trazer o melhor financeiro à sua família, cuidar da mãe sem se deixar levar pelas ciladas de caráter que o sistema capitalista impõe. Vencedor, temeroso, corajoso, derrotado, Jorge é o homem comum que busca incessantemente vocalizar o que sente. 

Aqui também, pois o texto é repleto de um humor ácido e crítico, está o embrião do sucesso de “A grande família”. O sogro que mora com a filha, o chefe da casa honesto/ filho/herói, a filha com olhos só para o marido e o filho desastroso fazem o mesmo retrato que vemos em Vianinha conta o último combate do homem comum. O desastre do relacionamento não é causado pelos embates da interioridade dos personagens, por suas diferenças afetivas, mas por aquilo que o mundo externo impõe. A crueldade e a injustiça do modelo social é que leva ao afastamento até do porta-retrato. 

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Serviço 

VIANINHA CONTA O ÚLTIMO COMBATE DO HOMEM COMUM Teatro da Caixa Nelson Rodrigues (Av. República do Chile, 230 – Centro; Tel.: 3509-9600/ 3980-3815; De sex. a dom., às 19h; Ingressos a R$ 30 e R$ 40 (inteira, balcão e plateia). Clientes Caixa pagam meia-entrada. Duração: 2h 120 MINUTOS) Classificação: 14 anos Capacidade: 400 lugares e oito para cadeirantes. Acesso para pessoas com deficiência

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* Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras.