Anima Mundi: produções premiadas elevam o prestígio da seleção de longas do festival

Produzido pela atriz Angelina Jolie e indicado ao Oscar em fevereiro, “The breawinner”, versão da cineasta irlandesa Nora Towmey para o best-seller homônimo de Deborah Ellis, encantou a Europa, há um mês, em sua passagem pelo Festival de Annecy, cidade nos Alpes Franceses que sedia o maior encontro da indústria de animação do planeta. Este drama sobre uma afegã que se veste de homem para poder trabalhar saiu de lá com o Prêmio Especial do Júri. O que brilha em Annecy, em matéria de longa-metragem, tem um destino certo no Brasil: o Anima Mundi, cuja edição deste ano começa no Rio de Janeiro amanhã, ficando por aqui até 29 de julho. Na sequência, a maior maratona animada das Américas vai para São Paulo, onde fica de 1º a 5 de agosto. E este ano, o filme de Nora, aqui traduzido como “A ganha-pão”, é apenas uma provinha do quão vitaminada veio a seleção de longas do evento, que, em solo carioca, vai ocupar o Cine Odeon, o Centro Cultural Justiça Federal, o Centro Cultural dos Correios, a Praça dos Correios, a Casa França Brasil e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). 

“É uma cruzada pessoal minha mostrar que a animação para adultos é uma promessa para o futuro do setor, vide o fato de a Palma de Ouro de documentários de Cannes, o troféu L’Oeil d’Or, ter ido para uma animação sobre a Faixa de Gaza, ‘Samouni Road’. Em breve, essa tendência estética de se usar a linguagem animada para temas adultos, será uma realidade comercial, como já começa a ser entre os docs”, reflete César Coelho, um dos diretores do Anima Mundi, que trouxe para seu menu de longas o documentário canadense “Wall”, de Cam Christiansen. “É um filme político sobre o muro que separa israelenses e palestinos. Anos atrás, no mercado da animação, só curtas abordavam temas polêmicos como esse. Hoje, isso mudou”. 

Tem dois brasileiros no pacote de longas, “As aventuras de Fujiwara Manchester”, de Alê Camargo, e “Tito e os pássaros”, fantasia dirigida a seis mãos por Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto, que teve uma invejável campanha promocional em Cannes, em maio. “O filme do Alê é uma atração para jovens adultos, meio ‘Johnny Quest’, meio Marvel”, diz Coelho, que escalou para o dia 25, às 20h, no Odeon, um debate sobre “Ilha de Cachorros”, distopia coroada com o Urso de Prata na Berlinale, em fevereiro. “O filme de Wes, um trabalho de autor, é parte dessa movimentação para trazer um colorido adulto para a animação que entra em circuito”. 

Completam o painel de longas três filmes mais adequados a plateias infantis: “El angel en el reloj”, de Miguel Angel Uriegas (México); Ploey: “You never fly alone, Ploey”, de Arni Olafur Asgeirsson (Islândia/ Bélgica); e “The Snow Queen 3: Fire and ice”, de Alexey Tsitsilin (Rússia). “São produções essenciais para a formação de novas plateias”, diz Coelho. 

Nem só de longas vive o Anima Mundi. Um dos diretores mais queridos do evento, Bill Plympton, papa da animação indie dos EUA, vai ter um média-metragem de 30 minutos, em exibição de gala: “Modern lives” é uma coletânea de músicas de Jackie Greene que, juntas, formam uma crônica da vida americana. Selo de prestígio no uso do stop motion, o Aardman Studios, do Reino Unido, vai enviar um de seus mais anárquicos realizadores, Peter Peake, para o festival, para exibir e comentar cults como “Pib and Pog” (1995). Um dos animadores da franquia “Wallace & Gromit”, ele vai esmiuçar suas escolhas estéticas num debate sobre como é trabalhar com massinha de modelar. Seu filme mais famoso é a comédia “Take rabbit”. Todo ano o Anima Mundi escolhe um país para homenagear: a Espanha é a bola da vez. O foco espanhol trará curtas como “Ryoko”, de Emilio e Jesus Gallego. 

Há 106 curtas brasileiros inéditos no Anima Mundi, que prestará uma homenagem a um jovem talento de Goiás: Wesley Rodrigues, diretor do cult “Faroeste: Um autêntico western”. No menu de iguarias do Brasil deste Anima Mundi destacam-se filmes como “Gravidade”, de Amir Admoni; “Twerking”, de Kawe Sá e Rafael Vallaperde, e “Guaxuma”, de Nara Normande. No dia 28 de julho, o festival promoverá um bate-papo entre seu público e o cineasta carioca Carlos Saldanha, um dos criadores da franquia “A Era do Gelo”. Ele sobe ao palco do Cine Odeon-Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, às 16h, para conversar com o público sobre o processo de criação de “O Touro Ferdinando”, pelo qual concorreu ao Oscar. 

*Roteirista e presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ)