Carlos Eduardo Novaes lança livro sobre cachorros mimados e livres

Há quem conceda todo tipo de mimo aos cães. Promova festinhas de aniversário com direito a bolos e chapéus de papelão, costure vestidos de crochê, passe perfume, leve ao spa, carregue no carrinho de bebê.  Essas atitudes inquietam e espantam o jornalista, dramaturgo, escritor e clássico cronista do JORNAL DO BRASIL Carlos Eduardo Novaes, que lança hoje, às 19h, na Fiorentina, o romance “Memórias de um cão sem dono” (Chiado, R$ 34), dedicado ao tema. 

O enredo, narrado em primeira pessoa, conta a história de Bono, vira-lata de três patas, sagaz e adepto incorruptível da liberdade. Para ter a boia garantida, ele aceita ser adotado por uma madame solitária, onde conhece Pierre, bulldog francês superprotegido e estragado. O novo colega leva Bono a uma reflexão sobre as naturezas humana e animal, que o leva a concluir que  há milênios os humanos tentam imprimir os próprios comportamentos aos supostos “melhores amigos”. 

A revelação leva o canídeo, agora consciente de sua constituição selvagem, a se juntar a um grupo revolucionário de libertação animal, que deseja que os cachorros voltem a ser indóceis e rapaces como os lobos. Assim como acontece na vida real, no entanto, a reação pode ser forte. 

O autor conta que quis escrever sobre cachorros porque “o processo de humanização” o “incomoda um pouco”. Novaes diz que a vida caprichosa que certos donos impõem a seus canídeos talvez venha de desgosto com os iguais humanos. 

Cita o antigo ditado, mencionado pela primeira vez pelo escritor francês Alphonse Toussenel, em 1847: “Quanto mais eu conheço os homens, mais gosto dos cachorros”: “Talvez seja essa desilusão que conduza algumas pessoas a uma relação tão passional com os cães”, diz Novaes. 

Este é o 44º livro de Novaes, de 77 anos. Ele começou a carreira jornalística na extinta “Última Hora”, de Samuel Wainer. Em 1972, passou para a Editoria de Esportes do JORNAL DO BRASIL, publicação onde trabalhou por 17 anos e que o levou à crônica. Depois de três anos, Novaes passou a escrever para o Caderno B, onde alternava as crônicas com nomes como José Carlos Oliveira e Carlos Drummond de Andrade. Ele também é autor de teatro (“Confidências de um espermatozóide careca”) e de TV (“Chega mais”, novela da Globo), foi ainda secretário de Cultura do Rio de Janeiro e presidente da Sociedade Brasileira dos Autores. 

O autor tem cachorros há mais de três décadas. Começou com um boxer, em Petrópolis, que fugiu. Hoje em dia tem quatro pastores alemães na casa em Nova Friburgo. Os animais, garante, têm a animalidade respeitada. “Meus cachorros não entram em casa. Só os alimento com ração, não os chamo de ‘filho’ ou digo que ‘papai’ adorou algo que fizeram. Alguns humanos usam uma linguagem quase paternal para falar com os bichos”, afirma. 

A principal dificuldade, ele diz, foi fazer uma “história com cães em que eles ‘não falassem português’”. Na solução encontrada, os quadrúpedes compreendem tudo o que dizem os bípedes, mas conversam na própria língua. “Não sabia como contar essa história. Se os dois falassem português, a história seria encaminhada de outra maneira. Tive de procurar outra forma para que ela fluísse, dentro de uma lógica razoável na ficção”, explica. 

Em relação à insurreição canídea, ele conta que se inspirou vagamente na Revolução Cubana — não à toa, o líder dos revolucionários se chama Tchê. “No livro, os cachorros que vivem em liberdade querem que os outros cachorros também vivam. O livro tem como pano de fundo a liberdade. A ideia da revolução é provocar o retorno dos cães à vida original, quando moravam no mato e não eram submetidos aos humanos”. 

Como método de pesquisa, Novaes diz que não recorreu à volumosa produção que aborda a relação entre homens e animais na academia e nas arte, recente (“A vida dos animais”, de J. M. Coetzee, ou “Opisanie Swiata”, de Verônica Stigger) ou antiga (como diversos textos de Kafka ou de Guimarães Rosa). Sua inspiração, veio “da observação de experiências suas, de amigos e de parentes. É fruto da observação de 30 anos de convivência com cachorros”. 

Este é o terceiro livro de Novaes que tem um animal como protagonista. Na década de 1970, publicou “Candido Urbano Urubu” (Nórdica, 2003). Em seguida ,foi a vez de “Casé, o jacaré que anda em pé” (Ática, 1993), uma novela ecológica  que se passa no Pantanal.

Serviço

 ‘MEMÓRIAS DE UM CÃO SEM DONO’, de Carlos Eduardo Novaes. Editora Chiado, 109 páginas. R$ 34. Lançamento hoje, às 19h, no La Fiorentina (Av. Atlântica, 458A - Leme. Tel.: 2543-8395)