Cores irradiam vida popular: mostra na Gávea traz obras inéditas de Djanira

Primeira artista latino-americana a ter obras expostas no Museu do Vaticano, Djanira da Motta e Silva (1914-1979) tem pinturas inéditas em exposição que ficará em cartaz até o dia 11 de agosto na Gávea. 

A mostra, com 20 desenhos e telas pintadas a óleo, está na galeria Evandro Carneiro Arte, no shopping Gávea Trade Center, com um panorama da pintora nascida em Avaré, no interior de São Paulo, e que viveu em outras cidades paulistas e em Santa Catarina, antes de fixar residência no Rio de Janeiro, onde passou a viver no bairro de Santa Teresa. 

Foi nas ladeiras do morro que Djanira conheceu o casal de pintores Árpád Szenes  (1897-1985) e Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), um húngaro e uma portuguesa radicados no Rio, além de outros artistas que viviam no bairro, como MiltonDacosta (19151988) e Carlos Scliar (1920-2001), além de frequentar o curso de Desenho do Liceu de Artes e Ofícios. 

Foi também em Santa Teresa, na década de 1950, que Djanira conheceu Rachel Trompowsky Taulois da Motta e Silva, vizinha da Vila Santa Cecília e que se tornou sua grande amiga. Rachel herdou parte do acervo pessoal de Djanira, inclusive os quadros em exposição da galeria Evandro Carneiro. 

Animais domésticos que a pintora costumava criar na vila com seu companheiro, o historiador baiano José Shaw da Motta e Silva, fazem parte do universo de sua arte. Assim como os barcos que remetem à Marinha Mercante, na qual trabalhava seu primeiro marido, o maquinista Bartolomeu Gomes Pereira, que morreu quando seu navio foi torpedeado durante a Segunda Guerra Mundial. 

A convivência de Djanira com o universo artístico de Santa Teresa se adiciona a experiências como a viagem que a pintora fez, em 1945, onde viveu por mais dois anos, até 1947, e conheceu a obra quadricentenária do belga Pieter Bruegel (1525-1569), além de entrar em contato com os trabalhos de pintores contemporâneos como o catalão Joan Miró (1893-1983) e o russo-francês Marc Chagall (1887-1985). 

Em 1954, após outra viagem, para a União Soviética, Djanira tornou-se uma das líderes do movimento Salão Preto e Branco, um protesto de artistas contra os preços dos materiais para pintura no Brasil, que eram considerados muito caros. 

Em 1963, perto de onde morava, em Santa Teresa, ela pintou o painel de azulejos Santa Bárbara, com extensão de 160 m2, no túnel de mesmo nome ligando os bairros de Catumbi e Laranjeiras. 

Além dos temas da vida popular, em especial do interior do Brasil, a religião sempre foi outro aspecto muito presente na arte de Djanira, desde os 23 anos de idade, quando fez seu primeiro desenho, de Jesus Cristo no calvário, enquanto estava internada no sanatório Dória, em São José dos Campos (SP). Sua mudança para Santa Teresa ocorreu  exatamente devido ao ar mais puro do bairro. 

Em 1972, recebeu do Vaticano a Medalha e Diploma da Cruz Pro Ecclesia et Pontifice, entregue pelo papa Paulo VI. Para o Museu do Vaticano, deu de presente a tela “Santana de pé”, pintada por ela apenas com o braço esquerdo, pois havia fraturado a clavícula. 

Sobre a pintora e sua forma de retratar a dinâmica da vida cotidiana, Ferreira Gullar avaliou, em 2000, que “não se pode dizer dela uma pintora naif, como já disseram no passado; ela era uma estudiosa da diversidade geográfica e etnográfica do país, mas também dos tempos: o profano na busca pelo genuinamente popular e o sagrado em motivos religiosos, presentes, sobretudo, no ocaso da vida, quando a saúde já comprometia o seu entusiasmo contagiante. Ela era alegre e densa ao mesmo tempo, dizem os que a conheciam de perto. E isso define sua personalidade de artista intuitiva, para quem a pintura era um modo natural de relacionamento com a vida”. 

O museólogo Mario Barata acrescentou, em 2005, que “não é só o folclore como tema que surge frequentemente na obra da pintora. É a própria irradiação de valores que ela infunde na imagem desse fundo de vida popular, que nunca a deixa”.

Essa relação se ilustras nos desenhos de jangadas, colheitas de aipim e café, trabalhadores carvoeiros e mineiros, seu grande amor Mottinha, animais e anjos – alguns dos temas expostos nas 20 telas em exposição na galeria de arte na Gávea.

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Serviço

DJANIRA. Galeria Evandro Carneiro Arte. (R. Marquês de São Vicente, 124 - Shopping Gávea Trade Center; Tel.: 2227-6894). Até 11/8, de segunda-feira a sábado, das 10h às 19h. Entrada franca.