Literatura: Duas faces de Karl Marx

Boitempo lança livros sobre a juventude e a velhice do autor de ‘O capital’

Em 5 de maio deste ano, Trier, a cidade natal de Karl Marx, inaugurou a estátua de bronze doada pelo governo chinês em comemoração aos 200 anos do nascimento do filósofo alemão. No Brasil, foram vários os debates sobre a atualidade do grande revolucionário. E a Editora Boitempo lançou duas biografias sobre o autor de “O capital”, leitura imprescindível para se entender o modo de produção capitalista. 

A primeira biografia, que vai do nascimento em Trier em 1818 até o fim do doutorado, faz parte de ambicioso projeto do cientista político Michael Heinrich, professor de Economia Política na Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim. “Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna“ terá três volumes. O que saiu agora no Brasil foi o primeiro. Os demais virão em 2020 de 2022. Já a segunda, “O velho Marx”, enfoca os três últimos anos de vida do “Mouro” (1881-1883), apelido utilizado pela família e pelos amigos íntimos. Neste caso, a autoria é de Marcello Mosto, doutor em Filosofia e Política pela Universidade de Nápoles, que vive e dá aulas no Canadá. 

Como é de se esperar, são dois trabalhos bem diferentes, o de Heinrich e o de Mosto. Não só pelo corte cronológico. Heinrich teve como objetivo escrever uma obra totalizante, de caráter científico – evitando a ficção biográfica, apresentando fontes bem discriminadas, vida e obra entrelaçadas e o contexto histórico - enquanto o italiano nos oferece um retrato carinhoso dos últimos sofridos anos do vovô Marx. . 

Em busca da objetividade científica

Quem acha que lerá o Volume I de Michael Heinrich de um fôlego só poderá se decepcionar. A facilidade de leitura não foi a sua principal preocupação. Há biografias, diz ele, que fazem com que o leitor se sinta na pele e na mente do biografado. O cientista político considera a criação deste sentimento uma mentira, já que ninguém sabe o que sente e pensa outra pessoa, ainda mais uma personagem histórica.

Além da famosa Mega – Obras Completas de Marx e Engels 1 e 2 – Michael Heinrich recorreu a várias outras fontes, como correspondências, documentos e outras biografias, entre elas as de John Spargo e Franz Mehring, do início do século XX. Atualmente já existem mais de 30 obras sobre a vida de Marx. Por que mais uma? Porque sempre surgem novas informações, possibilitando um trabalho mais completo. E foi isso o que fez Michael Heinrich: um trabalho minucioso, que objetivou demonstrar que Marx não está morto. O capitalismo se fortaleceu no mundo inteiro e a crítica está vivíssima. 

Além de debates teóricos, o livro de Michael Heinrich oferece muitas informações sobre a vida de Karl Marx que não devem ser conhecidas pela maioria dos leitores. Quando jovem, as grandes influências em sua vida foram o pai, o advogado Heinrich Marx, e o pai de sua noiva, Ludwig von Westphalen, com quem costumava ter longas conversas. O pai se converteu ao cristianismo para poder advogar, sem ter que enfrentar os preconceitos que atingiam os judeus na velha Prússia. 

Quanto a Ludwig, foi a ele que Marx dedicou a dissertação de doutorado. Tanto Heinrich Marx como Ludwig von Westphalen eram pessoas liberais, a favor da Constituição e adeptas do Iluminismo. Ganhavam bem. Enquanto o pai esteve vivo, Marx, que foi um estudante farrista no primeiro ano da faculdade de direito em Bonn, nunca teve problemas de dinheiro. De seus 1.500 táleres anuais, o advogado destinava 700 táleres ao filho estudante. 

No ginásio, para o qual entrou em 1830, Marx teve bons professores com ideias progressistas. No final do curso, porém, ainda acreditava em Deus. Na redação do Abitur (prova final), cujo tema foi “a profissão que queria exercer no futuro”, empregou a palavra divindade quatro vezes. Com relação à profissão, mencionou os sábios e poetas que faziam bem à Humanidade. Esta era, aliás, a sua motivação entre os 16 e 17 anos de idade: ser poeta e contribuir para a prosperidade dos seres humanos.

Encaminhando-se para o ateísmo 

Calcula-se que Marx tenha ficado noivo de Jenny von Westphalen aos 17 anos. Com esta idade partiu para Bonn para estudar Direito. Provavelmente a ideia surgiu porque iriam se separar até Marx terminar os estudos. De início, o noivado foi um segredo. Temiam que não fosse aceito pela família de Jenny, que era mais velha quatro anos. Mas o receio se mostrou infundado, já que Ludwig não fez oposição. Ainda pensando em ser poeta, Marx escreveria vários poemas para a noiva.

Karl Marx socializava-se com facilidade desde o ginásio. Em Bonn tudo indica que tenha participado de um clube literário, no qual declamava versos de Shakespeare. Os estudos não se restringiram ao direito. Também se inscreveu em cursos de Filosofia, História da Arte e Mitologia. Se os tempos passados em Bonn foram de frequência de tabernas e esgrima, com “prisões” na faculdade, na Universidade de Berlim, para a qual se transferiria, abandonaria por completo os maus hábitos. Traduziria “A Germânia” de Tácito e faria resumos de tudo o que lia. Nunca abandonaria esta prática.

Nos primeiros dias de Berlim, a poesia ainda se faria presente, mas de repente os versos foram abandonados. Marx estava entrando em choque com o romantismo e com Deus. Neste momento, o livro de Michael Heinrich descreve um vendaval de ideias que assolou a Prússia a partir de 1830. No centro do furacão das discussões filosóficas e teológicas estava Hegel, que morrera em 1831, mas cujos principais livros de filosofia foram editados por sua mulher. A publicação abalaria os laços indissolúveis entre o Estado e a Igreja Protestante. Foram vários os pensadores que se deixaram influenciar por Hegel, entre eles um grande amigo de Marx, o teólogo e filósofo Bruno Bauer. 

Em sua filosofia da religião, Hegel discute a existência de Deus, ao criar o conceito de “autoconsciência”, que surge através da relação com o outro. Para Hegel, não haveria um Deus personificado. “Religião é a autoconsciência de Deus”, que se manifesta ao se relacionar com o homem. Ou seja, Deus depende do homem, como o homem depende de Deus. Ou como escreveu Michael Heinrich, “Deus e o homem não são dois sujeitos autônomos, que podem ou não entrar numa relação – eles são antes reciprocamente dependentes. O espírito é algo ativo, produtor de relação. A religião não é apenas uma relação do homem finito com Deus, mas também de Deus com o homem”.

Essas considerações geraram uma reviravolta teológica e filosófica. Teólogos e filósofos passaram a discutir os dogmas religiosos, os milagres de Jesus e a imortalidade da alma. Em seu livro “A vida de Jesus”, David Strauss afirmaria que Jesus era um mito e que os relatos dos milagres seriam o resultado de uma lenda surgida na tradição oral. Houve uma divisão entre “velhos hegelistas”, conservadores, e “jovens hegelistas”, de esquerda. Marx poderia ser considerado um jovem hegelista. 

Quase certo é que essas discussões devem estar na raiz da decisão de Marx de escrever uma tese sobre o conceito de átomo em Demócrito e Epicuro. Não só Karl Marx leu a “Lógica” de Hegel, o “panteísta”, como também empregou a noção de autoconsciência. Para Marx, o átomo seria uma metáfora das relações sociais. No tocante à imortalidade da alma, ele recorre à Epicuro para explicá-la: após a morte, aquilo que tem alma regressa à forma atomística. Ou seja, a alma se decomporia em átomos individuais e apenas eles seriam eternos. Do ateísmo, Marx se encaminharia para o materialismo.

Lutador até o último fôlego

“O velho Marx, uma biografia dos seus últimos anos (1881-1883)”, do italiano Marcello Mosto, é uma preciosidade. Com suas 158 páginas muito bem escritas e uma pequena cronologia, constitui um belo tributo ao homem que nunca se rendeu às dificuldades que enfrentou na vida. É tocante saber o quanto Marx era apaixonado pelos netos, o quanto sofreu com as mortes de suas Jennys, mãe e filha, e também o quanto penou com o tratamento da bronquite, que se transformou em séria infecção no pulmão. 

Impressiona, por outro lado, saber que o “Mouro” ou “Old Nick” (velho diabo) manteve o interesse pelos estudos até o fim, fazendo resumos de livros e só parando de estudar quando não tinha condições físicas. Quando estava sem capacidade de trabalho, enchia os cadernos de equações matemáticas ou lia romances. Ah, os livros! Que descrição Paul Lafargue fez da biblioteca de Marx. Eram poucos os livros – cerca de 1.500 – e todos eles muito usados. O escritor predileto? Balzac. 

Que assuntos captaram sua atenção nos últimos anos? Estudou russo. Estava interessado nas comunas agrícolas russas. Leu o livro “A sociedade moderna”, de Lewis Henry Morgan, e outras obras sobre etnologia. Dedicou-se ao estudo de história. E tudo isso às portas da morte, que ocorreria no dia 14 de março de 1883. Não pararia de pensar nos netos. Quem iria ler livros infantis para eles antes de dormirem? 

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SERVIÇO

Serviço “Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna” - Vol.1, de Michael Heinrich, tradução de Claudio Cardinali. Boitempo, 472 págs, a partir de R$ 48,60. 

“O velho Marx”, de Marcello Musto, tradução de Rubens Enderle. Boitempo, 160 págs, a partir de R$30,81.

*Jornalista e escritora