Impávido colosso ao som de rap, samba e funk: clipe feito para a Copa mostra a festa que une morros

Na mitologia grega, o Colosso de Rodes é uma estátua titã-deus do Sol, erguida para comemorar a vitória de Rodes contra o governo macedônio em 305 a.C. No hino do Brasil, é um objeto de tamanho grande, enquanto impávido significa sem medo, destemido, corajoso. Já para o cineasta Raphael Medeiros, o Impávido Colosso é um homem negro, favelado e do candomblé. Dirigido e roteirizado por ele, o videoclipe “Impávido” junta rap, samba e funk com uma pegada africana e um embalo totalmente brasileiro, que se misturam nas vozes de Dughettu, Pretinho da Serrinha e Ramonzin, além de Malía e Qxó. 

Foram apenas 12 dias, entre a primeira conversa de Raphael com o rapper Dughettu até a estreia no Youtube. “Nós sabíamos que teriam poucos conteúdos sendo produzidos para a Copa neste sentido. É tudo muito comercial. E nós queríamos fazer um trabalho artístico para mostrar o Brasil que não passa na propaganda para gringo ver. O clipe de música nos dá essa licença poética para falar sobre alguns símbolos e representatividade”, revelou Raphael. 

Ocupadas por facções rivais do tráfico, as comunidades vizinhas Morro da Serrinha e Morro do Cajueiro, em Madureira, servem de cenário para “Impávido”. O clipe lançado pela Universal Music tem figurino assinado pela stylist Kiara Bianca, que usou as cores da nossa bandeira para os trajes dos artistas. “Tanto eu quanto o Dughettu sabíamos que as comunidades eram de facções diferentes, mas não imaginávamos que existia uma rivalidade tão grande. Ficamos na dúvida de seguir com o plano quando visitamos a locação. Só que essa rivalidade não existe entre os moradores. Aquela galera que joga futebol no início do clipe são das duas comunidades e de outras tantas espalhadas pelo Rio. Acreditamos que a música e o futebol têm o poder da união. E deu certo. Tivemos zero problema”, conta Raphael. 

Quem é o criador? 

Cinema é a arte de fixar e reproduzir imagens que, em movimento, suscitam um novo significado para as coisas. Toda a narrativa das ideias de Raphael gira em torno de uma simbologia. “Este clipe é a ressignificação do Colosso grego. Ele é a minha imagem irreal para provocar um sentimento. Toda a narrativa foi construída a partir disso, em volta disso”, explica Medeiros, que dificilmente dirige algo que não escreveu – e vice-versa.

O artista já assinou videoclipes como “Luz da perdição”, do Filipe Ret e Daniel Shadow; “Made in Madureira”, do Ramonzin; “Alvo”, do Daniel Shadow e MV Bill; e o recentemente lançado “Louco para voltar”, também de Filipe Ret, com mais de 1 milhão de visualizações no Youtube. 

Todos têm um conceito urbano, marca imprescindível do cineasta. “A minha identificação com isso passa por diversos momentos da minha vida. Eu acredito que todos os personagens urbanos, desde o grafiteiro até o skatista e o patinador, têm, por impulso, dar outro sentido ao espaço público”, destaca Raphael, que também é skatista e patinador. Para ele, sua vivência nas ruas tem influência direta e definitiva em todo o seu trabalho como cineasta e criador. “O espaço público tem um debate importante que vem desde o mercado imobiliário construindo bairros inteiros como a Barra [da Tijuca], cercada de condomínios, e fazendo com que não se tenha mais convívio com o que é diverso e está na rua”, completa. 

O skatista, assim como o grafiteiro, pode transformar um banco de praça em obstáculo, ou um muro em tela branca. Estar na rua e viver esse espaço significa olhar o tempo todo diferente para aquilo que quem só passa não vê. “Quem tem a vivência street não está vendo a cidade de uma maneira normal. Você procura espaços para exercer criatividade”, destaca. 

Mas é claro que é mais fácil imaginar um movimento urbano qualquer no Centro do que na Baixada Fluminense. Raphael lembra que o Rio, que vive em uma complexa série de violência e de segregação urbana, não é o ambiente mais seguro. Ele, que veio da favela da ferroviária em São Gonçalo admite que, como skatista, é muito mais fácil driblar os obstáculos do Centro do Rio do que a violência em [Duque de] Caxias ou Madureira. “Mas eu também acho que essa pessoa que vive este caos deva usar isso na construção dele ou dela como personagem desse meio”, pondera. “Por causa do patins, já fui para todos os cantos do Rio”, diz ele, que começou a filmar skatistas aos 14 anos, na Praça XV, no Centro.

Quando dava os primeiros passos na carreira de cineasta, lembra, não tinha dinheiro para comprar câmera. Então, pedia  emprestado. Sequer tinha computador para editar o material, o que não impediu de se tornar um cineasta premiado pelos festivais O Cubo Cinema (2016), o Internacional do Chile - BíoBíoCine (2017) e Ver e Fazer Filmes, de Minas Gerais. “Tudo partia da vontade de fazer. Anos depois, entendi que fazia cinema sem entender, com as próprias mãos”, diz. 

Inspirado em Ruy Guerra, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Raphael foi de aluno a professor no intervalo de um semestre. Aprendeu tudo o que sabe sobre conceito e teoria do cinema através da literatura e bebe das fontes literária e cinematográfica para explicar tudo que a rua ensinou com a prática. 

Seu eterno objetivo é juntar “forma e conteúdo”. Mas não se engana, sabe que teve sorte: “Mesmo com toda a dificuldade que tive, sei que tive sorte para o mercado me absorver. Como eu, tem 20 moleques fazendo um trabalho incrível na Praça XV, mas que não tiveram a mesma chance. Eu sei que faz total diferença ser homem, hétero e branco, porque participo de espaços em que, para o outro, o meu corpo não é estranho”, lembra o cineasta, que defende uma tecnologia democrática, capaz de alcançar todos os seus potenciais usuários. Dessa forma, o cinema pode ir além da simples aquisição de um equipamento caro, alcançando também quem é criativo. “Eu sempre digo que todo conhecimento é pouco. Só essa vivência de rua é linda, mas ela é mais bonita no discurso do que na vida, de fato. É importante ter os dois”, ressalta.