Quinto romance de Carola Saavedra será lançado hoje

“Eu sou só uma pessoa, e se há um mistério em mim, sim, porque há o mistério, e se há o mistério, ele não me pertence, ele acontece à minha revelia, porque eu sou só isso que você não vê”. A fala é de Anna, uma das protagonistas de “Com armas sonolentas” (Companhia das Letras, R$ 55), o quinto romance de Carola Saavedra. A autora assina embaixo o que diz a própria personagem. “Há um mistério da vida que nos é inacessível”, diz Carola. “Vivemos muito na ilusão de que controlamos quem somos, que sabemos a verdade sobre nós mesmos. Quanto mais vivo, no entanto, mais vejo que a vida não é assim. Você pode dar uma explicação mística ou psicanalítica, mas sempre permanece um fundo informulado e desconhecido”.

O livro, que será lançado hoje às 19h na Livraria da Travessa de Botafogo, é definido pelo autora como um romance de formação. As três protagonistas — a atriz Anna, a estudante alemã Maike e uma personagem sem nome que tem muitas características em comum com Macabéa, de “A hora da estrela” — estão entre o meio da adolescência e o início da vida adulta, impelidas a amadurecer e a tornar-se responsáveis por si próprias em circunstâncias que não conseguem dominar, cujos sentidos muitas vezes lhes escapam.

Carola ressalta que “a marca” do livro é sua frase de abertura: “Sempre lhe pareceu que havia uma dissonância entre o que desejava e o que realmente queria”. A autora afirma que “muitas vezes não sabemos quem somos ou o que desejamos. Nosso querer e nosso desejo podem ser contrários. Quero sondar o que é esse desejo que nos move”. A essa questão, que funciona como eixo, várias outras se somam: a maternidade, o abandono, heranças inevitáveis, exílios deliberados ou involuntários, a identidade e a sexualidade. Carola diz que não dá respostas, mas que a força da literatura está justamente em “fazer perguntas”. 

Pela primeira vez, um romance da autora inclui acontecimentos fantásticos e sobrenaturais. “Eu tinha uma sensação muito concreta e consciente de que vivemos um momento bizarro. Senti que o realismo que até então usara não ia dar conta”, ela diz. “Não sabia para onde ir, até me voltar para o mundo onírico e fantástico. Há partes em que o sonho e a alucinação são mais reais do que a realidade. O momento que vivemos no mundo é uma loucura. Há muito conservadorismo, ao mesmo tempo em que vivemos revoluções como o feminismo”, afirma.

A romancista descreve o novo livro como sua obra “mais autobiográfica”, refletindo “várias mudanças” em sua vida pessoal. A principal delas foi a interrupção de dez anos de análise lacaniana, processo que mudou a sua relação com o próprio inconsciente. “O livro trata muito sobre como não somos senhores de nossa própria casa.  Enquanto não reconhecemos isso, é como se não tivéssemos livre-arbítrio”, afirma.

Embora a escritora sublinhe que “não há fatos concretos” a espelhar a própria vida na história, algumas aproximações são possíveis. Desde “O inventário das coisas ausentes” (Companhia das Letras, 2014), seu livro anterior, nasceu Victoria, sua filha. A vida na Alemanha, país onde morou entre 1998 e 2008, também é um elemento muito presente, assim como o sentimento de desterro, o que remete à sua própria história — a escritora nasceu em Santiago, em 1973, e mudou-se para o Brasil três anos depois, com os pais fugindo da ditadura de Pinochet.

O título da nova obra é de um verso de “Primeiro sonho”, poema de Sóror Juana Inés de la Cruz, poeta e religiosa mexicano-espanhola do século XVII que se tornou monja para poder continuar a estudar. “A ideia das armas sonolentas é que existem armas para a vida que não passam pela razão. Uma capacidade de afeto que faz parte do sonho”, diz Carola.