Urdidura do pecado: Ava Rocha lança ‘Trança’, álbum inspirado por Tunga, com 35 convidados

Entidades diversas povoam a fala de Ava Rocha. Na entrevista, a cantora faz referência a florestas e batuques, espíritos ancestrais e Tieta do Agreste, os próprios pais (a saber, Paula Gaitán e Glauber Rocha) e Joana d’Arc. Os temas se sucedem com naturalidade, como se todos fossem igualmente palpáveis e urgentes. Ava diz querer cruzar “linguagens, memórias, estilos, amores, gerações”. 

O interesse de mil faces em elementos vivazes e míticos torna muito clara a afinidade de Ava com Tunga. Ao longo da carreira, o artista plástico — que morreu aos 64 anos em 2016 e é tema de uma exposição inédita, a partir do dia 30 no Museu de Arte do Rio — trabalhou com uma proposta baseada na alquimia e na mutação da matéria. Seus objetos, que incluem materiais como cristais, mercúrio, âmbar, urina e meteoritos, entre outros, se misturam e se transformam constantemente, percorrendo áreas tão variadas como ciência,história, razão, sexualidade e tempo. 

Na semana passada, Ava lançou “Trança”, seu terceiro álbum. O álbum homenageia Tunga, a quem a cantora conheceu já na infância, que sempre a incentivou a cantar (o artista costumava dizer que queria gravá-la cantando dentro de um poço que tinha em sua casa) e que fez a capa de seu primeiro disco. 

No mínimo desde “Vanguarda   viperina”, performance de 1985 em que três cobras eram sedadas e entrelaçadas, Tunga trabalhou com a figura entrelaçada em sua obra, em redes, tecidos e tramas de materiais como cabelo e fios de bronze, cobre e ferro. “Tunga é um bruxo. A obra dele sempre me lançou para dentro do inconsciente e do sonho. Muito de ‘Trança’ vem de um universo comum que nos une”, diz Ava.

Os elementos que ela entrecruza no lançamento são profusos. Há 35 músicos convidados participando do projeto, incluindo Linn da Quebrada, Karina Buhr, Curumin, Juçara Marçal e Kiko Dinucci (do Metá Metá), Tulipa Ruiz, Negro Leo e Uma Gaitán (os dois últimos,respectivamente, marido e filha de Ava). Eles se distribuem em 19 faixas, que, somadas, duram mais de uma hora, ocupando um LP duplo lançado pela Circus Produções. 

“Minha ideia primordial era fazer um disco com todas as pessoas que amo e admiro. É claro que não consegui, há muita gente”, ela diz. “Queria também criar uma relação entre Rio e São Paulo, reunindo os músicos com quem já trabalhava e com pessoas que conheci no último ano”, acrescenta a cantora, que trocou a capital fluminense, sua cidade natal, pela metrópole ao Sul no começo de 2017. 

Uma das ideias a orientá-la foi a de Pangeia, o continente pré-histórico que reunia os atuais e que batiza uma das músicas, em outra homenagem a Tunga, que, em entrevistas, algumas vezes disse lá ter nascido.

A aglutinação também se verifica em termos musicais. A base principal de Ava continua a ser o rock, mas processado por múltiplos estilos e influências, da psicodelia sessentista ao jazz, passando por Jorge Ben e Violeta Parra.

No primeiro single, “Joana Dark”, tambores e outros instrumentos de percussão evocam um batidão do funk carioca. Ela canta junto: “as fumacinha, as fumacinha/ as fumacinha do pecado eu tô tragando / cê tá curtindo? ê tá gostando? / mas abre o olho que aqui sou eu quem mando/sou eu queimando / sou eu queimando / sou eu queimando na fogueira do pecado”. 

A cantora diz que a letra da música — presença frequente nos shows da cantora há mais de um ano, onde geralmente tem arranjo bem mais ruidoso, com guitarra, baixo e bateria — surgiu em apenas um dia, a partir de trocadilhos e jogos de palavras feitos em parceria com a atriz carioca Gabriela Carneiro da Cunha e  com o cantor paulista Vitor Hugo, que também assinam a composição. De acordo com a Ava, ela fala “do poder espiritual de cada um, uma força do desejo que acompanha o cotidiano”.

Há ainda músicas que incorporam elementos percussivos de pontos de candomblé, como “Maré Erê”, “Febre” e “Delírio”. Ava define as faixas como “ritos” e observa que as percussionistas Ariane Molina e Victória dos Santos, do grupo Mbeji, participam das mesmas. O projeto, que desenvolve pesquisa sobre cânticos de terreiro, costuma se definir como “o lado feminino dos tambores” — em algumas tradições do candomblé, certos instrumentos percussivos são restritos a homens. “Ao longo da história, as mulheres sempre foram destituídas de liderança espiritual. Eu quis trazer essa força feminina”, diz Ava.

Ela assina, sozinha em ou em parceria, dez canções do álbum, incluindo duas românticas em espanhol (“Canción para usted” e “Frío”), em que indiretamente reverencia as  raízes colombianas da mãe, Paula Gaitán, a quem o disco, junto da filha Uma, é dedicado. Todas as composições são inéditas, exceto “Patrya”, que Negro Leo compôs e lançou em um álbum de 2012.

O primeiro show do novo disco no Rio está marcado para o dia 31 de agosto no Circo Voador.  A turnê do antecessor, “Ava Patrya Yndia Yracema”, de 2015, rendeu 170 apresentações, incluindo turnê pela América Latina e shows nos Estados Unidos e na Europa.

A expectativa é de que a marcante intensidade da cantora continue a arder. “O show é um organismo vivo. Em essência, é bruxaria. É o ebó sendo feito”, ela diz.