Com 'A biblioteca elementar', Mussa termina pentalogia sobre crimes na Cidade de São Sebastião

O carioca Alberto Mussa é um escritor de mão cheia, com técnica, talento e imaginação fervilhante. Seu primeiro livro, “Elegbara”, publicado em 1997, reúne dez histórias com temática portuguesa, africana e brasileira. Depois, em 1999, veio “O trono da rainha Jinga” sobre crimes cometidos na cidade de São Sebastião no século XVII. A segunda edição contou com apresentação do acadêmico e africanólogo Alberto Costa e Silva.

A partir daí, Mussa pensou em escrever uma pentalogia, ou seja, conceber mais quatro livros sobre crimes passados no Rio de Janeiro, cada um deles se transcorrendo em determinado século da história da cidade. Mas este projeto demorou a ser concretizado, pois no meio do caminho outras obras foram surgindo, como os romances “O enigma de Qaf” (2004) e “O movimento pendular” (2006). 

Escreveria também um livro sobre mitologia tupinambá, “Meu destino é ser onça” (2009); uma obra sobre sambas-enredos, em parceria com o amigo Luiz Antônio Simas (2010), e traduziria a poesia de poetas pré-islâmicos, trabalho que levou 12 anos para ser concluído e resultou em “Os poemas suspensos”, inspiração do magistral “O Enigma de Qaf”. 

A ideia de escrever cinco livros passados no Rio, o chamado “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, no entanto, nunca foi abandonada, tanto que geraria “O Senhor do Lado Esquerdo” (2011), passado no século XX; “A primeira história do mundo” (2014), referente ao século XVI; “A hipótese humana” (2017), correspondente ao século XVIII, e por último “A biblioteca elementar”, que se passa no século XIX e será lançado ao fim deste ano. A série deverá virar filme. A agente literária Luciana Villas-Boas a está negociando com uma produtora. 

Nascido no Rio em 1961, filho de um desembargador dono de uma imensa biblioteca e de uma mãe apaixonada por romances policiais, Alberto Mussa toca atabaque, canta, gosta de samba, futebol e beber cerveja. Com Marlene, a mãe, frequentou terreiros de umbanda e passou a se interessar por ciganos, cartomancia e astrologia. Seus livros são uma mistura cultural, refletindo a mestiçagem brasileira ou a chamada brasilidade. 

Estudado em universidades da Europa, dos EUA e do Mundo Árabe, traduzido para 15 idiomas e com a obra publicada em 17 países, o escritor carioca, consagrado por vários prêmios - Casa de Las Américas, Academia Brasileira de Letras, Oceanos, Fundação Biblioteca Nacional e Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) – nesta entrevista fala um pouco de sua vida e sua obra.

JORNAL DO BRASIL – Este ano será o lançamento de “A biblioteca elementar”, quinto livro da pentalogia sobre crimes no Rio de Janeiro. Ao todo, são quantos livros?

Alberto Mussa - Foram seis romances. Além disso, há os livros de contos “Elegbara” e “Contos completos”; o sobre mitologia dos tupinambás, “Meu destino é ser onça”, o livro “Samba de enredo: História e Arte”, escrito com Luiz Antônio Simas, e a tradução de “Os poemas suspensos”. Fiquei imerso na fantasia da cultura árabe pré-islâmica, e foi isso que fez com que interrompesse a criação dos livros de mistério passados no Rio, que iniciara com “A rainha Jinga”.

Quando foi que resolveu ser escritor? 

Aconteceu naturalmente. Quando eu estava na Faculdade de Letras, escrevi um romance que era muito ruim. Cursei Matemática e trabalhei num estaleiro na Rua Teófilo Otoni. Fazia operações overnight. Tinha até a chave do cofre da empresa. Depois, deixei o estaleiro e a Matemática. Pedi transferência para Letras. No quarto ano, escrevi “O Divino Matador de Serpentes”, um espírito. Cheguei a mandar para uma editora, mas percebi que era ruim e nem tenho mais os originais. Um amigo meu da faculdade fez um trabalho a pedido da professora Beatriz Resende. 

Você teve in?uência em casa? 

Meu pai, David Mussa, recitava Camões. Minha entrada para a literatura foi através da poesia. Advogado, juiz de direito, desembargador, meu pai havia estudado Neolatinas e Direito. A biblioteca dele era o que havia de mais rico em minha casa, que ficava na Rua Borda da Mata, 63, no Grajaú.  Da biblioteca de meu pai infelizmente só salvei uma poesia completa de Fernando Pessoa. Ele lia os clássicos. Recitava “Os Lusíadas” e Virgílio. A Écloga número 4, sobre o princípio da Era Cristã.

E como era sua mãe?

Minha mãe, Marlene, também me influenciou bastante. Tínhamos muita cumplicidade. Ela lia Agatha Christie, Conan Doyle. E gostava de cartomantes, terreiros de umbanda. Em um dado momento, resolvi fazer minha própria biblioteca e entrei para o Círculo do Livro. Enquanto ainda estava cursando Matemática, comecei a ler literatura africana e a comprar livros de autores africanos. A poesia de Agostinho Neto, por exemplo. Enfim, a literatura fazia parte de meu cotidiano.  Em minha casa, havia novela, futebol, Rádio Globo, carnaval e literatura. Não posso deixar de mencionar meu tio Didi, irmão de minha mãe, boêmio e compositor da Ilha. Ele fez sambas-enredos como “A cigana leu a minha mão” e “Diga, espelho meu...”. E era Salgueiro. Foi enterrado com os dois estandartes, o do Salgueiro e o da Ilha. Vejo desfiles desde 1975, ano em que o Salgueiro saiu com o samba enredo “O segredo das Minas do Rei Salomão”. Sei de cor. Já meu irmão é mestre de capoeira e faz berimbaus. 

Então essa foi a sua formação...

Nunca me separei da literatura, nem mesmo quando trabalhei no estaleiro. E sempre procurava desbravar novos universos, mitologias. Em “A biblioteca elementar” estão presentes os ciganos. Por outro lado, sempre gostei de línguas, dicionários. Quando sai das Letras dei aulas e trabalhei no Dicionário Houaiss, com o Mauro Villar. Fiz um verbete infindável sobre a proposição DE. Tinha Deus e o Diabo. 

Voltemos então ao seu primeiro livro, “Elegbara”. 

Depois de trabalhar no Dicionário, comecei a esboçar os contos. Contos do Atlântico, sobre África, Portugal, Brasil. Falo de umbanda, candomblé. Na faculdade eu tinha ficado encantado com o estudo de linguística, e resolvei estudar árabe, russo, quimbundo. Apresentei o livro “Elegbara” ao Houaiss e ele gostou. Fez um prefácio para mim. Guardo este manuscrito a sete chaves. Em 1977, fui à Revan e, por causa da apresentação do Houaiss, o livro foi aceito. Já em 1999, obtive o prêmio da Biblioteca Nacional para escritor com obra em fase de conclusão. Foi quando escrevi “O trono da rainha Jinga”, publicado pela Nova Fronteira, mas não consegui me manter lá. Fiz “O Enigma de Qaf”, o editor achou o livro pequeno. Modifi quei o texto, criando capítulos intermediários, e recorri a uma agente literária, a Ana Maria Santeiro, que levou o livro para Luciana Villas-Boas. Ela abrigou “O Enigma”, na Record, e o livro ganhou vários prêmios. Minha carreira deslanchou. O ano de publicação foi 2004. 

Belíssimo livro, “O Enigma de Qaf”.

História de um poeta, um descendente libanês, como eu. O avô recitava um poema suspenso no céu e o herói resolve ir até o Oriente Médio para investigar a história do poeta pré-islâmico, selvagem, pagão, que fazia versos suspensos antes da época do profeta Maomé. Usei as letras do alfabeto árabe porque estava estudando árabe. O livro foi reeditado pela Record com o mesmo projeto gráfi co que Regina Ferraz usou nas capas e no miolo dos livros da pentalogia.

A rainha de “O trono da rainha Jinga” existiu realmente? O livro é meio obscuro... 

A rainha existiu, sim. É um personagem histórico de Angola. Dizem que fez parte dos primeiros movimentos de emancipação, tendo enfrentado os portugueses no século XVII. Meu livro se passa na África e no Rio. São cinco capítulos transcorridos na África e dez no Rio. Ele tem muitas vozes. É bem complicado porque eu ainda era inexperiente. Não queria deixar a decifração dos crimes muito clara para o leitor. Hoje em dia teria escrito de forma diferente. Até pensei nisso, já que foi reeditado pela Record. Mas livro é como filho. É melhor deixar seguir o seu caminho. Ele tem os seus leitores. E busquei ser o mais claro possível nos outros livros...

E aí veio a ideia de escrever cinco livros...

Foi. Uma ideia abandonada por um tempo mas que de repente voltou, quando li o ensaio de uma crítica holandesa que mencionava este projeto, citado por mim em uma entrevista após a edição de “O trono da rainha Jinga”. O plano já era então o de fazer um romance para cada século. “O Senhor do Lado Esquerdo” se passa no século XX, em 1913, “A primeira história do mundo” em 1567, século XVI, “A hipótese humana”, em 1854, século XIX, e “A biblioteca elementar” se passa em 1733, século XVIII, quando ainda existia no Brasil a Inquisição. 

Em “O Senhor do Lado Esquerdo”, que se passa no Museu do Primeiro Reinado, transformado numa “Casa das Trocas”, o assassino é um transexual. A cara da TV Globo. 

Bem que a TV GLOBO se interessou em adquirir os direitos. Mas acabaram sendo vendidos para outra empresa, que até o final do contrato nada fez. Luciana Villas-Boas, minha agente literária, está negociando a venda de todos os cinco livros para uma produtora de filmes. Parece que a ideia seja a de fazer uma série. É claro que nunca houve bordel naquela casa. Eu que inventei a história do médico italiano que comprou a casa da marquesa para fazer experiências sobre a sexualidade humana.  O nome do polonês, Miroslav Zmuda, é inspirado em jogadores poloneses.

 “A primeira história do mundo” parte de um crime que realmente aconteceu no Rio em 1567.  O ?nal é bem inusitado... 

Sim, trata-se do primeiro homicídio ocorrido no Rio, segundo informação de Elisio Belchior, autor de “Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro”. Um serralheiro, Francisco da Costa, casado com uma bela mulher, é encontrado morto próximo à Casa da Pedra. Tinha sido atingido por sete flechas. Três pessoas foram consideradas suspeitas e processadas. Eu trabalhei com a hipótese de dez, ou seja, criei mais sete suspeitos. Percentual altíssimo para um núcleo habitacional de apenas 300 a 400 pessoas. Jerônima Rodrigues, a mulher do serralheiro, rompeu com os códigos da época, porque havia se casado por amor. O final é feminista com Amazonas entrando em ação. Por isso tem tanta onça na história. As onças são mulheres.

Em “A hipótese humana” é mencionado um caso de amor que também teria sido verdadeiro. Ou pelo menos era o que se comentava em sua família. Quem matou Domitila foi o pai? Não me lembro bem... 

Havia uma história contada por uma ex-cozinheira de cem anos, segundo a qual uma moça não podia ter relações sexuais por ter um coração fraco. O marido deixa de ter relações e ela decide traí-lo. Domitila, a protagonista de meu romance, não é assassinada. Ela tem um encontro sexual com Tito, o primo, que fiz questão de descrever com uma cena forte – ela fica em cima dele - e morre do coração. Há uma rivalidade entre o primo, Tito Gualberto, e Balbiano, dois capoeiristas. Leocádia, a mulher de Balbiano, ex-mestre de capoeira de Tito, era apaixonada pelo primo de Domitila, que era uma serpente, coisa ruim. O romance se passa em cinco lugares, que formam uma estrela de cinco pontas: a ponte do Rio Comprido, a cadeia, o cemitério da Ordem Terceira, a Cova da Onça e o Largo da Segunda-Feira.

Chegamos a “A biblioteca exemplar”, o último da pentalogia, que ainda está para ser lançado. Qual é o cenário do crime, desta vez? 

O romance se passa na Rua da Carioca. Nele, coloquei ciganos, o que não acho que seja tão inverossímil. A Uruguaiana era o limite urbano, depois vinha o Rossio. A Carioca havia se chamado Rua do Egito, porque nela ficava um oratório da fuga da Sagrada Família, e depois passou a ser conhecida como Rua do Piolho. O Piolho existiu. Era um rábula. Com a vinda de D. João, passou a ser chamada de Rua da Carioca, por causa do Chafariz da Carioca. 

E os personagens?

Criei três cegos que têm participação fundamental na trama: Bento, Benício e Benedito. Poetas, eles faziam poesia épica sobre o Rio. Havia também um mouro dono de uma biblioteca; um flamengo; um escravo liberto; um cirurgião barbeiro; uma cristã nova, cujo nome era Páscoa Muniz, personagem sofrida, que será presa pelo Santo Ofício; Custódio Homem, o Piolho, que queria ser delator; dois portugueses cristãos velhos – a mulher se chamava Mécia Repincho; duas índias, mãe e filha, que haviam fugido ou sido expulsas pelos jesuítas. A índia era uma feiticeira. Será através dela que saberemos o que aconteceu. 

Como começa a trama? 

Uma cigana está no Cemitério dos Pretos do Convento de Santo Antônio. Ela desce o morro, sai por uma cerca e ouve homens saindo de uma taberna. Há o mapa astral deste momento. A taberna é a casa de Mécia Repincho. A cigana volta atrás, movendo-se às escondidas. Quando ela vai sair de novo, vê um homem, muito bem vestido, de casaca. Ele tem um papel na mão. Bate numa casa, chama um morador, que aparece em capa espanhola. Começam a discutir. O de casaca, que também era cigano, tira uma pistola e detona. O morador da casa fica ferido, mas não morre. Ele não entrega o de casaca. O papel fora embora com o cigano.

E onde está a biblioteca? 

Quem resolve o problema é a filha do mouro, português de origem árabe. Ele é quem tinha a grande biblioteca. Ele vai para Minas e a filha foge com um cigano. O pai vende a casa para um grã-fino, licenciado em Astronomia, membro da Academia de Ciências de Lisboa. A filha, Bernarda d’Ávila Moura, era apaixonada pela biblioteca do pai. Quando foge fica com um livro só, “O Livro dos Mil Enigmas”. Ela decifrará o enigma da história com base no problema número 496.

Já há novos projetos...

Já tenho dois engatilhados. O primeiro será a história da entrada de Lourenço Cão pelo Brasil adentro até o Amazonas. O nome foi inspirado no do português Diogo Cão, que descobriu a foz do Rio Zaire e iniciou a colonização da África. A história vai se passar em 1510. Já o outro vai se chamar ”O fantástico desfile da Escola de Samba Floresta do Andaraí em 1961”.  Títulos são importantes. 

*Jornalista e escritora