Literatura: As artérias do sertão

A história que se conta de ouvido a ouvido, de geração a geração, como um jogo de passa-anel, nem sempre é de ninar. Pode ser um fardo. E ninguém se liberta do julgo com o esquecimento; pelo contrário, quem quiser conhecer a origem do que lentamente pode virar ficção que vá atrás da verdade. E quando as respostas estão distantes no mapa? Pegar a estrada e sair em busca delas. É o que faz Francisca, socióloga de 65 anos, narradora em “Dora sem véu” (Alfaguara), mais um ‘road novel’ da melhor qualidade de Ronaldo Correia de Brito, que desde “Galiléia” (2008), não faz uma grande viagem pelas artérias do sertão.

Francisca parte, de caminhão, para o Juazeiro em busca da avó, Dora, que nunca conheceu. Instigada pelo pai já falecido a esmiuçar o rumo da família deixada para trás, quando ele fugiu para o Recife e foi adotado, resolve desvendar antigos mistérios e conhecer outros, no confronto com os romeiros e nas mudanças do agreste, contraditoriamente transformado e secular. A seu lado, um marido obscuro; à sua frente, uma estrada cheia de esquecimento. “E se eu não encontrar Dora? A pergunta risca meu peito, um relâmpago no céu escuro”. O suposto encontro com a avó e as verdades que possam ou não surgir, no entanto, são o que menos interessa nessa história, assim como a velha premissa de que mais importante do que chegar ao destino é o caminho.

A condição feminina, neste sertão revisitado, é também ponto forte da trama: “Em qualquer geografia as mulheres são as mais vulneráveis. No porto de Fortaleza ou no Acre, Dora é a mesma mulher abandonada com sua inquietude e seus filhos. A lembrança fere meu coração. Sei que há muitas Doras pelo mundo. Foi essa que me tocou procurar”.

O caminho é recheado de episódios que ajudam a tornar ainda mais nebulosa a procura – por quem mesmo se busca? Entre os eventos inesperados, surgem os crimes, como o do romeiro que apunhalou o sacerdote nas costas ao se sentir ofendido pelo sermão da missa dominical. O retrato do sertão é tão real que tem cheiro, suor. “Ninguém sacode a poeira da roupa nem toma banho antes de visitar os lugares sagrados de romaria. Quem inventou a interdição à higiene?” 

A narrativa cria a confluência de paisagens. O agreste e suas penosas circunstâncias sociais ganham comparações com cenários mundiais - os currais do sertão, por exemplo, são comparados aos campos de concentração dos judeus: “Acostumados a não serem párias nos seus territórios, os sertanejos, retirantes indesejados, estranham os olhares sobre eles. No trajeto, consumiram as solas dos calçados, a roupa do corpo, a água e a comida poucas. Despojam-se de tudo, iguais aos judeus de quem se arrancam as malas, os relógios e os dentes de ouro antes de entrarem nos fornos. Por último, perdem a fala, a paciência, a memória e os sonhos”.

Às histórias, somam-se os encontros pessoais de Francisca e do marido, que se desentendem ainda mais. Percorrendo as romarias, o mundo do grande Nordeste é esquadrinhado pelos olhos e sentidos da narradora, sempre à beira de novas descobertas. Só mesmo um autor que conhece a fundo os veios daquelas estradas, como Ronaldo, nascido em Saboeiro, no Ceará, é capaz de fazer com que o cenário realmente transpire os cheiros da terra. A viagem-romaria é um percurso-busca sem fim – o que se procura talvez seja o que menos se espera encontrar. Sacudir a poeira das sandálias é a impossibilidade. Depois de viver o sertão de forma tão íntima não se desgruda dele jamais.

Ronaldo Correia de Brito também é autor de “Faca”, “Livro dos homens”, “Retratos Imorais”, “O amor das sombras”, entre outros.

Serviço

“Dora sem véu”, de Ronaldo Correia de Brito

Selo: Alfaguara

Páginas: 248

R$ 49,90

eBook Kindle: R$ 34,90

*Jornalista e Escritora