Procure pela hashtag "#Cervantes2018" no Twitter. Os resultados incluirão: ilustrações feitas nas últimas 24 horas do começo das desventuras de Dom Quixote e Sancho Pança; comentários críticos de Frederick de Armas, um dos maiores especialistas do mundo no Século de Ouro da literatura espanhola; uma foto de estátuas de lata de Quixote e Sancho, tiradas em Visconde de Mauá, no Estado do Rio; um vídeo de Homer Simpson comparando-se ao cavaleiro errante, entre milhares de outros comentários.
O motivo para Miguel de Cervantes se tornar um dos assuntos mais comentados do Twitter, mais de 500 anos depois de sua morte, foi o começo da leitura e discussão coletiva de sua obra maior, na última sexta-feira. A ideia é simples: quem quiser participar, lê, por conta própria, um capítulo de “Dom Quixote” por dia, até outubro. A conta @autoquijote indica em que parte do livro está a leitura, enquanto as impressões dos leitores podem ser acessadas pela hashtag acima citada. Elas chegam à casa das milhares.
O responsável pela ideia é o argentino Pablo Maurette, escritor, professor de Literatura da North Central College de Chicago e responsável pela conta @maurette79. Ele diz que a ideia surgiu fortuitamente: recém-chegado ao Twitter, anunciou que leria um canto da “Divina Comédia”, de Dante, por dia. A experiência começou no dia primeiro de janeiro de 2018 e se estendeu até 10 de abril, ficando conhecida pela hashtag #Dante2018.
Maurette diz ter se impressionado pelo nível de envolvimento, “com uma obra extensa, complexa, com momentos muito árduos”. Ele afirma que tem leitores em toda a América Latina, Japão, EUA, Europa e até Papua-Nova Guiné. Diz que é difícil calcular o número de leitores, mas estipula que até cinco mil pessoas tenham participado da leitura da obra de Dante. Os comentários possuem a variedade caleidoscópica e multicolorida das redes sociais.
Frederick de Armas, o grande especialista, criou conta (@FDeArmas108) na rede social só para participar do experimento. Seus comentários eruditos já relacionaram Heráclito e Pitágoras a Cervantes. Um de seus tuítes inaugurais foi um comentário à frase do prólogo de que “o melancólico se move a riso”. De Armas, se pergunta: “Pode rir o melancólico? Cervantes aposta que sim. Forja um personagem parecido consigo, cheio de trabalhos, cárceres e desejos frustrados”.
Ao lado disso, há quem poste músicas contemporâneas, fotos da linha de queijos, em homenagem a Cervantes e comentários de trechos ao lado de capuccinos. A maior dos comentários impressiona pela qualidade. Duas desenhistas participam da leitura com desenhos seguindo a narrativa.
“Os não especialistas muitas vezes relacionam o livro à própria vida, algo mais comum em escolas. Fazem-se perguntas que um especialista jamais faria, porque seria muito elementar, mas que abrem dimensões importantíssimas. A leitura de fora traz um frescor”, diz Maurette.
O pesquisador afirma que a opção pelo Twitter, ao invés de outras redes sociais, foi resultado do acaso, em decorrência de não ter conta no Instagram nem no Facebook. Ele ressalta, todavia, que mais de mil pessoas estão envolvidas na leitura coletiva em um grupo de Cervantes neste último.
A escolha pelo Quixote foi resultado de votação, na qual o livro espanhol concorreu com “Metamorfoses”, de Ovídio, com a “Eneida”, de Virgílio, e com o “Decameron”, de Boccaccio. A partir do dia 27 de julho, começa no Twitter uma leitura deste último, que ocorrerá em paralelo à do Quixote.
Para quem quiser participar, o especialista sugere seguir, entre outras contas, @bbonifatti, @fusonegro, @kgalperin, @leyendo_quijote, @JSantibanez00 e @JotaDO.