O italiano Vittorio Storaro tem na sua longa carreira três prêmios Oscar, como melhor diretor de fotografia em “Apocalypse Now”, “Reds” e “O último imperador”. Parceiro de Bernardo Bertolucci, Francis Ford Coppola, Warren Beaty, Carlos Saura e Woody Allen, surgiram grandes filmes que ele define como resultado de uma colaboração criativa.
Em “Café Society”, com Woody Allen, Storaro conseguiu um resultado surpreendente, onde a luz é que diferencia os ambientes. Ele se inspirou em pintores como Edward Hopper e Georgia O’Keeffe para atingir o uso criativo da iluminação.
Vittorio Storaro esta semana chega ao Brasil para a inauguração da mostra “Escrever com a luz”, dia 9 de junho, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A exposição é composta por 115 imagens, incluindo impressões fotográficas sobrepostas extraídas das obras mais célebres do autor e 41 obras de arte que constituíram a fonte de inspiração do artista.
Será possível percorrer o processo criativo de Storaro através de obras-primas de Caravaggio, Bacon, Rosseau, Magritte, Deyneka e Boticelli, criando um perfeito equilíbrio entre a luz, a cor e os elementos.
A inauguração da mostra é acompanhada por uma série de eventos, uma conferência de Vittorio Storaro no MAM e a projeção de filmes. Uma viagem imperdível na trajetória desse grande nome da fotografia cinematográfica mundial.
Vittorio Storaro é o responsável por um novo conceito de trabalho com imagem colorida. Um artista, erudito, que sente a necessidade de um mergulho constante na Filosofia, na História e na pintura. Em Roma, ele conversou com o JORNAL DO BRASIL:
JORNAL DO BRASIL: Como a tecnologia digital mudou a estética do cinema e o trabalho do diretor de fotogra?a?
VITTORIO STORARO: Acho que a passagem da película ao digital representa somente a passagem para uma diferente “matéria”, na qual escrevemos com a luz. A idealização e as suas realizações são as mesmas.
Qual critério você usa para escolher seus projetos atualmente?
Devo entender se o tema do projeto coincide com o meu percurso de vida, depois se consigo encontrar uma “visão” específica do conceito escrito no roteiro, falar e mostrar o resultado ao cineasta. Se ele está de acordo com o que concebo e me dá a sua aprovação, posso colaborar com ele e realizar o filme.
Como o senhor avalia sua recente parceria com Woody Allen em “Café Society” e “Roda gigante”?
Fantástica. Passamos os dois juntos para o mundo digital, e, como bons velhinhos, utilizamos todas as vantagens do novo sistema. Com Allen, ao vermos as imagens no set, sabendo que 90% daquelas serão definitivas. Desde o início, então, sabemos o que estamos realizando, e, imediatamente, se não ficamos contentes, podemos modificá-las. Nos três filmes que fizemos (incluindo “A rainy day in New York”, ainda inédito no Brasil), realizamos a futura visão em HDR (High Dinamic Range)
Seu trabalho é muito visual e estético. Como se adapta à estrutura baseada em diálogos do cinema de Woody Allen?
Propondo as minhas ideias cinematográficas em sintonia com os escritos dele. Ele adora o resultado.
Que diretor e diretor de fotogra?a lhe impressionam hoje?
Na Itália, Paolo Sorrentino e Paolo Ferrari.
Depois dos grandes cineastas como Visconti e Fellini, como o senhor vê o cinema italiano?
Conheço pouco do cinema italiano atual. Sou mais solicitado em filmes internacionais, mas espero que esteja crescendo, aos poucos.
Dentre os grandes cineastas com quem o senhor trabalhou, houve sintonia particular no set especi?camente com algum?
Não trabalhei com muitos cineastas. Na realidade, trabalhei fundamentalmente com Bernardo Bertolucci, Francis Ford Coppola, Warren Beatty, Carlos Saura e Woody Allen. Com todos tive e espero ainda ter uma belíssima relação humana e uma grande colaboração criativa.
Qual foi o seu ?lme mais difícil e por quê?
“Apocalypse now” foi o mais longo, o que foi filmado mais longe, o mais caro e o mais difícil. Também foi o mais perigoso...Mas, igualmente, também considerei o mais maravilhoso de filmar. Me fez crescer muito.
Qual foi o trabalho que mais o emocionou?
Me emociona realmente muito ter uma ideia figurativa específica em cada filme. Quando consigo realizá-la, com todas as dificuldades de cada caso, me sinto muito emocionado e feliz.
Como o senhor vê o cinema brasileiro?
Infelizmente não o conheço. Mas espero passar a conhecê-lo brevemente.
Com a sua experiência e reconhecimento internacional, que conselho daria a um jovem principiante da fotogra?a cinematográ?ca?
Acho que o estudo e a pesquisa são indispensáveis. Depois, uma boa preparação em cada projeto, para encontrar uma certa solução figurativa a ser proposta ao cineasta. E, é claro, muita determinação para realizá-la.
O “Apocalypse now” lhe rendeu um Oscar. Lhe agradou fazer um ?lme de guerra?
Quando Coppola me chamou. aceitei porque não era um filme de guerra, mas sobre a ideia universal das civilizações, sobre o respeito entre as várias culturas. Foi um filme de grande coragem. a demonstração melhor do que pode ser um filme que não seja a serviço da produção, mas onde a produção seja a serviço do filme. Como deveria ser sempre.
O senhor trabalhou com os maiores cineastas. Onde buscou inspiração para cada um deles?
Tive grandes guias espirituais. Posso dizer que pude pegar o sonho dessas pessoas e fazer se transformar no meu. O cinema é um modo de visualizar os nossos sonhos. a sorte da minha geração é de ter tido um grande background cultural: arte, literatura, música, teatro...nos nutrimos dessas artes, cada estreia era uma explosão de entusiasmo: nos sentíamos responsáveis, mas seguros. A paixão dos diletantes que não têm medo de errar.
É com Café Society que começou o seu trabalho na viagem digital?
Sim, há dois anos, com 58 filmes feitos em película, propus a Woody de passar ao digital. Ele também, até aquele momento, tinha utilizado somente película. O que faz a diferença em um filme não é a técnica empregada, mas a ideia: a concepção figurativa do que é a história. Hoje, as câmeras são tão sensíveis que é possível registrar uma imagem em qualquer lugar, até no escuro. A ideia, o sentido de uma imagem é que faz a diferença, não a sofisticação do momento.
Como começou a sua vida no cinema?
Meu pai trabalhava em um cinema, era o “projetista”. Com 7 anos, eu já estava na cabine com ele. Via todos os filmes e procurava entender a história através das imagens, já que o som chegava somente na sala. O amor pelo cinema nascia ali. Meu pai teria amado realizar os filmes que projetava e me estimulou em direção à fotografia. Com 13 anos, eu trabalhava em um laboratório fotográfico. Comecei lavando as bacias, aprendi a prática. A teoria veio depois e, assim, o sonho do meu pai se transformava em realidade. Em mim.
Já naquela época dava pra imaginar que seria o “mago das luz”?
Eu era “bravino”, mas conhecer a técnica não basta. Foi Camillo Bazzoni, diretor de fotografia, que me deu a chance como seus assistente. Foi ele quem me fez entender que o cinema é uma arte que se nutre de outras artes. Me estimulou a ler Pavese e Faulkner, a ouvir Mozart, Beethoven. Entrei em crise, me fechei em casa por um ano para estudar tudo, até que Bazzoni me sacudiu: “Deve repartir, com o risco de andar pra trás. Tem um jovem de Parma que está para iniciar um filme. Vá encontra-lo. O jovem se chama Bernardo Bertolucci ! O filme era “Prima della rivoluzione” (Antes da revolução). Bernardo tinha 22 anos e eu, 23. Entre nós, foi criada uma ligação que dura toda a vida. Fiz a fotografia de quase todos os seus filmes, aprendi o sentido da composição. Mas a grande descoberta foi a ‘folgorazione’ das luzes.
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Programação de Vittorio Storaro na Cinemateca do MAM:
Dia 10 (sexta-feira), às 18h - Storaro, Mestre da Luz – “Escrevendo com a luz: Vittorio Storaro” (Writing with light: Vittorio Storaro) de David M. Thompson. Estados Unidos, 1992. Documentário. 78min. Versão original sem legendas. Exibição em MP4 (H264). Classi?cação indicativa 10 anos.
Dia 11 (segunda-feira), às 17h - Master Class: Vittorio Storaro – apresentação da palestra “Escrevendo com a luz”, pelo renomado diretor de fotogra?a italiano. Evento para pro?ssionais associados e convidados da ABC e da Cinemateca do MAM.
Dia 15 (sexta-feira), às 18h - Storaro, Mestre da Luz – “Maomé, mensageiro de Deus” (Mohammad Rasoolollah) de Majid Majidi. Irã, 2015. Com Mahid Pakdel e Sareh Bayat. 162min. Legendas em português. Exibição em MP4 (H264). Classi?cação indicativa: Livre.
Dia 23 (sábado), às 16h – Storaro, Mestre da Luz – “Último tango em Paris” (Ultimo tango a Parigi) de Bernardo Bertolucci. Versão integral. França/ Itália, 1972. Com Marlon Brando e Maria Schneider. 136min. Legendas em português. Exibição em .mov (H264). Classi?cação indicativa: 18 anos
Dia 24 (domingo), às 16h – Storaro, Mestre da Luz – “Os passos” (Le orme) de Luigi Buzzoni e Mario Fanelli (não-creditado). França/Itália, 1975. Com Florinda Bolkan, Peter McNery e Klaus Kinski. 96min. Legendas em português. Exibição em DVD. Classi?cação indicativa: 18 anos
Serviço
Mostra Vittorio Storaro. Dias 10, 15, 23 e 24/6. Horários e classi?cação: consultar a programação. Entrada franca.
Exposição fotográ?ca:
“Escrever com a Luz”, de Vittorio Storaro
Abertura da exposição: 9 de junho, das 15 às 18h (para convidados). Data: de 10/6 a 8/7 Horários: De ter. a sex. , das 12h às 18h; Sáb, dom. e feriados, das 11h às 18h
Classi?cação: Livre
Ingressos a R$ 14, R$ 7 (estudantes acima de 12 anos e maiores de 60). Amigos do MAM e crianças até 12 anos, entrada franca. Às quartas, a partir das 12h, entrada franca. Domingos ingresso família, para até 5 pessoas: R$14
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Av. Infante Dom Henrique, 85 - Parque do Flamengo; Tel.: 3883 -5600; https:// www.mamrio.org.br)