Cinquenta anos depois, contestadores ao redor do mundo mais uma vez voltam o olhar para as barricadas de Paris. Livros, filmes, exposições e artigos comemoram os dias em que a juventude universitária se aliou à classe trabalhadora para enfrentar a polícia e o Estado, esperando encontrar no passado sementes para transformações do presente.
Mas e se, além de uma bela herança, as homenagens àquela época forem também uma nostalgia que ofusca, confunde e compromete as lutas dos oprimidos hoje? É esta a opinião do filósofo e sociólogo francês Geoffroy de Lagasnerie, um dos mais influentes e comentados pensadores contemporâneos do país onde Maio aconteceu.
Nascido em 1981, Lagasnerie é especialista em Sociologia da cultura e vida intelectual. Em diversos livros e artigos, reflete sobre formas de ação política e a relação entre intelectualidade e militância. Reivindicando-se herdeiro de autores associados a Maio de 68, como o sociólogo Pierre Bourdieu e os filósofos Michel Foucault e Gilles Deleuze, afirma buscar atualizar os pensamentos desses autores para confrontos do presente.
Isso o levou a se afastar das homenagens a Maio. Ao mesmo tempo em que diz “sentir emoção ao ver imagens de passeatas”, percebe nas reverências “um ódio do presente”.
De acordo com Lagasnerie, Maio de 68 se tornou “um fetiche”: algo que as pessoas gostam de elogiar para se sentirem politizadas, ao mesmo tempo em que ignoram injustiças e desgraças atuais. Descrito pela importante rádio “France Inter” e pela revista “Les Inrock” como um dos maiores pensadores da França na atualidade, Lagasnerie só tem um livro publicado no Brasil: “A última lição de Foucault” (Três Estrelas, 2013), sobre o interesse do autor de “Vigiar e punir” pelo pensamento neoliberal ao fim da vida.
Na França, publicou, entre outros, “L’art de la révolte. Snowden, Assange, Manning” (Fayard, 2015), sobre o vazamento de informações sigilosas; “Juger:L’État Pénal face à la Sociologie” (Fayard, 2016), sobre o sistema penal; e “Penser dans un monde mauvais” (PUF, 2017), sobre a universidade e o engajamento político dos intelectuais. Suas obras já foram traduzidas na Alemanha, nos Estados Unidos, na China e na Argentina, entre outros. Nesta entrevista, o filósofo fala sobre o legado de Maio e como acredita que se possa transformar o presente.
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JORNAL DO BRASIL: Maio de 68 completa 50 anos. Em todo o mundo, homenagens são prestadas à época, com livros, filmes e artigos. Como você vê todas estas celebrações?
GEOFFROY DE LAGASNERIE: Pessoalmente, sempre tive um sentimento estranho diante da celebração de Maio de 68. Eu consigo sentir emoção ao ver cartazes e as imagens de passeatas, greves, ocupações de usinas ou universidades. Ao mesmo tempo, sinto sempre um grande sentimento de mal-estar. Percebo sempre uma espécie de ódio do presente nesses elogios a Maio. Ao engrandecer imagens antigas e formas políticas do passado, não vemos nem falamos das lutas contemporâneas e do que acontece hoje.
Qual a função dessas celebrações?
Falar, celebrar e escrever não são necessariamente atos engajados. E então coloco a pergunta: toda esta energia que vemos na imprensa e na universidade para falar de Maio de 68 não é suspeita? Por que essas pessoas não dedicam tanto tempo para tornar visíveis as lutas contemporâneas? Penso que há uma função objetiva do mito de 68 em nossa cultura: ele permite que falemos de política de maneira distanciada. O mito provoca a impressão de que se está agindo politicamente, mas sem que seja preciso confrontar a realidade política atual. Maio de 68 turva a visão do presente.
Você então pensa que esta memória não é necessariamente útil para as lutas dos movimentos do presente?
Hoje em dia vivemos uma paisagem de contestação totalmente diferente daquela de Maio. Temos, por exemplo, os antifascistas, os black blocks as lutas anti-racistas, o movimento LGBT, mobilizações contra a violência policial e a luta ecológica. Há ainda quem vaze informações sigilosas de interesse público muito relevante, como, por exemplo, Julian Assange e Edward Snowden, ou quem resista à privatização dos serviços públicos, ou lute contra o capital financeiro...Todas essas lutas abrem novas frentes de combate, com problemas específicos. Fetichizar Maio de 68 corresponde a aprisionar o presente no passado, como se a política fosse imóvel, se enfrentássemos sempre os mesmos inimigos abstratos: “o capitalismo”, “o Estado”. E então esquecemos completamente que os sistemas de poder são históricos e que as lutas se transformam. Imaginamos às vezes que a referência a Maio de 68 nos traz energia e esperança. Na verdade, ela pode mutilar as lutas de hoje, nos impedir de perceber que o mundo se transformou. Ao elogiarmos aquela época, nos comportamos como se não vivêssemos no presente. Ou seja, os elogios mutilam a nós mesmos.
Maio de 68 também costuma ser associado a modos de ação: assembleias, greves, passeatas. Considerando o fim a que se propõem, você considera estes métodos eficazes?
Frequentemente, ao refletirmos sobre política, nos limitamos a pensar em ideologias e objetivos, mas analisamos pouco como agir. O campo da contestação é um dos mais codificados da vida social: frequentemente acreditamos que somos livres, mas assumimos formas codificadas de nos rebelar. Fetichizar Maio de 68 é também fetichizar modos de ação, como o comício ou a passeata. Se 68 é nossa referência, então corremos o risco de, ao lutar, querer reproduzir as imagens que vemos. Assim, utilizamos formas de ação desatualizadas, que já perderam a eficácia e estão integradas aos sistemas de poder. Quais modos de ação podem pegar o sistema de surpresa? Acredito que, hoje em dia, muitos grupos militantes usam formas de ação direta, a partir de pequenos grupos, e isso me parece muito interessante. Interesso-me também pelo vazamento de informações como nova forma de ação e por novos personagens subversivos, por exemplo.
No Brasil, há uma enorme greve de caminhoneiros acontecendo. Você acabou de se perguntar se greves ainda são úteis. O que este episódio lhe diz?
Acredito que a política é uma questão concreta. Tudo é questão de estratégia: devemos sempre pensar localmente, estrategicamente. Devemos utilizar aquilo que é suscetível de produzir efeitos ou não, aquilo que permite produzir uma relação de força e intimidar os dominantes. Neste sentido, a greve pode ser uma ferramenta útil. O que quero dizer é que não se deve fetichizar as formas de ação. O importante não é a forma empregada, mas sim se ela é eficaz, se permite que as reivindicações sejam impostas. Se a greve consegue fazer isso, então acho excelente. Se, por outro lado, ela não leva à vitória, então acho necessário usar a imaginação. Do contrário, ao invés de lutar, toda a energia será desperdiçada.
E quais são os princípios de um pensamento crítico, engajado e emancipatório em sintonia com o nosso tempo? Qual é a função dos intelectuais hoje?
Acredito que todo autor é de algum modo engajado, que escrever e pesquisar são ações públicas, de modo que não existe neutralidade entre os intelectuais, nem separação entre as ciências sociais e o mundo. Todo autor deve pôr a política no centro de sua vida e inventar uma prática intelectual que faça com que os livros e as pesquisas não apenas aumentem a quantidade de saber, mas também libertem alguém. Isto é o que dizia [o filósofo Michel] Foucault: tudo o que faço deve servir para algo. Este é o tema de meu último livro, “Pensar em um mundo malvado” (“Penser dans un monde mauvais”, 2017). O desafio de um pensamento crítico para mim é interrogar os dispositivos acadêmicos que o neutralizam, que limitam sua circulação ou efeitos políticos. No espaço político, às vezes falamos de blacks blocks, estes militantes que querem desestabilizar as formas de manifestação para torná-las combativas. Eu quero ser o black block da teoria.
Onde ainda podemos encontrar o espírito de 1968?
O espírito de Maio de 68 está em toda parte. Está na vida, no real, na realidade das vidas vividas. [O filósofo] Gilles Deleuze dizia, soberbamente, que Maio de 68 não foi de modo algum um momento utópico, imaginário. Ao contrário, afirmava, tratou-se de uma erupção do real. Foi a aparição das pessoas como elas realmente são, indo contra os parâmetros censuradores da cena pública. E as pessoas, como realmente são, se drogam, não têm vontade de trabalhar, têm vontade de destruir tudo, de fazer amor, etc. Maio de 68 foi a vida autêntica contra as forças que nos impedem de ser aquilo que gostaríamos de ser e de dizer aquilo que gostaríamos de dizer. Poderíamos portanto dizer que Maio de 68 está sempre conosco.
Desde o “Occupy Wall Street”, surgiram em várias partes do mundo movimentos com características em comum: condução pela juventude, organização horizontal sem liderança e ausência de exigências concretas, entre outras. O que acha destes movimentos?
Esta é uma questão muito importante, que diz respeito às formas da política atual. Desde o Occupy [Wall Street, movimento em Nova York em 2011], se impôs uma ideia da política como encontro, como assembleia geral de indivíduos que não exigem nada, que querem a abolição do “sistema” e acreditam que formas horizontais de organização são naturalmente subversivas e antineoliberais. Para mim, esta forma de luta tem uma aparência muito ambiciosa e importante. Apesar disso, ela é muito problemática, porque dissolve as questões específicas, fazendo com que a luta política vise um inimigo abstrato e inatingível. Devemos fazer o inverso: afirmar o caráter local e específico das lutas, desenvolver sua singularidade. Isso é muito mais eficaz do que afogar-se em demandas que não podem ser obtidas, porque sempre se está em relação com um horizonte realizável e concreto. Para mim, movimentos como o Occupy e o “Nuit Debout” (em Paris, em 2016) fazem com que as energias contestadoras sejam direcionadas para abstrações, o que explica sua ineficácia e seus insistentes fracassos.
E como vê a ascensão conservadora ao redor do mundo? Quem é responsável por ela?
A responsabilidade pelo crescimento das forças reacionárias e dos movimentos fascistas em escala internacional se deve antes de tudo aos estados e governos, que adotam políticas violentas para as minorias e para as classes populares, produzem desespero e precariedade, gerando afetos negativos no mundo social. Apesar disso, se é verdade que os estados têm responsabilidade avassaladora na situação atual, isso deve levar a uma reflexão sobre a esquerda, a radicalidade, os movimentos sociais e a relação de todos eles com as instituições. Acredito cada vez mais que a decisão de quem se identifica como radical de não participar das instituições entrega o centro e o Estado às forças conservadoras. A decisão daqueles que se definem como radicais de não frequentar as grandes escolas de Administração, de Direito e de Ciência Política, por exemplo, abandona o Estado à direita. O que aconteceria se tivéssemos membros do governo e dos tribunais que fossem anarquistas? Isto poderia produzir muito mais transformações do que fazer manifestações a cada seis meses. Deveríamos investir em uma prática radical de infiltração. Um dos desafios da esquerda contemporânea é se reapropriar do aparelho de Estado para transformar a direção das instituições.