Agente Nathan Never e o detetive Nick Raider levam às bancas um olhar mais adulto do heroísmo

Dominada por vigilantes mascados da Marvel e da DC e pela fauna japonesa dos mangás, as bancas brasileiras acabam de ganhar um reforço importado da Itália com dois heróis de carne, osso e mira certeira, que apostam numa dramaturgia mais adulta, de olho na violência das ruas. De um lado, o mais fantástico, futurista, está o agente Nathan Never; do outro, mais barra pesada, na Nova York dos nossos dias, vem o detetive Nick Raider. Ambos nasceram numa oficina de prensar aventuras, localizada em Milão, chamada Sergio Bonelli Editore, um selo editorial criado em 1940 e que vende cerca de 500 mil HQs mensalmente, entre os quais o caubói Tex e o guardião florestal Zagor. Criados há 30 anos na indústria dos fumetti (termo em italiano para história em quadrinhos) e apresentados aos leitores nacionais em gibis dos anos 1990, Never e Raider voltam ao Brasil em revistas inéditas, editadas aqui pela Mythos, com tramas antenadas com conflitos urbanos dos novos tempos.

“Estou na Bonelli há três décadas e, quando criamos Nathan, ele era uma projeção de nossos sonhos acerca de como seria o mundo no futuro. Nem computador a gente tinha. Visto hoje, o mundo tecnológico que criamos parece um espelho da realidade à nossa volta”, diz Antonio Serra, um dos mais respeitados escritores de quadrinhos da Itália, que criou Never em parceria com dois conterrâneos seus da Sardenha, Michele Medda e Giuseppe Vigna em 1988, levando-o às bancas três anos depois, cheio de influências do filme “Blade runner” (1982). “A gente via o futuro com um romantismo que já não existe mais. Hoje, as atuais minisséries do herói se ambientam em futuros alternativos”. 

Edição número 1

No amanhã onde Never usa engenhocas científicas – e raio laser - para debelar o Mal, a Terra terceirizou a segurança pública: agências como a Alfa é que são pagas para proteger cidadãos que pagam por proteção. Litros de chuva empapam os caminhos pelo qual Never se esgueira na edição número 1 que a Mythos põe à venda este mês, com tradução do bamba Júlio Schneider: “Os olhos de um estranho”. Medda assina o enredo e Stefano Casini, os desenhos. “Por essa trama vocês, brasileiros, podem entender o tom anti-heróico de Nathan e o quanto ele destoa dos valores clássicos de nossos heróis, como Tex”, diz Serra, lembrando que as HQs de seu justiceiro hi-tech arranham uma venda de cerca de 40 mil exemplares ao mês.

Já “A quarta testemunha”, HQ que inaugura a série de Nick Raider, põe o tira nova-iorquino - criado em 1988 por Claudio Nizzi - às voltas com uma colaboração com o FBI na investigação de um homicídio. Mas a parceria por vezes será incômoda para o seu senso de vigilantismo. 

“Nick tem muito das narrativas de telefilme, lembrando Dirty Harry, o inspetor imortalizado por Clint Eastwood”, diz Serra. “A diferença é que Raider é um Dirty Harry mais doce”.

Raider e Never são filés no cardápio de heróis da Bonelli, que segue mensalmente à oferta no Brasil com revistas como “Tex”, “J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga” e “Zagor”. Entre as atrações mais esperadas da Bonelli para este ano, fora seus personagens regulares, destaca-se “Cani sciolti. Sessantotto”, uma edição especial escrita e desenhada por Gianfranco Manfredi sobre os 50 anos de maio de 1968, tendo como foco as agitações estudantis. 

* Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)