'Sim' da Irlanda ao aborto: um duro golpe para a Igreja católica

O "sim" da Irlanda ao direito ao aborto significa um duro golpe para a Igreja católica, outrora muito influente no país, e serve de exemplo para a vizinha Irlanda do Norte, muito repressiva nesse tema - avaliam jornais irlandeses e britânicos neste domingo (27).

Com uma maioria inequívoca de 66%, os irlandeses aprovaram a liberalização do aborto no referendo histórico realizado na sexta-feira, em um país de forte tradição católica, três anos depois de legalizar o casamento homossexual.

Dublin, que classificou a mudança legal de "revolução tranquila", espera autorizar, antes do final do ano, a prática do aborto durante as primeiras 12 semanas de gravidez, e até as 24 semanas por motivos de saúde.

"Quando eu era jovem, você não podia comprar preservativos, ser homossexual, se divorciar, nem ver 'A vida de Brian'" (um filme dos Monty Python), tuitou Jason O'Mahony, jornalista da edição irlandesa do "Times".

"Agora somos um dos países mais liberais do mundo. Incrível", completou.

O "Irish Times" resume a mudança com estas palavras: "a ilusão de uma Irlanda conservadora e dogmaticamente católica foi pelos ares".

"O que aconteceu no referendo é um cataclismo, mas foi um cataclismo ainda maior a tomada de consciência de que o voto refletia, sobretudo, uma mudança, em vez de iniciá-la", acrescentou o jornal.

"Nossa força não está em nosso passado, mas em nosso futuro", completou.

O tom é idêntico no "Sunday Business Post", que celebra a "Geração Sim" e considera que os irlandeses lutaram contra seu passado e votaram para 'redefinir seu futuro.

Para o "Sunday Independent", "a impressionante margem do 'sim' minimiza a política tal como a conhecemos e amplifica um ruído visceral, gutural, que traduz uma vontade de pôr fim a décadas de hipocrisia e de vergonha".

No Reino Unido, "The Observer" diz acreditar que os resultados da consulta mostram não apenas um amplo apoio aos direitos das mulheres, mas também "uma ruptura com um dos últimos vestígios da influência da Igreja sobre o Estado".

Já o "Sunday Telegraph" afirma que "essa decisão terá consequências na Irlanda do Norte", onde, ao contrário do resto do Reino Unido, o aborto é permitido apenas quando a vida da mãe está em perigo. Em todos os demais casos, as mulheres que se submetem a uma interrupção voluntária da gravidez podem ser condenadas à prisão perpétua.

- 'Situação anormal' -

Entre a multidão que foi, no sábado (26), celebrar a vitória do "sim" no castelo de Dublin, havia várias mulheres da Irlanda do Norte, incluindo as chefes do partido republicano Sinn Fein na Irlanda, Mary Lou McDonald, e na Irlanda do Norte, Michelle O'Neill, que levavam um cartaz com a mensagem "O Norte é o próximo".

"Achamos que será um trampolim para o movimento na Irlanda do Norte", opinou Claire, uma moradora de Belfast de 27 anos.

Depois da publicação dos resultados, a pressão crescia neste domingo em torno da primeira-ministra conservadora Theresa May para que faça uma reforma nessa província britânica, que não tem governo local (normalmente competente nessa matéria) desde 2017.

"Um dia histórico (...) para a Irlanda, e espero que também seja para a Irlanda do Norte", tuitou a ministra britânica de Desenvolvimento Internacional e secretária de Estado para as Mulheres e a Igualdade, Penny Mordaunt.

"Esta esperança deve se cumprir", acrescentou, refletindo a opinião de muitos deputados, tanto na oposição quanto na maioria conservadora.

"A situação na Irlanda do Norte é muito anormal e se deve tomar medidas. Theresa May não pode permanecer calada diante dessa questão", disse Vince Cable, líder do Partido Liberal Democrata.

Mesmo o Sinn Fein e os nacionalistas do SDLP, que se apoiam no eleitorado católico, apoiam a legalização do aborto. A perspectiva de uma mudança rápida parece improvável, porém. Seria uma jogada arriscada para May, cuja maioria parlamentar depende do DUP, um pequeno partido ultraconservador e unionista.

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