Cordel ‘Erotismo e risco na política’ propõe mistura entre vida pública e privada

Tatiana Roque tem trajetória singular. Além de premiada historiadora da Matemática – seu livro “História da Matemática: uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas” (Zahar, 2012) foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2013 –, a professora da UFRJ há décadas mantém um vivo e agudo interesse em filosofia contemporânea, sobretudo no pensamento de autores que analisam as ligações entre política e subjetividade como Gilles Deleuze e Michel Foucault. Seu pensamento busca manter-se próximo à prática, e, também por isso, de setembro de 2015 a outubro de 2017, ela foi presidente do Sindicato dos Professores da UFRJ. 

Nos últimos anos, Tatiana tem estudado sistematicamente as transformações do capitalismo, do trabalho e da esquerda. Um dos resultados desta pesquisa pode ser conhecido a partir de hoje, com o lançamento do ensaio “Erotismo e risco na política”,   às 16h, no Centro Carioca de Design (Praça Tiradentes, 48). No texto, a autora discute os efeitos da introdução de novas personagens – mulheres negras, negros, minorias sexuais – na política brasileira. Segundo a filósofa, as vozes e perspectivas destes grupos, até então silenciadas, produzem abalos em quem até então se considerava ator principal da política – inclusive dentro da própria esquerda. A publicação em forma de cordel pertence à coleção Pandemia, da editora n-1 (que já lançou textos de filósofos como Giorgio Agamben e Vladimir Safatle e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, entre outros). A programação do evento inclui uma aula pública com a escritora Conceição Evaristo, a interpretação de sucessos de Gal Costa por Daniela Mattos e uma leitura do próprio texto, além de uma conversa de Tatiana com o filósofo Peter Pál Pelbart.

Em que consiste a introdução do erotismo e do risco na política à qual se refere o título? 

Me refiro aos efeitos da entrada de mulheres, negras e negros na política. Com ela, tudo que era da ordem do privado e do íntimo passa a fazer parte da vida pública. Há uma vigilância muito forte ao comportamento feminino. Por hábito, uma série de afetos só tem espaço em casa – aquela velha ideia de “dama na rua e puta na cama”.  Essa separação entre o afetivo, que é íntimo, e a razão, pública, é artificial. Ela é produzida, não é dada. Em contraponto a isso, proponho a introdução de uma dimensão intempestiva, emocional e afetiva na vida pública e nos modos de organização política. A pessoa pode colocar as emoções ao fazer política, não precisa escondê-las. Isso na verdade é um lado incontornável e irresistível que antes era limitado ao privado. Por isso  falo em erotismo. 

Isso corresponde ao ? m da divisão entre público e privado? De que modo ela ? ca? 

Não proponho acabar com esta divisão, mas repensar o modo como foi feita: a noção de que os afetos dizem respeito ao íntimo e que a neutralidade é pública. Esse neutro não é neutro, mas imposto como certo modo hegemônico, de modo a excluir quem não se encaixa nesse padrão. Em resumo, tudo que não é homem branco não é considerado neutro.

E de que modo isso se traduz? Há uma crítica às reuniões intermináveis entre homens, onde fala-se por horas e não se chega a lugar nenhum. Como uma reunião entre mulheres seria diferente? 

Nessas reuniões entre homens há muita falação para se exibir, mas pouca concretude. Homens gostam muito de medir o tamanho das coisas. Nas reuniões de mulheres há mais propostas concretas. O homem tem o que chamo de vício da secretária: falam muito em coisas que não vão dar em nada, achando que a secretária vai resolver.

Falar em “o homem” e “a mulher” não é uma abordagem essencialista? 

Estou falando de como as coisas têm sido, não de como têm de ser. É cultural, não é genético. Escrevo justamente para ver se mudam, porque pode ser diferente.

Seu texto critica a designação “lutas identitárias” aos movimentos emergentes. Em que se fundamenta esta crítica? 

Entendo estes movimentos como anti-identitários, porque criticam o lugar hegemônico da cultura eurocêntrica, branca e masculina. Essas características, sim, constituem uma identidade hegemônica. Os movimentos de mulheres, negras e negros fazem justamente o contrário: põem a identidade preponderante em questão, a perturbam. 

Você se refere a um incômodo entre homens  brancos, provocado por novos grupos reivindicando mais espaço na política. A que atribui esse mal-estar? 

Esse incômodo é o que mais me surpreende. Penso que ele tem a ver com impaciência em lidar com a novidade. Tudo que é novo inicialmente assusta, sobretudo o que surge com intensidade. As pessoas não sabem lidar com o novo e querem colocá-lo em caixinhas por isso. 

Há quem diga que, ao enfatizar fatores como raça e gênero, a esquerda deixou de lado a noção de classe, o que  explica a ascensão conservadora.

 É verdade que a esquerda tem perdido contato com a classe trabalhadora, mas isso acontece porque seus próprios conceitos e práticas não conseguem incorporar mudanças no mundo do trabalho. Há uma série de motivos que dizem respeito a estas dificuldades, mas todas estão ligadas a mudanças no próprio mundo do trabalho. Essa crítica costuma ser importada dos EUA e da Europa para pensar o Brasil, quando nosso contexto é completamente diferente. As conquistas dos movimentos no Brasil são muito mais recentes