Cannes: desafiando adversidades, Dom Quixote do cineasta Terry Gilliam é uma obra-prima

Único integrante do Monty Python, grupo responsável pela reformulação da comédia inglesa nos anos 1970 e 80, nascido nos EUA, Terrence Vance Gilliam comeu o pão que o Diabo não quis, e Miguel de Cervantes amassou, para tirar do papel “Th e man who killed Don Quixote”, atração de encerramento do 71° Festival de Cannes, a ser projetado esta noite. Perdeu financiamentos, viu um dos atores que escolheu morrer (Jean Rochefort), foi processado por produtores. Mas nunca perdeu o humor: “Se este filme sair, vou voar de asa-delta pelado pela Europa”, prometeu ele, em 2000, quando tentou começar as filmagens. 

Em 2016, com a adesão do astro Adam Driver (o neto de Darth Vader em Star Wars), veio o sinal verde. Hoje é a gala do filme. Filmaço, aliás. A espera foi válida. “Quixote é um herói na medida em que desafia o conformismo para realizar seu sonho. Ele seria capaz de inventar um gigante, se precisasse combater um”, diz o diretor, que teve seu périplo para rodar a saga de Quixote registrada no documentário “Lost in La Mancha”: “Don Quixote é como uma doença que fica dentro de nós”. Projetada em público ontem, no balneário de Cannes, após driblar uma ação judicial que quase tirou seu posto de filme de encerramento do mais prestigiado festival de cinema do mundo, esta dionisíaca releitura do clássico de Miguel de Cervantes é aberta com uma cartela de texto comentando a ação: “Os produtores não sairão prejudicados daqui”; Tem outra comemorado sua realização, onde se lê, com humor: “Enfim... depois de 25 anos de acertos e desacertos...”. Assim começa a jornada pela cabeça de Quixote. Uma jornada que rachou opiniões. Definido por alguns como um equívoco sem um pingo de graça e por outros como uma obra-prima, “Th e man who killed Don Quixote” é uma releitura livre e pop do texto de Cervantes com uma direção de arte magistral. 

Impressiona a atuação (digna de Oscar) de Adam Driver como um Sancho Pança dos novos tempos. Jonathan Pryce esbanja romantismo como Javier, sapateiro de uma vila espanhola que, anos atrás, viveu Quixote no filme de conclusão de curso de Toby (Driver, em brilhante atuação). No momento em que volta à Espanha, a fim de rodar um comercial, Toby se vê impelido a voltar às raízes. Por isso decide encontrar Javier, que, tomado pelo contato com as artes, passou a crer que é o próprio Cavaleiro da Triste Figura. Javier pensa que é Quixote e vê em Toby seu Sancho ideal, arrastando o garoto para lutar contra os gigantes do mundo de hoje. Gostando-se ou não dos caminhos tomados por Gilliam, não há como negar o quanto o realizador de “Brazil, o filme” (1985) se recicla como narrador nesta empreitada pelo mundo da fabulação. Neste sábado, Gilliam tem uma entrevista coletiva marcada com a imprensa às 12h30. Seu Quixote volta a ser exibido na cidade à noite, depois da premiação. Conheça os favoritos abaixo: 

OS FAVORITOS A PRÊMIOS 

“Capharnaüm”: Com o dom de arrancar litros de choro, ao falar de um garoto de 12 anos que processa seus pais por abandono e descuido, Nadine Labaki criou uma narrativa capaz de viajar da fofura à tragédia, abordando ainda temas como a violência contra a mulher e a imigração ilegal numa narrativa arrebatadora, digna da Palma de Ouro ou do Grand Prix; 

“BlackKklansman”: Com base na saga real de Ron Stallworth, policial negro do Colorado que, em 1979, infiltrou-se em uma célula da Ku Klux Klan, pode dar a Spike Lee o Gran Prix... ou a Palma... pela ironia e pela precisão com que faz uma radiografia do ódio; 

“Leto”: Preso sob falsa acusação de malversação de verbas públicas, o cineasta russo Kirill Serebrennikov botou Cannes no bolso com este musical sobre a cena roqueira da União Soviética, impondo-se como favorito à láurea de direção; 

“En guerre”: Mistura de Ken Loach com Costa-Gavras, Stéphane Brizé é o novo pilar do cinema político da Europa, especializado em tramas sobre falência econômica, e merece, aqui, o Prêmio do Júri pela arrojada linguagem, de tons documentais,  com que narra uma luta sindical;

 “Dogman”: Marcello Fonte e Edoardo Pesce devem dividir o prêmio de melhor ator de Cannes, pois se completa como presa e predador neste faroeste contemporânero sobre a vingança de um tratador de cães traído por um amigo bandido; 

“Wild pear tree”: Um dos xodós de Cannes, laureado com a Palma em 2014 por “Sono de inverno”, o turco Nuri Bilge Ceylan pode vencer nas categorias de roteiro e direção pela saga de um aspirante a escritor às voltas com dívidas de seu pai; 

“Ash is purest white”: Embora não seja o melhor trabalho do chinês Jia Zhang-ke, esta radiografia da lealdade entre gângsters de periferia da Ásia deve dar a Zhao Tao o prêmio de melhor atriz, por seu desempenho como a empoderada faz-tudo de uma gangue; 

“Shoplifters”: Dono de uma média de dois longas lançados ano, o japonês Hirokazu Koreeda fez nesta comédia dramática um trabalho além de seus padrões, falando do dia a dia de uma família de larápios num roteiro com força e carisma para ser premiado como o melhor da Croisette.

PAJELANÇA NA UN CERTAIN REGARD 

Devargarzinho, sem fazer alarde, o Brasil encheu a mala de prêmios em Cannes, apoiado numa parceria com Portugal. Ontem, “Chuva e cantoria na aldeia dos mortos” recebeu do ator Benicio Del Toro o Prêmio Especial do Júri da mostra Un Certain Regard, do festival francês. Trata-se da seção paralela mais disputada e respeitada do evento. O longa foi rodado em Tocantins, com foco nas transformações dos índios Krahô. A direção é da paulista Reneé Nader Messora e do lisboeta João Salaviza. A imersão da dupla naquele universo, a partir das angústias de um jovem obrigado a lidar com tradições de fé e rituais metafísicos de sua população indígena, deu ao fi lme uma potência visual única entre os concorrentes. httpss://www.youtube.com/watch?v=G-B1PnO6hsI

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Criticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)